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Saúde mental

Ansiedade lidera incapacidade entre crianças

Pesquisa identifica a ansiedade como principal causa de incapacidade em todas as faixas etárias analisadas e destaca a necessidade de ampliar o acesso ao cuidado precoce
Por O Correio de Hoje
06/08/2026 | 17:56

Antes mesmo de completar dez anos, uma criança brasileira tem mais chance de conviver com algum grau de incapacidade causada por ansiedade do que por qualquer doença física. A constatação faz parte de um dos principais resultados da mais abrangente análise já realizada sobre saúde mental de crianças, adolescentes e jovens no Brasil.

Publicado na revista científica The Lancet Regional Health – Americas, o estudo utiliza dados do GBD 2023 (Global Burden of Disease, ou Estudo da Carga Global de Doenças) e mostra que mais de 15 milhões de brasileiros entre 5 e 29 anos convivem com pelo menos um transtorno mental. O número representa 20,91% de toda a população nessa faixa etária no país.

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Ansiedade já supera doenças físicas como causa de incapacidade entre crianças - Foto: Freepik

Além disso, outros 2,5 milhões de brasileiros — o equivalente a 3,36% do total — preenchem critérios para um transtorno por uso de substâncias.

Pela primeira vez, a situação foi detalhada em intervalos de cinco anos de idade. A pesquisa é liderada pelo psiquiatra Christian Kieling, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e do Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre. Segundo ele, esse recorte entre a infância e o início da vida adulta é determinante para a formulação de políticas públicas.

“Se eu olho para infância e adolescência como um conjunto único, daqui a pouco estou oferecendo serviços que atendam questões de depressão para menores de dez anos.”

Kieling explica que a depressão existe nessa faixa etária, mas é um problema menos frequente. Segundo ele, a prevalência aumenta a partir dos 14 e 15 anos, especialmente entre meninas. Já o consumo de álcool apresenta comportamento diferente, crescendo mais entre os meninos.

Na avaliação do pesquisador, o detalhamento por idade também evidencia um problema estrutural na organização da assistência em saúde mental: a separação dos serviços destinados a crianças e adolescentes daqueles voltados aos adultos aos 18 anos, justamente no período em que a demanda por atendimento atinge seu pico.

“É justo na idade em que o adolescente está tendo as maiores transições da vida que a gente diz para ele: agora não é mais aqui. Essa quebra não parece ajudar, parece até atrapalhar.”

Os dados mostram que mais de 10% das crianças brasileiras entre 5 e 9 anos já preenchem critérios para pelo menos um transtorno mental. A proporção aumenta ao longo da infância e da juventude, chegando a quase 25% entre pessoas de 25 a 29 anos.

No estado de São Paulo, as internações por transtornos mentais e comportamentais entre crianças e adolescentes foram as que mais cresceram entre 2020 e 2025. Entre todas as faixas etárias, o maior aumento percentual ocorreu entre crianças de 5 a 9 anos, com alta de 98,3%.

Ao comparar mais de 300 condições de saúde monitoradas pelo GBD no Brasil, os pesquisadores identificaram que os transtornos de ansiedade ocupam o primeiro lugar como causa de incapacidade em todas as faixas etárias analisadas. A partir dos 15 anos, ansiedade e depressão aparecem, respectivamente, na primeira e na segunda posição do ranking geral, à frente de qualquer doença física, com maior impacto entre meninas e mulheres. Entre homens a partir dos 20 anos, álcool e outras drogas apresentam maior prevalência.

Kieling ressalta que o termo ansiedade engloba diferentes quadros clínicos ao longo da vida. Segundo ele, predominam casos de ansiedade de separação durante a infância, transtorno de ansiedade social na adolescência e, posteriormente, ansiedade generalizada ou transtorno do pânico.

O pesquisador afirma ainda que os indicadores se tornam ainda mais expressivos entre mulheres de 20 a 29 anos, padrão já identificado em levantamento global anterior realizado pelo mesmo grupo de pesquisa.

“Na comparação com os dados mundiais, o Brasil chama muito atenção pelos dados de ansiedade mais altos, principalmente puxado pela ansiedade em mulheres.”

O estudo também apresenta dados sobre a mortalidade por suicídio entre jovens brasileiros. Segundo a pesquisa, são registradas 5.402 mortes anuais entre pessoas de 10 a 29 anos, sendo 77% dos casos entre homens.

A taxa por 100 mil habitantes aumenta de 1,24 entre adolescentes de 10 a 14 anos para 13,43 entre jovens de 25 a 29 anos. A partir dos 15 anos, o suicídio passa a ocupar a terceira posição entre as causas de morte prematura monitoradas pelo GBD no Brasil.
Para Claudia Buchweitz, pesquisadora e primeira autora do estudo, os resultados evidenciam diferenças importantes entre homens e mulheres.

“Os números mostram uma diferença grande entre os sexos, que precisa orientar políticas específicas de prevenção voltadas a jovens do sexo masculino, um grupo historicamente pouco alcançado pelos serviços de saúde mental”, afirma.

Entre povos indígenas, as taxas superam o dobro da média nacional, cenário que, segundo a pesquisadora, reflete uma lacuna grave de informação e de políticas públicas.

“Qualquer número para uma criança em termos de suicídio está acima do que deveria ser aceitável pela sociedade.”

Segundo ele, o crescimento observado durante a adolescência acompanha o aumento da prevalência dos transtornos mentais.

“Aqui a gente vê uma oportunidade para prevenção, para atuar precocemente antes que o problema se cronifique.” Para o pesquisador, as prioridades devem ser a identificação precoce e o acesso ao cuidado efetivo, realidade que, segundo ele, ainda não alcança a maior parte da população brasileira.

“O quadro precisa ficar muito grave para chegar numa emergência, muitas vezes numa tentativa de suicídio, para conseguir um encaminhamento adequado.”

Apesar da dimensão do problema, o estudo aponta uma limitação na produção de conhecimento sobre saúde mental no país. Para estimar a situação da população de 5 a 29 anos, o GBD utilizou apenas 66 fontes nacionais de dados, concentradas quase totalmente nos estados de São Paulo e Rio Grande do Sul, com escassez de informações provenientes das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste.

“Esse volume limitado reflete e contribui para a falta de atenção à saúde mental dos jovens no Brasil”, afirma Buchweitz.

O GBD utiliza modelagens estatísticas para estimar a prevalência de transtornos mentais em áreas com ausência de informações epidemiológicas, extrapolando dados a partir da renda e da estrutura demográfica das regiões. Kieling defende a metodologia empregada, mas reforça a necessidade de ampliar a produção de dados regionais.

Mesmo assim, ele afirma que a ausência de informações mais completas não deve atrasar a adoção de medidas.

“Tenho muita dificuldade de acreditar que vão vir números muito diferentes do resto do país. Aguardar os dados para agir seria um desserviço para as crianças e adolescentes.”

Propostas para ampliar o acesso ao cuidado

Na avaliação dos pesquisadores, os resultados reforçam a necessidade de incorporar a saúde mental às políticas públicas voltadas para a infância e a juventude, o que, segundo eles, ainda não ocorre de forma explícita em marcos como o Estatuto da Criança e do Adolescente.

Entre as propostas apresentadas pelos autores estão a ampliação das portas de entrada para o cuidado em saúde mental, incluindo escolas e serviços comunitários, além de maior transparência na aplicação dos recursos do Sistema Único de Saúde (SUS) destinados à área.

Kieling afirma que a escola representa um espaço estratégico para a identificação precoce de problemas, mas ressalta que ela não pode assumir sozinha essa responsabilidade.

Como exemplo, ele cita o Headspace, serviço australiano de porta aberta voltado para jovens de 12 a 24 anos . “A gente não tem experiências de grande monta em países de baixa e média renda, o que para mim é um contrassenso, pensando que a imensa maioria dos jovens do planeta vive justamente nesses países.”

O pesquisador também aponta uma lacuna na Rede de Atenção Psicossocial (Raps), que permanece concentrada no atendimento de pacientes com quadros mais graves, deixando sem cobertura casos leves e moderados. “Parece que muitas vezes tem que esperar o quadro ficar mais grave para só então conseguir um atendimento.Só que a gente perdeu a oportunidade de atuar precocemente.”