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Mudanças climáticas

Calor amplia risco de seca na Europa

Estudo aponta que aumento das temperaturas provocado pelas mudanças climáticas intensificou a perda de umidade dos solos, rios e reservatórios do continente
Por O Correio de Hoje
24/07/2026 | 14:14

A seca que atinge a Europa em 2026 tem origem não apenas na redução das chuvas, mas principalmente no aumento das temperaturas provocado pelas mudanças climáticas. Essa é a principal conclusão de um estudo divulgado pelo consórcio científico World Weather Attribution (WWA), segundo o qual o calor extremo intensificou a perda de umidade dos solos, rios e reservatórios, agravando a escassez hídrica em diversas regiões do continente.

O fenômeno ocorre após uma onda de calor histórica registrada em junho, que levou países como França e Romênia a adotar restrições ao uso de água, enfrentar incêndios florestais de grandes proporções e observar a redução do nível de importantes cursos d’água. O levantamento reforça a avaliação de que a Europa é hoje o continente que mais rapidamente aquece no planeta.

Seca europa Copia
Estudo atribui à mudança climática provocada pela ação humana o agravamento da estiagem no continente - Foto: reprodução / internet

Os pesquisadores concluíram que a atmosfera mais quente passou a exercer um papel determinante na intensificação das secas. Segundo Mariam Zachariah, pesquisadora do Imperial College London e coautora do estudo, embora parte da Europa tenha recebido menos precipitações do que a média durante a primavera, foi o calor excepcional que tornou a estiagem significativamente mais severa.

“Nossos resultados mostram que esta seca não é principalmente uma história de baixas precipitações, mas de uma atmosfera mais quente que provoca maiores déficits de umidade no solo”, afirmou. De acordo com a pesquisadora, uma atmosfera aquecida consegue reter cerca de 7% mais vapor d’água a cada grau Celsius adicional de temperatura, acelerando a evaporação e reduzindo rapidamente a disponibilidade de água para a vegetação, a agricultura e os reservatórios, mesmo em regiões onde o volume de chuvas permaneceu próximo do normal.

O estudo utilizou modelos climáticos para comparar as condições atuais com um cenário semelhante ao do período pré-industrial, quando a temperatura média global era aproximadamente 1,4°C inferior à atual. Os resultados indicam que solos extremamente secos são hoje cinco vezes mais prováveis na Europa Ocidental e onze vezes mais prováveis na Europa Oriental em consequência das mudanças climáticas provocadas pela atividade humana.

Os cientistas também verificaram que os níveis excepcionais de evaporação registrados entre abril e junho na Europa Ocidental eram 80 vezes mais prováveis nas condições climáticas atuais do que seriam em um mundo sem o aquecimento global. Segundo Dominik Schumacher, pesquisador do ETH Zurich e coautor do trabalho, o processo tende a se retroalimentar.

“Se você tem um ar cada vez mais quente, ele vai secar os solos. E depois ficará ainda mais quente e os solos vão secar ainda mais”, afirmou, acrescentando que esse ciclo amplia significativamente o risco de incêndios florestais e de perdas agrícolas.

Além dos impactos ambientais, os pesquisadores alertam para consequências econômicas crescentes da intensificação das secas. A redução da umidade do solo compromete a produtividade agrícola, pressiona os preços dos alimentos, reduz a geração hidrelétrica e dificulta o transporte fluvial em importantes hidrovias europeias, afetando cadeias logísticas e o comércio regional.

Dados do programa europeu Copernicus já haviam apontado junho de 2026 como o mês mais quente da história da Europa Ocidental, com temperaturas recordes e milhares de mortes associadas às ondas de calor. Para Simon Stiell, secretário-executivo da Convenção das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), o agravamento das secas representa um alerta sobre a velocidade da crise climática.

“O agravamento das secas constitui um sinal de alerta impossível de ignorar, indicando que o nosso planeta está superaquecido à medida que a crise climática se agrava rapidamente, afetando os preços dos alimentos, os sistemas de energia e o transporte fluvial”, afirmou. O estudo reforça a avaliação de que políticas de adaptação e redução das emissões de gases de efeito estufa serão determinantes para limitar a frequência e a intensidade desses eventos nas próximas décadas.