O chanceler da Alemanha, Friedrich Merz, disse que a “remigração” pregada pela Alternativa para a Alemanha (AfD) põe em risco o funcionamento de setores da economia que dependem de trabalhadores estrangeiros. A declaração veio depois que o partido de ultradireita conquistou quase 44% dos votos na Saxônia-Anhalt, em eleição para o governo estadual, mais do dobro do que obteve a União Democrata-Cristã (CDU), legenda do próprio chefe de governo.
Num discurso no Bundestag, a Câmara dos Deputados alemã, Merz acusou a AfD de usar uma palavra de aparência moderada para defender deportações guiadas por critérios raciais. “O termo ‘remigração’ nada mais é do que um eufemismo para limpeza étnica com base na origem e na cor da pele”, declarou o chanceler.

Durante a campanha, a “remigração e deportação” de estrangeiros sem situação regular no país apareceu entre as bandeiras centrais da AfD. O partido nega ter a intenção de expulsar quem vive legalmente na Alemanha e sustenta que as medidas que propõe respeitariam a legislação alemã.
Na argumentação de Merz, tirar do país, em massa, os trabalhadores estrangeiros teria efeito direto sobre a oferta de serviços e sobre a capacidade produtiva da maior economia europeia. Segundo ele, hospitais, casas de repouso, comércio e empresas de serviços técnicos estão entre os setores que deixariam de funcionar normalmente.
Representantes do German Economic Institute, o Instituto Econômico Alemão, fazem a mesma avaliação. Para a entidade, a saída desses trabalhadores pesaria mais nas regiões em que a população encolhe e envelhece, como acontece em parte do leste do país.
A Alemanha já sofre com a falta de profissionais em várias áreas. Só nos hospitais e nas instituições que cuidam de idosos, há mais de 200 mil vagas abertas sem ninguém para ocupá-las. A imigração vem sendo uma das saídas para compensar a diminuição do número de pessoas em idade de trabalhar.
Na Saxônia-Anhalt, a demografia torna essa dependência ainda maior. Desde a reunificação da Alemanha, em 1990, o Estado perde habitantes, por causa da baixa natalidade e da mudança de moradores para outras partes do país. Nos últimos anos, a chegada de imigrantes ajudou a conter essa perda.
A votação do domingo 6 deu a um partido de extrema direita o melhor desempenho no país desde que terminou a Segunda Guerra Mundial. A AfD ficou com 43,8% dos votos, e a CDU, com 17,2%. A ultradireita mais que dobrou a votação que já havia tido no Estado.
Com o resultado, a AfD garantiu 39 das 83 cadeiras do Parlamento estadual, três a menos do que precisaria para ter a maioria absoluta e governar sem aliados. Mesmo assim, o candidato do partido, Ulrich Siegmund, passou a buscar o apoio de deputados de outras legendas.
As grandes siglas alemãs seguem o chamado “cordão sanitário”, o compromisso de não formar alianças de governo com a AfD. Sem o respaldo de outro partido ou de parlamentares que rompam com as próprias bancadas, a legenda terá dificuldade para converter a vitória nas urnas em controle do governo do Estado.
A vitória, ainda assim, aperta o cerco sobre Merz e a coalizão que governa o país. A AfD já é a maior bancada de oposição no Bundestag e tenta converter em votos a insatisfação com a imigração, com o custo de vida e com o desempenho da economia.
Copresidente da AfD, Alice Weidel disse que os eleitores “pulverizaram” a CDU e exigiu mudanças na política de imigração. Antes do discurso de Merz, ela afirmou que a “imigração em massa” tinha levado a um “aumento da criminalidade, de crimes sexuais e atos brutais de violência”.
Nas estatísticas criminais, os estrangeiros aparecem, em algumas categorias de crime, com participação proporcionalmente maior. Pesquisadores alertam, no entanto, que os dados não autorizam atribuir de forma direta a evolução da criminalidade à imigração, porque os números também sofrem influência de fatores como idade, renda, gênero e as condições em que as pessoas moram.
O impacto do crescimento da AfD sobre a economia não se limita à oferta de mão de obra. O presidente do Bundesbank, o banco central alemão, Joachim Nagel, disse estar preocupado com os efeitos das propostas do partido sobre o ambiente de negócios e sobre a imagem da Alemanha no exterior.
De acordo com Nagel, o avanço da ultradireita pode espantar investimentos de fora e enfraquecer a economia do país. Além de restringir a imigração, a AfD defende abandonar o euro, tirar a Alemanha da União Europeia e reatar as relações com a Rússia. Foi a essas propostas que o dirigente do banco central ligou o risco de perda de investimentos.
Merz também disse que romper com a União Europeia, com a moeda comum e com o Espaço Schengen, a área de livre circulação de pessoas entre países europeus, afetaria a prosperidade da Alemanha. A economia alemã depende das cadeias de produção europeias, do trânsito livre de mercadorias e de trabalhadores e do acesso ao mercado comum.
Mesmo com o crescimento da AfD, o chanceler continua contrário a abrir um processo que leve à proibição do partido. Na avaliação de Merz, uma ação na Justiça não atacaria as razões políticas e econômicas por trás da expansão da legenda. Para ele, os partidos de centro têm de reconquistar os eleitores no debate público e com respostas aos problemas da população. Ele repetiu essa posição depois da eleição estadual.
Membros do governo acusam ainda a AfD de manter proximidade com o Kremlin, a sede do governo russo, e de não reagir às investigações sobre sabotagens e campanhas de desinformação atribuídas à Rússia. O partido defende o fim das sanções e a volta dos laços comerciais entre Berlim e Moscou.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, saiu em apoio à vitória da ultradireita. Numa publicação nas redes sociais, chamou o desempenho da AfD de “grande noite”.
“Eles finalmente se cansaram das regras e regulamentos de imigração absolutamente horríveis que prejudicaram tanto a Alemanha”, escreveu o republicano, que fechou a mensagem com uma versão adaptada de seu lema político: “Torne a Alemanha grande novamente”.
Depois da postagem, Merz cancelou um telefonema que estava marcado com Trump. Sem apresentar um motivo específico, o porta-voz do governo alemão disse que o chanceler sempre foi contra “interferir ou comentar sobre a situação política interna de outros países, particularmente em relação às eleições”.
O episódio aumentou a tensão entre Berlim e Washington. Tanto o governo Trump quanto políticos do movimento republicano mantêm contato com representantes da AfD, e o governo alemão vê esse apoio como interferência na política interna do país.
A eleição na Saxônia-Anhalt levou a imigração para além da disputa por votos e a transformou num debate sobre a economia. Na visão do governo, deportações em massa aprofundariam a falta de trabalhadores, diminuiriam a capacidade dos serviços públicos e poderiam espantar o capital estrangeiro. Já a AfD enxerga na votação um aval para endurecer as regras de imigração. O espaço entre as duas posições deve pautar a política alemã nos próximos meses.