O senador e candidato à reeleição Styvenson Valentim (Podemos) chamou de “bandido”, “safado”, “ladrão” e “vagabundo” o responsável pelo R$ 1,5 milhão apreendido pela Polícia Federal nesta segunda-feira 14, antes de saber que o dinheiro estava na residência do deputado estadual e candidato à reeleição Luiz Eduardo Bento da Silva (PL), seu aliado político. O senador também afirmou que a quantia seria destinada a caixa dois e compra de votos, hipóteses ainda investigadas e não confirmadas pela PF.
Styvenson publicou o vídeo quando a corporação ainda mantinha em sigilo os nomes dos alvos da Operação Sem Lastro. Diante das imagens das cédulas apreendidas, perguntou repetidamente a quem pertencia o dinheiro e pediu que seus seguidores compartilhassem a gravação.

“Quem será, hein? Para quem foi esse saque de um milhão e meio que a Polícia Federal pegou hoje pela manhã, hein? Um milhão e meio para caixa dois, viu?”, afirmou. O senador também levantou a possibilidade de a quantia ser destinada à compra de votos. “Para quem era esse dinheiro? Se ia comprar voto de quem?”, questionou.
Sem apresentar provas sobre a finalidade dos recursos, Styvenson afirmou que o responsável pretendia interferir no resultado da eleição. “Pega lá a pacoteira de um milhão e meio para comprar voto. Desse jeito fica fácil ser eleito”, declarou.
O senador aumentou o tom ao falar sobre o responsável ainda desconhecido. “Espalha o vídeo que eu estou doido para saber de quem foi esse safado aí, esse bandido que está comprando voto”, disse. Em outro trecho, chamou o envolvido de “ladrão” e “vagabundo” e acusou políticos de roubarem dinheiro público para financiar a compra de votos.
Styvenson pediu que a Polícia Federal identificasse o alvo e analisasse as mensagens armazenadas no celular apreendido. “Ei, Polícia Federal, diz aí, homem, de quem é essa pacoteira, com quem foi pego. Abre logo o celular dele para a gente ver as mensagens”, afirmou.
O candidato à reeleição também usou o episódio para reafirmar o discurso de fiscalização adotado durante o mandato. Disse que acompanha a destinação das verbas públicas e que sofre resistência de prefeitos e políticos por cobrar a aplicação dos recursos.
“Eu não respondo a um processo de nada. E o euzinho aqui, mão limpa. Eu sim tenho mão limpa”, declarou. Styvenson afirmou ainda que processaria quem fizesse acusações contra ele sem apresentar provas. “Quem abrir a boca para conversar bosta e não provar, meto no processo no meio das costas”, disse.
Horas depois da publicação, a defesa de Luiz Eduardo reconheceu que os valores sacados estavam guardados na residência do parlamentar. A nota informa que o dinheiro saiu de contas bancárias do próprio deputado e classifica a movimentação como “lícita, declarada e de origem plenamente comprovada”.
Luiz Eduardo negou que os recursos fossem destinados a caixa dois ou despesas eleitorais. Segundo a defesa, o dinheiro não havia sido gasto e a documentação sobre sua origem será apresentada às autoridades. A manifestação não explica por que a quantia foi retirada do sistema bancário, quanto tempo permaneceu guardada em espécie nem qual seria sua destinação.
O deputado é aliado de Styvenson na disputa eleitoral deste ano e declarou apoio à reeleição do senador. Os dois participaram de agendas políticas e mantiveram reuniões sobre a destinação de emendas federais. Em abril, Luiz Eduardo esteve no gabinete de Styvenson, em Brasília, para solicitar R$ 3 milhões destinados a obras de infraestrutura urbana na Zona Norte de Natal.
A ligação política foi explorada pela vereadora de Natal, presidente estadual do PT e candidata ao Senado, Samanda de Lula (PT). Ela questionou se Styvenson manteria contra Luiz Eduardo as acusações feitas quando ainda não conhecia a identidade do envolvido.
“Vai chamar o seu aliado deputado de ladrão?”, perguntou Samanda. A candidata também cobrou uma posição sobre mais de R$ 4 milhões que, segundo ela, teriam sido destinados pelo senador por intermédio de Luiz Eduardo. A composição completa desse valor não foi apresentada na manifestação.
A Operação Sem Lastro cumpriu dois mandados de busca e apreensão em Natal por determinação da Justiça Eleitoral. A PF recolheu celulares, documentos, equipamentos eletrônicos e mais de R$ 1,5 milhão em espécie. Não houve informação sobre prisão ou mandado de prisão.
A investigação apura indícios de falsidade ideológica eleitoral e a possível utilização de recursos financeiros não declarados em atividades de campanha. O comunicado oficial da PF não identifica Luiz Eduardo, não informa quanto foi apreendido em cada endereço nem associa o deputado diretamente à totalidade do dinheiro.
A relação com o parlamentar foi confirmada pela defesa ao reconhecer os saques e a manutenção dos valores em sua residência. Não há, até agora, indiciamento, denúncia do Ministério Público ou decisão judicial reconhecendo caixa dois ou compra de votos. Até a conclusão desta apuração, Styvenson não havia informado se mantinha as acusações e os insultos depois de saber que o envolvido era seu aliado político.