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Maconha

Estudo aponta que maconha pode alterar níveis de estresse

Pesquisa da Universidade Estadual do Oregon analisou níveis de cortisol e identificou diferenças hormonais em usuários recorrentes da substância
Por O Correio de Hoje
24/07/2026 | 15:23

O uso da maconha é frequentemente associado por usuários à tentativa de aliviar o estresse e a ansiedade. No entanto, um estudo publicado na revista científica Cannabis aponta que, embora a substância possa proporcionar sensação de relaxamento no curto prazo, o consumo frequente pode estar relacionado a alterações nos mecanismos biológicos responsáveis pela resposta do organismo ao estresse.

A pesquisa foi conduzida por cientistas da Universidade Estadual do Oregon (OSU), nos Estados Unidos, e avaliou a relação entre o uso recorrente de cannabis e o funcionamento do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HPA), considerado o principal sistema neuroendócrino envolvido na regulação da resposta do corpo a situações de estresse.

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Estudo identificou que usuários frequentes apresentaram níveis mais elevados de cortisol - Foto: reprodução

Esse sistema controla a produção do cortisol, hormônio sintetizado pelas glândulas suprarrenais e conhecido popularmente como “hormônio do estresse”. A substância é liberada em situações de pressão física ou emocional e exerce funções importantes no organismo, como auxiliar no combate a infecções, contribuir para a manutenção da pressão arterial e participar da regulação da glicemia e do metabolismo.

Apesar de exercer um papel fisiológico importante em situações agudas, níveis elevados de cortisol por períodos prolongados estão associados ao aumento do risco de problemas de saúde, incluindo ansiedade, depressão e doenças cardiovasculares.

Para analisar a resposta do organismo ao estresse, os pesquisadores utilizaram um indicador conhecido pela sigla CAR (Cortisol Awakening Response), que corresponde ao aumento natural do cortisol observado logo após o despertar.

Em condições normais, o hormônio apresenta um pico cerca de 30 minutos depois que a pessoa acorda. O índice é obtido por meio da comparação entre a concentração de cortisol medida imediatamente ao despertar e outra realizada aproximadamente meia hora depois. A diferença entre esses dois valores é utilizada como parâmetro para avaliar a capacidade do organismo de se preparar para as demandas físicas e psicológicas do dia.

Os resultados mostraram que a resposta do cortisol ao despertar foi semelhante entre usuários frequentes de cannabis e pessoas que não utilizavam a substância. A principal diferença observada foi que os usuários apresentavam níveis iniciais mais elevados de cortisol, ou seja, já acordavam com maior concentração do hormônio circulando no organismo.

Segundo a pesquisadora Anita Cservenka, da Faculdade de Artes Liberais da Universidade Estadual do Oregon e autora principal do estudo, os resultados indicam uma possível relação entre o cortisol ao despertar e o uso problemático de cannabis.

“Nossa pesquisa sugere que os níveis de cortisol ao despertar podem servir como um marcador neurobiológico do uso problemático de cannabis, e essa conexão precisa ser mais bem investigada. Estudos anteriores de outros pesquisadores apontaram uma CAR atenuada em usuários frequentes de cannabis, mas não replicamos esse resultado; isso sugere a existência de nuances importantes que podem estar relacionadas às estratégias de análise e às características da amostra.”

Os autores ressaltam que os dados obtidos não permitem concluir que o consumo frequente de cannabis seja a causa dos níveis mais elevados de cortisol ao despertar, nem que pessoas com esse perfil hormonal sejam mais propensas a utilizar a substância.

Segundo Anita Cservenka, serão necessários estudos de acompanhamento ao longo do tempo para esclarecer essa relação.

“Precisaríamos estudar os mesmos grupos de pessoas por um período mais longo para entender qualquer relação de causa e efeito, mas acreditamos que isso oferece um ponto de partida importante.”

Ainda assim, a pesquisadora afirma que os resultados permitem levantar uma hipótese sobre o funcionamento do sistema de resposta ao estresse em usuários frequentes de cannabis.

“É razoável supor que indivíduos que fazem uso frequente de cannabis possam apresentar alterações em seus ritmos diários de resposta ao estresse — e que um sistema de resposta ao estresse desregulado poderia, por sua vez, levar esses indivíduos a um ciclo de maior consumo da substância.”

Os pesquisadores destacam que compreender os efeitos do uso frequente da cannabis sobre o organismo ganha importância diante do aumento do consumo da substância nos Estados Unidos. Dados citados no estudo mostram que 29% dos adultos entre 19 e 30 anos relataram ter usado cannabis nos 30 dias anteriores à pesquisa, percentual que praticamente dobrou nos últimos 15 anos.

Além disso, mais de 10% das pessoas dessa faixa etária informaram consumir cannabis pelo menos 20 vezes em um período de 30 dias, índice que também mais do que dobrou em comparação com o registrado há 15 anos.

Na avaliação dos autores, compreender como a cannabis pode influenciar os mecanismos biológicos relacionados ao estresse poderá contribuir para futuras pesquisas sobre saúde mental, dependência e prevenção ao uso problemático da substância.