Uma operação que envolveu troca de aeronaves, um caminhão de serviço aeroportuário e um voo usado como despiste colocou novamente em evidência as ameaças atribuídas ao Irã contra o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Novos detalhes divulgados nesta semana mostram que o Serviço Secreto americano modificou às pressas o retorno do republicano de uma cúpula da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) na Turquia, em julho, diante de informações sobre um possível ataque contra sua aeronave.
O episódio representa uma nova etapa em uma sequência de ameaças iranianas investigadas pelos Estados Unidos desde a morte do general Qassem Soleimani, comandante da Força Quds da Guarda Revolucionária, em um ataque americano autorizado por Trump em janeiro de 2020. Nos últimos anos, autoridades americanas identificaram planos atribuídos ao Irã contra ex-integrantes do governo republicano e, em 2024, anunciaram acusações relacionadas a um plano para matar o próprio Trump.

Na Turquia, o risco foi considerado suficiente para levar o Serviço Secreto a retirar o presidente de sua aeronave sem que grande parte de sua comitiva soubesse da mudança. Uma fonte informada sobre o episódio disse à Reuters que havia uma ameaça considerada crível e iminente envolvendo a possibilidade de um ataque com míssil.
O “Wall Street Journal” informou, nesta quinta-feira 13, que a inteligência israelense havia alertado os Estados Unidos sobre uma possível ação ligada ao Irã. Posteriormente, surgiram informações sobre uma pessoa que poderia estar transportando um lançador portátil de míssil nas proximidades da cúpula. Embora integrantes da inteligência americana tivessem dúvidas sobre a viabilidade do plano, o Serviço Secreto decidiu agir. O resultado foi uma operação incomum mesmo para os padrões de segurança de um presidente americano.
Troca de aeronave e operação de despiste
Trump havia embarcado publicamente em uma aeronave presidencial na Turquia, junto com integrantes de sua equipe. A movimentação indicava que seguiria viagem normalmente. Nos bastidores, porém, o plano era outro.
O presidente foi retirado discretamente do avião utilizando um veículo de serviço de alimentação aeroportuária. De lá, seguiu para um C-32A, versão militar do Boeing 757 utilizada pela Força Aérea americana no transporte de autoridades.
Trump viajou na aeronave alternativa acompanhado por um grupo reduzido de assessores e pelo secretário de Defesa, Pete Hegseth. A aeronave que todos acreditavam transportar o presidente decolou separadamente. Nela permaneceram o secretário de Estado, Marco Rubio, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, funcionários da Casa Branca e jornalistas responsáveis pela cobertura presidencial.
A operação funcionou, na prática, como um despiste sobre a localização de Trump. A Associated Press informou que Rubio tinha conhecimento da ameaça e da troca de aeronaves, mas não estava claro até que ponto Bessent havia sido informado.
A decisão também levantou questionamentos porque os dois secretários ocupam posições relevantes na linha de sucessão presidencial, embora os protocolos de proteção do presidente sejam diferentes dos aplicados aos demais integrantes do governo.
Jornalistas viajaram sem saber do risco
A estratégia manteve inclusive os jornalistas que acompanhavam Trump sem informações sobre o que estava acontecendo. Durante o voo, integrantes do grupo de imprensa receberam uma ordem incomum para manter fechadas as persianas das janelas. A aeronave também ficou sem conexão à internet durante parte do trajeto, dificultando a comunicação com o exterior.
Gram Slattery, repórter da Reuters que estava no avião, relatou posteriormente que os jornalistas começaram a desconfiar de que havia algo fora da rotina, mas não receberam explicações sobre uma ameaça.
Trump reapareceu no Reino Unido de forma a preservar a impressão de que havia realizado o trajeto esperado. Depois, a comitiva prosseguiu para os Estados Unidos.
A Casa Branca inicialmente apresentou uma explicação diferente para a alteração dos voos, dizendo que a mudança permitiria que militares americanos no Reino Unido conhecessem a aeronave presidencial adaptada a partir do Boeing 747 anteriormente oferecido pelo Catar. As reportagens publicadas posteriormente mostraram que a segurança havia sido o motivo central da operação.
Trump confirmou que seguiu as orientações do Serviço Secreto. Disse que os responsáveis por sua proteção recomendaram outra aeronave com nível adequado de segurança e que simplesmente obedeceu às instruções.
Ameaça envolvia lançador portátil
As informações que provocaram a operação envolviam a possibilidade de utilização de um sistema portátil de defesa antiaérea, conhecido pela sigla Manpads.
Esses equipamentos são lançadores carregados por uma pessoa e capazes de disparar mísseis guiados contra aeronaves em baixa altitude, situação particularmente sensível durante pousos e decolagens.
Segundo informações publicadas pelo “Wall Street Journal”, uma pessoa foi identificada nas proximidades da cúpula com o que poderia ser um lançador portátil. O alerta inicial havia sido fornecido por Israel antes da viagem de Trump.
A Reuters informou que autoridades foram alertadas sobre uma ameaça envolvendo um míssil portátil guiado por calor. Havia ainda informações de que a inteligência iraniana poderia ter conhecimento detalhado sobre os movimentos de Trump na Turquia.
Mesmo com dúvidas dentro da comunidade de inteligência sobre a capacidade de execução do ataque, os responsáveis pela segurança presidencial optaram por tratar a ameaça como suficientemente séria para modificar toda a logística da viagem.
Relação deteriorada
O episódio ocorre após anos de deterioração das relações entre Trump e o governo iraniano. Em seu primeiro mandato, o republicano retirou os Estados Unidos, em 2018, do acordo nuclear firmado três anos antes entre Teerã e potências internacionais. A administração americana restabeleceu sanções econômicas contra o país dentro da política denominada “pressão máxima”.
A tensão aumentou em janeiro de 2020, quando Trump autorizou um ataque com drone que matou Qassem Soleimani próximo ao aeroporto de Bagdá. Soleimani era comandante da Força Quds, braço da Guarda Revolucionária responsável por operações externas e pela relação do Irã com grupos aliados no Oriente Médio.
Teerã respondeu ao ataque lançando mísseis contra instalações usadas por militares americanos no Iraque. Desde então, autoridades americanas afirmam ter identificado diferentes planos de retaliação contra pessoas associadas à operação que matou o general.
Trump passou a ocupar posição central nessa lista por ter autorizado pessoalmente o ataque. Um dos primeiros casos públicos ocorreu em 2022. O Departamento de Justiça americano acusou Shahram Poursafi, integrante da Guarda Revolucionária, de tentar contratar pessoas nos Estados Unidos para assassinar John Bolton, que havia sido conselheiro de Segurança Nacional durante o primeiro governo Trump.
Segundo os documentos judiciais, o plano começou em outubro de 2021 e provavelmente estava relacionado à busca por vingança pela morte de Soleimani. As autoridades afirmaram que Poursafi ofereceu US$ 300 mil para que Bolton fosse assassinado em Washington ou Maryland.