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Oriente Médio

Trump atrela acordo nuclear a Israel

Presidente dos EUA condiciona cooperação nuclear com a Arábia Saudita à adesão aos Acordos de Abraão, ampliando incertezas sobre um pacto avaliado em bilhões de dólares
Por O Correio de Hoje
24/07/2026 | 14:01

A decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de condicionar o acordo de cooperação nuclear civil firmado com a Arábia Saudita à normalização das relações diplomáticas entre Riad e Israel acrescentou um novo componente geopolítico a uma negociação considerada estratégica para a indústria nuclear americana e para o equilíbrio de forças no Oriente Médio.

O anúncio foi feito um dia após a assinatura do entendimento entre o secretário de Energia dos EUA, Chris Wright, e autoridades sauditas, em Washington. Em publicação na rede Truth Social, Trump afirmou que o acordo “será aprovado, mas está totalmente condicionado à adesão da Arábia Saudita aos muito respeitados e bem-sucedidos Acordos de Abraão”.

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Arábia Saudita e Israel terão que promover aproximação diplomática para que acordo possa entrar em prática - Foto: reprodução / internet

Ao mesmo tempo, reiterou que o programa não permitirá o enriquecimento de urânio e que Washington apoia apenas o desenvolvimento de instalações nucleares para fins civis. A nova exigência, entretanto, introduz incertezas sobre a implementação de um acordo cuja tramitação ainda depende da análise do Congresso americano.

A condição anunciada pela Casa Branca esbarra em um dos principais impasses diplomáticos da região. A Arábia Saudita sustenta há anos que somente reconhecerá oficialmente Israel após a definição de um caminho concreto para a criação de um Estado palestino, posição reiterada mesmo após a intensificação dos conflitos no Oriente Médio. O governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, por sua vez, rejeita a criação de um Estado palestino nos termos defendidos por Riad.

Apesar da divergência, o gabinete israelense reagiu positivamente ao anúncio de Trump, afirmando que a entrada da Arábia Saudita nos Acordos de Abraão representaria “um avanço histórico rumo à paz no Oriente Médio”. Criados durante o primeiro mandato do presidente americano, os acordos estabeleceram relações diplomáticas entre Israel e Emirados Árabes Unidos, Bahrein e Marrocos, sendo considerados um dos principais pilares da política externa de Trump para a região.

Além do componente diplomático, o acordo possui forte dimensão econômica e tecnológica. O entendimento prevê cooperação por 30 anos para o desenvolvimento do programa nuclear civil saudita, com participação direta de empresas americanas no fornecimento de tecnologia, treinamento, assistência técnica e equipamentos. Entre as principais beneficiadas está a Westinghouse, tradicional fabricante de reatores nucleares dos Estados Unidos.

A administração Trump estima que o contrato movimentará bilhões de dólares para a indústria americana. Em contrapartida, o pacto impõe limitações ao programa saudita, proibindo, por pelo menos dez anos, o desenvolvimento ou a aquisição de tecnologia própria de enriquecimento de urânio. Ainda assim, autoridades e pessoas envolvidas nas negociações afirmam que o texto poderá permitir, futuramente, a construção de uma instalação de enriquecimento caso estudos conjuntos concluam que ela seja necessária. O conteúdo integral do acordo permanece sob sigilo e inclui cartas paralelas não divulgadas, justificadas por Washington como documentos que contêm informações comerciais e de segurança nacional sensíveis.

As concessões negociadas pelo governo americano despertaram preocupação entre especialistas em não proliferação nuclear e parte do Congresso dos Estados Unidos. Diferentemente do acordo firmado com os Emirados Árabes Unidos em 2009, considerado o “padrão ouro” da cooperação nuclear americana por incluir o Protocolo Adicional da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), o pacto com a Arábia Saudita prevê apenas um sistema bilateral de salvaguardas. Analistas avaliam que a flexibilização poderá criar precedentes para futuras negociações conduzidas por Rússia e China e ampliar a competição global pelo mercado de tecnologia nuclear.

A preocupação é reforçada pelas declarações do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, que já afirmou que o reino buscará desenvolver capacidade nuclear caso o Irã obtenha uma arma atômica. Para Vipin Narang, professor de segurança nuclear do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), o cenário internacional passa por uma mudança estrutural.

“Estamos de volta a uma era de dissuasão nuclear preventiva”, afirmou. Gary Samore, ex-assessor de controle de armas dos governos Barack Obama e Bill Clinton, também vê riscos no precedente criado pelo novo acordo. Segundo ele, o principal efeito poderá ser a flexibilização dos padrões internacionais de não proliferação, em um contexto de crescente competição geopolítica e redução da confiança de aliados na capacidade dos Estados Unidos de garantir sua segurança.