Escolher abrir mão de algo que por muito tempo foi tratado como uma certeza pode ser um processo doloroso, levando até mesmo ao sentimento de luto, mas lidar com rompimentos, aprender a finalizar ciclos tóxicos e traçar novos caminhos são processos naturais à existência humana. Para especialistas em saúde mental, a máxima do “nunca desista”, hoje em dia muito defendida e divulgada em discursos motivacionais e treinamentos de “coachs”, nem sempre pode ser a melhor escolha a se fazer na hora de decidir seus próximos passos. Persistir em relações amorosas, familiares ou profissionais que já não são mais saudáveis, pode ser o início do desdobramento de uma série de problemas relacionados à saúde mental e bem-estar.
O AGORA RN conversou com a psicóloga Geruza dos Anjos sobre quando identificar que a desistência pode ser a escolha mais acertada a ser tomada em relação a nossa vida profissional ou pessoal. Segundo a terapeuta clínica, a cultura do “nunca desista” pode sim trazer benefícios, mas isso vai depender da abordagem que o indivíduo dá a esse discurso. Quando o discurso impede de analisar outras possibilidades e traçar novos objetivos ele pode ser um risco a saúde psíquica e qualidade de vida do ser humano, afirma a psicóloga. “O “nunca desista” é uma cultura que ela tanto pode ser boa como ela pode ser prejudicial para a saúde mental, dependendo de como isso é feito. Então muitas vezes é enfatizado que você precisa ter determinação, que você precisa ter perseverança, mas muitas vezes você precisa mudar o seu rumo, mudar os seus objetivos. Às vezes você vê uma pessoa que faz uma faculdade e desiste, aí você diz assim aquela pessoa é fraca porque desistiu. Não, ao contrário, aquela pessoa é forte porque ela resolveu desistir e ela vai procurar fazer o que gosta.”, ressaltou Geruza.

Quanto aos riscos ao bem-estar psicológico que procrastinar o encerramento de um ciclo pode trazer, a especialista fala que insistir em situações tóxicas podem levar à quadros de depressão e ansiedade, entre outros sintomas “Existe o estresse crônico, que é quando você fica com uma série de problemas mentais, tipo a ansiedade, depressão, distúrbios de sono ou distúrbios alimentares, a sua autoestima começa a baixar, você começa a deixar de sair para fazer o que você gosta e tudo isso também faz com que a sua imunidade baixe e você tenha também problemas de saúde física“.
Por que pode ser tão difícil desistir?
Quando dedicamos tempo, esforço e emoções a algo, pode ser difícil desistir porque estamos emocionalmente ligados àquilo. O medo de perder o que investimos, além de o receio de ferir as expectativas de terceiros ou sofrer rejeição é um dos fatores que causa medo na hora de encerrar um ciclo. Seguir por um novo caminho desconhecido também é um quadro que causa medo e pode nos impedir de desistir de algo para começar o novo.
No cenário profissional, segundo a pesquisa Capita sobre saúde mental no trabalho, 79% dos colaboradores entrevistados relataram ter sofrido estresse no trabalho nos últimos 12 meses, mas apenas 45% consideraram deixar um emprego devido ao estresse que ele causa.
A empresária Anna Luiza, 30 anos, é publicitária de formação e durante 10 anos exerceu a profissão em agências de publicidade e propaganda. Anna relata que durante seus pouco mais de 10 anos de carreira, nem sempre pensou em abandonar a profissão, tinha o desejo de evoluir profissionalmente na área em que se formou, e inclusive concluiu um mestrado em comportamento do consumidor. Foi ao longo dos anos trabalhando em agências de publicidade, e enfrentando situações que lhe deixavam insatisfeita, que surgiu vontade de abandonar a atividade que exercia e seguir por novos caminhos. Há pouco mais de dois anos, Anna abandonou as agências de publicidade e decidiu empreender no mercado de moda digital, abrindo a loja de compras online Let’s Ziggy.
A empresária relata que o processo de amadurecimento e de auto-observação foram fundamentais para a tomada de decisão “Fui observando que eu poderia explorar ainda mais outras vontades minhas, de trazer a criatividade à tona, o que eu desejava há tanto tempo, ser mais ativa nesse processo, ter mais liberdade”.
Mas engana-se quem pensa que tomar a iniciativa para a mudança foi um processo fácil. A ansiedade, insegurança de seguir por um caminho desconhecido, sair da sua zona de conforto e abandonar a ideia de que você nunca pode desistir de algo requer um processo de enfrentamento consigo mesmo. “Sempre encarei que nada vem fácil, eu sempre encarei novos desafios e bora trabalhar com eles mesmo, bora achar soluções e foi isso. Senti medo, mas encarei, eu realmente arrisquei”, revela a empresária.
Assim como nos relatou a psicóloga Geruza, o processo de abandono de uma situação desconfortável, que lhe gerava insatisfação, pode ser positivo para sua saúde mental e bem-estar. A empresária Anna nos contou como foi o impacto dessa experiência para ela.’ “Outros frutos também que adquiri com essa mudança para minha saúde mental foi me perceber e me valorizar de outra forma. Eu entendi que aquele cenário de agência, muitas vezes defasado, enxergava que profissionais, ao meu ver, com menor qualidade, tinham mais reconhecimento, tinham mais valorização, quanto outros, mais capacitados, não tinham. Então eu consigo perceber hoje essa desigualdade mesmo, de percepção, e que é muito bom você trabalhar com liberdade”.
Como aprender a encerrar ciclos sem ser pessimista?
O mais importante é encarar a situação de forma realista e tentar reconhecer os sinais de que a circunstância está sendo prejudicial, levando a ciclos repetitivos de consequências negativas, como excesso de estresse, depressão, alterações de sono, mudanças de humor e isolamento social. A partir disso, o próximo passo é buscar apoio para fazer mudanças positivas, esse apoio pode vir de uma rede pessoal de amigos ou família, acompanhamento profissional com psicólogo e principalmente deve vir a partir da sua decisão pessoal de qual será o seu próximo passo. A partir da finalização do ciclo anterior, por fim resta a busca por se encaixar em uma situação mais saudável, uma relação satisfatória, ou uma atividade que lhe ofereça maior bem-estar e qualidade de vida.