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Luto

Morre Bira Rocha, ex-presidente da FIERN e ex-secretário de Estado, aos 84 anos

Ex-presidente da Fiern e do Conselho do Sebrae, foi secretário nacional de Irrigação e presidiu a Junta Governativa do ABC.
Agora RN
04/09/2026 | 08:49

Aos 84 anos, morreu na noite de quinta-feira 3, em Natal, o empresário e agropecuarista Abelírio Vasconcelos da Rocha — Bira Rocha, para o meio empresarial potiguar. A causa não foi informada pela família. Sua trajetória atravessou frentes que raramente se encontram numa só biografia: comandou a Fiern, a federação das indústrias do estado; dirigiu o Sebrae; foi secretário no governo estadual; e, em Brasília, chefiou a Secretaria Nacional de Irrigação. Por décadas esteve nas mesas em que se discutiu industrializar, produzir no campo, sustentar o pequeno negócio e resolver a infraestrutura do Rio Grande do Norte. Foram quatro assuntos que, na prática, se cruzavam o tempo todo — e ele circulava entre eles com a mesma naturalidade. Havia ainda uma frente à parte, longe de escritório e de gabinete: mais de cinquenta anos ligado ao ABC Futebol Clube.

Duas passagens pela Fiern

O período à frente da federação é o eixo dessa história. Foram dois mandatos em sequência: o primeiro entre 1995 e 1998, o segundo de 1999 a 2003. Antes disso ele já havia comandado o Sindicato da Indústria Metalúrgica. Depois, alcançaria a vice-presidência da CNI, a confederação nacional do setor, e ocuparia assentos em diretorias e conselhos das entidades que formam o Sistema Fiern — o que significa que sua presença na estrutura industrial do estado não se resumiu ao mandato de presidente, mas se espalhou pelos órgãos que a sustentam.

Morre Bira Rocha, ex-presidente da FIERN e ex-secretário de Estado
Bira Rocha presidiu a FIERN em dois mandatos, ocupou cargos nos governos estadual e federal e teve atuação no setor empresarial e agropecuário do Rio Grande do Norte. - Foto: divulgação

O momento era de um setor produtivo que tentava puxar investimento e cobrava respostas sobre infraestrutura e competitividade no estado. Dentro da casa, o nome de Bira ficou colado a duas bandeiras: industrializar e desenvolver a agroindústria. A federação, ao anunciar a morte, escreveu que ele esteve nos debates sobre para onde deveria caminhar a economia do estado e que apoiou iniciativas voltadas a explorar as potencialidades produtivas do território potiguar.

Sair da presidência não o tirou do circuito. Continuou acompanhando as discussões empresariais e econômicas mesmo sem cargo executivo. Neste ano, em abril, ainda sentou à mesa do Conselho do Agro potiguar, num encontro dedicado a conjuntura econômica, infraestrutura e geração distribuída de energia.

Do campo à indústria

Fábrica não foi seu único terreno. Bira também criou gado — fundou a Lanila Agropecuária, dedicada de início aos ovinos. Dessa vivência dupla saiu uma das marcas da sua atuação institucional: a insistência em amarrar três coisas que costumam andar separadas — a lavoura e a criação, a etapa industrial que transforma essa produção e os negócios que ela gera no interior potiguar.

Do Ceag ao Sebrae

Uma segunda frente da vida dele se desenrolou no Sebrae, onde foi conselheiro e presidiu o Conselho Deliberativo. Coube-lhe acompanhar a virada em que o velho Centro de Assistência Gerencial, o Ceag, deu lugar ao desenho que faria do Sebrae a casa de apoio à micro e à pequena empresa. Foi uma transformação de modelo, não apenas de sigla.

O peso que tinha ali se enxerga até na composição do comando: foi ele quem, em 1995, junto com Fernando Bezerra, chamou o economista José Ferreira de Melo Neto para a superintendência estadual da entidade.

A instituição credita a Bira dois movimentos. Um foi levar o Sebrae para fora da capital, abrindo escritórios no interior. O outro, robustecer os arranjos produtivos locais. Some-se a isso o crédito orientado e o apoio a projetos de agroindústria — políticas desenhadas para encostar o pequeno empreendedor nas cadeias produtivas mais organizadas do estado, aquelas que costumam ficar fora do alcance de quem tem estrutura modesta.

Essa obsessão em pôr o negócio miúdo dentro de mercados grandes ficou registrada na memória da casa. Numa publicação da entidade, Melo Neto contou um episódio de 1995: Bira cobrou explicação para a fatia mínima que as empresas do estado ocupavam nas compras da Petrobras. A cobrança fez o Sebrae correr atrás: intensificou o cadastramento e passou a preparar fornecedores daqui para as encomendas ligadas à atividade petrolífera, um mercado que exige certificação e escala de quem quer entrar.

Há ainda a Escola de Turismo e Hotelaria Barreira Roxa, cuja recuperação e cuja implantação, segundo a entidade, também passaram por ele. O projeto o colocou dentro de um setor que ganhava espaço na economia potiguar, empurrado pela expansão da rede hoteleira e pelo aumento do fluxo de visitantes. Somadas, essas frentes fazem da sua passagem pelo Sebrae algo diferente de representação empresarial: foi ali que ajudou a montar ferramentas de apoio a quem produz.

Nos governos estadual e federal

Bira ocupou também cadeiras na administração pública. Foi titular da Agricultura no governo Geraldo Melo. Voltou ao primeiro escalão sob Garibaldi Alves Filho — e neste ponto os registros divergem: parte da imprensa aponta Planejamento, parte aponta Administração, e a galeria histórica mantida pela federação das indústrias anota a Secretaria de Administração.

No plano federal, foi secretário nacional de Irrigação sob Itamar Franco. Ali entrou nos estudos e nas discussões em torno de tirar água do Rio São Francisco e levá-la ao Nordeste Setentrional — o projeto que décadas depois viraria a transposição. Quem conta aquele período o coloca entre os que estruturaram tecnicamente a iniciativa e costuraram as articulações que ela exigia — trabalho feito quando a obra ainda era papel, muito antes de a água chegar ao Nordeste Setentrional. A nota de pesar do Sebrae vai mais longe: fala em participação fundamental na elaboração do projeto técnico da obra.

Não era um desvio de rota. Água disponível, irrigação e agroindústria eram, no fundo, a mesma pergunta que ele já perseguia na vida privada: quanto o semiárido é capaz de produzir.

Cinco décadas de ABC

Fora do trabalho, havia o Alvinegro. Bira Rocha presidiu a Junta Governativa que dirigiu o clube no início da década de 1970 e estava no comando quando o time fez a célebre excursão internacional de 1973.

Foi uma das melhores fases do ABC no Campeonato Potiguar: quatro taças estaduais uma atrás da outra, de 1970 a 1973 — quatro temporadas seguidas sem perder o título. Aquela viagem de 1973, com jogos disputados fora do País, entrou para a memória da torcida e é lembrada até hoje entre os episódios marcantes da história alvinegra.

Deixar a diretoria não encerrou o vínculo. Ele continuou a frequentar a política interna do clube por décadas, tornou-se conselheiro nato e passou por várias gestões — em 2024 seu nome ainda constava da lista de ex-dirigentes e conselheiros vitalícios que participam das decisões alvinegras. Diante da morte, Eduardo Machado, que preside o ABC, declarou três dias de luto oficial. A nota do clube citou a Junta Governativa, a viagem internacional e a presença dele na vida institucional da agremiação.

Uma trajetória e o debate sobre o RN

O tanto de cargos explica por que Bira aparece em capítulos tão distintos da economia potiguar recente. Ele se moveu entre a representação da indústria, o apoio ao pequeno empreendedor, a produção rural e a máquina do Estado, num tempo em que a agenda econômica local se resumia mais ou menos a três perguntas: como diversificar o que se produz, como garantir água e energia e como fazer empresa daqui entrar nas grandes cadeias produtivas.

Nem a saída dos cargos executivos interrompeu isso. Aquela reunião do Conselho do Agro, em abril, poucos meses antes do fim, mostra alguém que seguia atento ao que se discutia sobre energia, infraestrutura, produção rural e economia no estado.

Velório e família

Ficam a mulher, Carmem Lúcia, três filhos — Ricardo, Gustavo e Maristela — e os netos do casal. O corpo foi velado na sexta-feira 4, na Sala 2 do Cemitério Morada da Paz, em Emaús — já na Grande Natal. O sepultamento aconteceu às 17 horas daquele dia.

A lista de quem se manifestou depois da morte dá a dimensão do percurso. A federação das indústrias o situou numa geração de dirigentes voltada a organizar e representar o setor. O Sebrae o ligou ao crescimento da estrutura de apoio às empresas menores. Do lado público, ficaram as políticas de agricultura, de planejamento e de irrigação, três áreas por onde ele passou em governos diferentes. E, no clube, mais de meio século de participação administrativa. São pedaços distintos de uma vida profissional montada em torno de uma mesma discussão: para onde deveria ir a economia — e as instituições — do Rio Grande do Norte.