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Investimento

Investimento na indústria extrativa cresce 1.366% em 27 anos, 15 vezes mais que na de transformação, aponta FGV

Aportes na extração de minério e petróleo passam de R$ 630,2 milhões para R$ 9,4 bilhões, a preços de 1995; estudo vê investimento concentrado em recursos naturais
Agora RN
11/09/2026 | 18:03

O dinheiro aplicado na expansão da indústria extrativa brasileira — a de minério e petróleo — multiplicou-se entre 1997 e 2024: cresceu 1.366,42%, segundo um estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV). No mesmo período, os investimentos na indústria de transformação, a que fabrica bens a partir de matérias-primas, aumentaram 88,02%. A expansão proporcional da extração foi, portanto, 15 vezes maior. Para os autores, os números mostram que o investimento produtivo no Brasil ficou cada vez mais concentrado nas atividades de exploração de recursos naturais.

Batizado de “O destino dos investimentos”, o levantamento tem como autores os pesquisadores Ana Letícia Branco, Bruno Tozzi Grandidier e Claudio Considera. Eles acompanharam quase três décadas para descobrir quais setores receberam recursos e medir o efeito dessa distribuição sobre a produtividade da economia.

Trabalhador de avental e luvas solda peças metálicas em linha de produção industrial
Estudo da FGV aponta que a indústria de transformação parou de investir em novas tecnologias — Miguel Ângelo/CNI

A alta da extração deixou para trás, com folga, o crescimento do investimento total no País, que no mesmo intervalo de 27 anos foi de 60,02%. Nos demais grupos, as compras de máquinas e equipamentos subiram 88,61%, e a construção, 26,62%. Já a categoria “outros” — que junta bens tangíveis e intangíveis, como bancos de dados, programas de computador e outros produtos de propriedade intelectual — avançou 141,99%.

Os pesquisadores da FGV enxergam nesses dados uma divisão desigual do investimento entre as principais atividades econômicas. Essa concentração, na avaliação deles, limita a capacidade de a taxa de investimento do País crescer de forma contínua — e ela está abaixo de 20% há 12 anos. A média calculada pela FGV para o período de 1996 a 2025 é de 17,9% do Produto Interno Bruto (PIB). O indicador mostra quanto da riqueza produzida no Brasil vai para ampliar a capacidade de produção, seja em máquinas e instalações, seja em obras ou em ativos de propriedade intelectual. “É uma taxa muito baixa”, resumiu Considera.

Embora a extração tenha crescido mais em termos percentuais, a transformação ainda recebe mais dinheiro em valores absolutos. A preços constantes de 1995, a extração recebeu R$ 9,4 bilhões em 2024, e a transformação, R$ 41,2 bilhões. No começo da série, porém, a distância era muito maior: em 1997, a transformação recebeu R$ 21,9 bilhões, e a extrativa, R$ 630,2 milhões. Naquele ano, a manufatura levava quase 35 vezes o que ia para a extração; em 2024, pouco mais de quatro vezes. É esse salto de patamar da extração que explica por que as taxas acumuladas de crescimento ficaram tão distantes.

“A indústria da transformação, em algum momento, parou de investir, de alocar mais recursos, principalmente em novas tecnologias”, disse Considera. O ritmo mais fraco de investimento coincidiu com a perda de espaço da manufatura na economia. “A transformação chegou a ter fatia de 35% do PIB [nos anos 80] e atualmente tem 13% [13,7% até 2025]”, afirmou o pesquisador. A participação do setor, portanto, encolheu para menos da metade.

Segundo ele, a carga tributária, os juros altos e a pouca inserção internacional ajudaram a travar o investimento na indústria de transformação. A falta de procura lá fora por produtos brasileiros de maior valor agregado — aqueles que embutem mais tecnologia e trabalho na fabricação — também tirou das empresas o estímulo para aumentar a capacidade de produção e adotar novas tecnologias.

Com a indústria extrativa, o quadro é o oposto. Ela está ligada ao mercado internacional pela exportação de commodities — as matérias-primas negociadas em escala mundial —, sobretudo minério de ferro e petróleo. A demanda externa garante escala aos produtores e sustenta novos aportes, mesmo quando a economia interna desacelera.

“O que direciona o investimento é o lucro”, disse Considera. “Porque está se plantando muita soja? Porque você está ganhando muito dinheiro plantando soja. Você investe no que está dando lucratividade. Temos demanda externa enorme por nossas commodities.” Na explicação do pesquisador, a transformação brasileira não vive o mesmo movimento “porque ela não consegue competir com o exterior”.

O desequilíbrio aparece também na produtividade. Pelos cálculos da FGV, a indústria extrativa ficou 120,2% mais produtiva de 1995 a 2021, enquanto a da transformação caiu 7,2%. A construção recuou ainda mais, 16,7%, e a indústria como um todo perdeu 5,3%.

A agropecuária seguiu um caminho bem diferente do da indústria. O estudo não detalha o investimento feito no campo, mas os pesquisadores calcularam que a produtividade do setor subiu 216,8% entre 1995 e 2021 — mais que triplicou. O indicador foi obtido dividindo-se o valor adicionado, isto é, a riqueza gerada pela atividade, pelo número de pessoas ocupadas nela.

Para os autores do estudo, o salto de produtividade na extração reforça a ligação entre o dinheiro recebido pelo setor, a adoção de tecnologia e o aumento do que cada trabalhador consegue produzir.

O estudo chegou a esses números cruzando três fontes: o Monitor do PIB, mantido pela própria FGV; as Contas Nacionais; e pesquisas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) sobre cada setor, que são a Pesquisa Industrial Anual, que cobre as indústrias extrativa e de transformação, a Pesquisa Anual da Indústria da Construção, a Pesquisa Anual de Comércio e a Pesquisa Anual de Serviços. Como cada uma dessas pesquisas tem um ano de referência diferente na edição mais recente, os pesquisadores levaram todos os valores para preços de 1995. Esse procedimento tira da conta a inflação e torna possível acompanhar quanto o investimento cresceu de verdade.

Com essa metodologia, a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), que nas Contas Nacionais representa o investimento produtivo, chegou a R$ 251,4 bilhões em 2024 e a R$ 258 bilhões em 2025. O número de 2025 já existe porque o IBGE divulgou o PIB daquele ano, mas o detalhamento por atividade industrial para em 2024, último ano coberto pelas pesquisas anuais usadas no estudo.

Os dados mais recentes mostram que o investimento continua oscilando. De abril a junho de 2026, a FBCF aumentou 1,2% em relação aos três meses anteriores, menos que os 3,4% do primeiro trimestre. Frente ao mesmo período do ano passado, a alta foi de 1,4%, puxada pelas importações de bens de capital, as máquinas e os equipamentos usados para produzir, e pelo desenvolvimento de softwares, segundo as Contas Nacionais do IBGE.

Na leitura dos autores, a trajetória de longo prazo indica que uma retomada firme do investimento não depende só de mais dinheiro, mas também de distribuí-lo de modo a elevar a produtividade de um leque maior de atividades. Sem essa diversificação, a economia fica mais presa aos setores que exportam matérias-primas e com menos fôlego para expandir a indústria de transformação.