Quase sete em cada dez crianças e adolescentes internados por acidente no Rio Grande do Norte em 2025 foram parar no hospital por causa de uma queda. O Estado contabilizou no ano passado 1.278 internações por acidente na faixa de 0 a 14 anos, e 861 delas decorreram de quedas — 67,4% do total. Nenhuma outra unidade da Federação incluída no levantamento apresentou fatia tão alta. O estudo é do Projeto Criança Segura, iniciativa da organização Aldeias Infantis SOS, e foi feito com base em dados do Ministério da Saúde.
Cair da cama, da escada, do brinquedo do parquinho ou no meio de uma brincadeira faz parte da infância. O que destoa, no caso potiguar, é a frequência incomum com que esse tipo de acidente aparece entre os casos graves o bastante para exigir internação.

O número ganha outra dimensão quando é posto ao lado do cenário brasileiro. No Brasil inteiro, foram 128.466 hospitalizações de crianças e adolescentes de até 14 anos por acidente em 2025, e as quedas explicaram 43,4% delas. No Rio Grande do Norte, onde a fatia foi de 67,4%, a participação das quedas ficou 24 pontos percentuais acima dessa média nacional.
Esse dado revela uma característica própria do Estado. Em volume absoluto, o Rio Grande do Norte não está entre os que mais internam crianças e adolescentes por acidente — as 1.278 hospitalizações correspondem a cerca de 1% do total do País, que somou 128.466. Levando em conta o tamanho da população, também fica abaixo da média: a taxa potiguar é de 39 internações por 100 mil habitantes, contra 63 no Brasil. Esse tipo de taxa é o que permite comparar lugares de tamanhos diferentes, porque divide o número de casos pela população.
Em outras palavras, o Estado hospitaliza proporcionalmente menos por acidente de modo geral. Mas, entre as crianças e os adolescentes que chegam ao hospital, a queda tem um peso muito maior do que no restante do País — é essa concentração em determinadas causas que diferencia o perfil local.
“As quedas fazem parte do dia a dia de crianças e adolescentes e podem ocorrer em diferentes ambientes, muitas vezes em situações que parecem corriqueiras. Quando mais de dois terços das hospitalizações por acidentes no Estado estão relacionadas a esse tipo de ocorrência, temos um sinal importante para ampliar a prevenção e tornar os espaços frequentados pelas crianças, como suas casas, escolas e praças, mais seguros”, afirma o cientista social José Carlos Sturza de Moraes, pesquisador do Criança Segura, projeto da Aldeias Infantis SOS.
Justamente por estar em toda parte, a queda é um risco difícil de prevenir. Ao contrário de perigos ligados a situações específicas, ela pode acontecer em casa, na escola, na área de lazer ou numa atividade qualquer da rotina. O levantamento recomenda olhar com cuidado para esses lugares e descobrir o que, em cada um deles, é capaz de transformar um tropeço ou uma brincadeira numa lesão que termine em internação.
O trânsito vem em segundo lugar entre os acidentes que mais internam crianças e adolescentes no Estado. Foram 192 hospitalizações de crianças e adolescentes causadas por sinistros de trânsito — o termo técnico para os acidentes nas vias — em 2025, o equivalente a 15% dos registros potiguares. De novo, o índice ficou acima do nacional: no Brasil, os sinistros de trânsito responderam por 11,3% das internações por acidente na faixa de até 14 anos.
“Os dados do Projeto Criança Segura nos convocam a transformar informação em prevenção e prevenção em políticas públicas. No Rio Grande do Norte, 861 das 1.278 hospitalizações de crianças e adolescentes de 0 a 14 anos por acidentes, em 2025, decorreram de quedas — 67,4% do total e a maior proporção registrada entre todas unidades federativas analisadas. O trânsito também exige atenção, respondendo por 15% dessas internações, acima da média nacional de 11,3%”, diz o coordenador de Desenvolvimento Programático da Aldeias Infantis SOS, Francisco de Assis Santiago Júnior.
“Esses números não podem ser naturalizados como simples fatalidades do cotidiano. Prevenir acidentes é proteger vidas e exige corresponsabilidade das famílias, da sociedade e do poder público. O desafio do Criança Segura no Rio Grande do Norte é fortalecer uma cultura permanente de prevenção e cuidado, capaz de produzir ambientes mais seguros e de fazer da proteção integral e da prioridade absoluta da criança uma realidade concreta nas políticas públicas e na vida cotidiana”, completa o coordenador.
Se quedas e trânsito pesam mais no Rio Grande do Norte do que no restante do País, outros acidentes seguem o caminho inverso. As queimaduras levaram ao hospital 96 crianças e adolescentes potiguares de até 14 anos em 2025, o que corresponde a 7,5% das internações por acidente no Estado. No Brasil, essa causa respondeu por 16,6% — mais que o dobro da fatia registrada no Estado.
Nas intoxicações, a distância em relação ao País se repete. O Estado teve 18 internações de crianças e adolescentes por intoxicação, 1,4% do total potiguar, enquanto a proporção nacional chegou a 4,3%. Os acidentes com arma de fogo foram ainda mais raros na faixa de até 14 anos: duas hospitalizações por essa causa no Rio Grande do Norte em 2025, diante de 70 ocorrências contabilizadas em todo o País.
O quadro mostra que olhar só para o total de internações pode esconder particularidades importantes. A taxa potiguar de internações é menor que a brasileira, mas algumas causas ocupam uma parte muito maior dos registros do Estado.
“O resultado chama atenção porque, apesar de o volume geral de hospitalizações estar abaixo da média nacional quando considerado o tamanho da população, determinadas causas apresentam peso proporcional significativo. No caso das quedas, a diferença é particularmente expressiva: elas representam quase sete em cada dez internações estaduais”, observa Sturza. O pesquisador acrescenta que muitos desses casos deixam sequelas para a vida toda e exigem atenção redobrada dos serviços de saúde, porque podem indicar violência e pedir outras medidas de proteção às crianças e às famílias.
O alerta do pesquisador leva o assunto para além da prevenção de acidentes. Uma criança que volta seguidas vezes a um serviço de saúde com lesões de queda, por exemplo, pode precisar de uma avaliação que vá além do tratamento do corpo. Em alguns casos, os profissionais terão de redobrar a atenção para perceber se há outros riscos envolvidos e se a criança e a família precisam de algum tipo de proteção.
As internações mostram quais acidentes levam crianças ao serviço de saúde; as mortes revelam um perfil de risco diferente. O estudo da Aldeias Infantis SOS também examinou as mortes de meninos e meninas de até 14 anos ocorridas no País em 2024. Somadas as oito categorias de acidente que a pesquisa considera, foram 3.341 óbitos naquele ano.
Nesse recorte nacional, a liderança não é da queda, como nas internações potiguares, e sim da sufocação — a obstrução acidental da respiração —, com 1.039 óbitos por essa causa, 31,1% do total. O trânsito aparece logo atrás, com 922 mortes, ou 27,6%, e os afogamentos vêm em terceiro, com 850, o equivalente a 25,4%. Juntas, as três causas respondem por cerca de 84,1% dos óbitos contabilizados nessas categorias.
A idade também muda o risco. Entre as faixas etárias analisadas, a de 1 a 4 anos concentrou o maior número de óbitos: 1.095 crianças, ou 32,8% do total de 3.341. Os bebês com menos de 1 ano vêm em seguida, com 930 mortes, o equivalente a 27,8% do total. Eles são especialmente vulneráveis à sufocação: segundo o levantamento, três em cada quatro vítimas desse tipo de acidente — 75% — ainda não tinham completado 1 ano de vida. Nos afogamentos, a maior parte das mortes se concentrou na faixa de 1 a 4 anos, a mesma que lidera o total de óbitos. Os acidentes de trânsito atingiram perfis mais variados: pedestres, ciclistas, motociclistas e ocupantes de carros e caminhonetes.
Essa variação entre as faixas etárias mostra que prevenir não significa aplicar a mesma receita para toda a infância. Os riscos da rotina de um bebê não são os mesmos que corre uma criança que já circula por ruas, praças, escolas, piscinas e veículos. Na visão da Aldeias Infantis SOS, compreender essas diferenças faz parte do caminho para transformar números em ação concreta.
No Rio Grande do Norte, a organização quer levar essa discussão adiante. Lideranças locais articulam um encontro de reflexão coletiva na capital potiguar, previsto para setembro ou outubro, dedicado à prevenção e à proteção de crianças e adolescentes.