Os questionamentos levantados pelo candidato ao Senado Carlos Eduardo Alves (PDT) a respeito do envio de verbas do Governo Federal para prefeituras do Estado durante a gestão de Rogério Marinho (PL) como ministro são absolutamente pertinentes.
De fato, o orçamento secreto é um problema. Candidatos nas eleições deste ano devem se comprometer a enfrentar este calo no Congresso Nacional a partir de 2023. Sem transparência, não é possível ter clareza sobre os critérios estabelecidos para os repasses – o que abre margem para especulações como a levantada por Carlos.

E se o ministro tiver realmente decidido travar os recursos e só liberado para quem declarasse apoio à sua candidatura?Carlos, porém, erra na forma – e agora colhe os frutos da pouca habilidade política. Ao meter o pé na porta e apresentar uma ação na Justiça Eleitoral da forma como apresentou, inclusive levantando suspeitas sobre a honestidade alheia (sem as devidas provas), Carlos afugentou prefeitos de perto dele e distanciou qualquer possibilidade de entendimento político.
Na prática, o candidato do PDT mirou em Rogério (o que é de se esperar no processo eleitoral) e acertou nos prefeitos e nos benefícios levados para as cidades. Acabou gerando a distorção sobre suas pretensões. Era possível questionar tudo o que ele questionou, mas de uma maneira que não soasse tão agressiva.
Seria talvez mais interessante politicamente mirar nos já fartos indícios de corrupção com base nos recursos do orçamento secreto liberados por Rogério quando era ministro. Foco na origem, não no fim do processo. Até porque, neste caso, uma vez sendo verdadeiras as acusações de Carlos, os menos culpados são os prefeitos, que querem benfeitorias em suas cidades.
E mais: ao agir da forma como agiu, Carlos acabou arrumando um problema para a governadora Fátima Bezerra (PT), em plena campanha de reeleição. No momento em que a governadora busca estreitar laços com os prefeitos, após quatro anos de relação conturbada, o candidato ao Senado dela provoca um conflito envolvendo mais da metade dos gestores do Estado – quando o alvo dos dois é o candidato adversário ao Senado.
A governadora, conhecida por sua habilidade política e busca eterna pelo entendimento, levando para o conflito apenas em último caso, acabou, como se diz no linguajar popular, pagando parte do pato.
E o pior. Tudo sob o risco de não dar em nada do ponto de vista jurídico. Isso porque há analistas que entendem que há um risco de a própria Justiça Eleitoral se declarar incompetente para analisar os fatos narrados. Há quem aponte que há ali mais assunto da esfera da Justiça comum do que da eleitoral.
Ou seja, Carlos pode até ter razão. Mas acabou, politicamente, pisando na bola.