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Colômbia

Bombardeio mata 20 dissidentes das Farc e carro-bomba explode em Cúcuta no início do governo Espriella

Novo presidente rompeu com a "paz total" de Petro e já soma 38 rebeldes mortos em três operações
Agora RN
03/09/2026 | 22:28

A violência voltou a escalar na Colômbia, e envolve três lados: as forças de segurança, dissidentes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e o Exército de Libertação Nacional (ELN). Primeiro, um bombardeio oficial matou 20 integrantes de uma dissidência das Farc no meio da selva. Depois, nesta terça-feira 1º, um carro-bomba estourou diante de uma delegacia nos arredores de Cúcuta, junto à fronteira venezuelana — uma pessoa morreu e outras 11 ficaram feridas.

Os dois episódios caem sobre o começo do governo de Abelardo de la Espriella, que tomou posse no dia 7 e enterrou a política de negociar com organizações armadas.

Policiais colombianos observam prédio danificado após explosão de carro-bomba
Carro-bomba atribuído ao ELN explodiu em frente a uma delegacia de polícia nos arredores de Cúcuta (Foto: Reprodução)

O que o novo governo escolheu foi o contrário: ampliar operação militar e policial contra grupo insurgente e contra organização metida em crime. É uma guinada em relação à “paz total” que Gustavo Petro adotou no mandato anterior.

O bombardeio que matou 20

O ataque aéreo da noite de domingo 30 caiu sobre integrantes do Estado-Maior Central (EMC), reunião de dissidentes que recusaram o acordo de paz de 2016. Vinte pessoas morreram ali. Nenhuma operação contra esse grupo tinha sido tão letal nos últimos anos, e nenhuma outra de grande porte havia partido do novo presidente até aquele momento.

Entre as vítimas está quem atende pelo apelido de “El Tigre”, tido como homem de confiança de Néstor Gregorio Vera, o “Iván Mordisco” — um dos principais chefes das dissidências e um dos rebeldes mais caçados do país.

Um militar contou que essa foi a terceira investida do novo governo contra grupos guerrilheiros — e a de maior porte desde a administração de Juan Manuel Santos. Somando tudo o que se fez desde a troca de comando no país, o número de rebeldes mortos chegaria a 38.

“Vamos atrás de você, Mordisco. Vou fazer você pagar por tudo o que causou à Colômbia”, afirmou Espriella. O governo também autorizou operação conjunta com os Estados Unidos, de modo a alargar o combate aos grupos armados que continuam ativos em solo colombiano — mais um sinal da mudança de rumo em relação ao mandato anterior.

O carro-bomba em Cúcuta

O segundo episódio, nos arredores de Cúcuta, não guarda ligação direta com o bombardeio contra o EMC. As autoridades o creditaram ao ELN, lendo o atentado como reação à nova política de repressão aos grupos armados.

A polícia informou que o carro usado no atentado era roubado e havia recebido nova pintura justamente para se passar por um táxi comum. Dentro dele iam cerca de 80 quilos de explosivo, acionados à distância bem em frente à delegacia. A explosão matou uma pessoa — um venezuelano de 23 anos, segundo as autoridades colombianas — e deixou outras 11 feridas.

Cúcuta e a faixa de fronteira com a Venezuela estão entre as áreas em que grupos armados disputam território e mantêm negócio ilegal funcionando. É terreno historicamente sensível, e não por acaso volta ao noticiário a cada virada de política de segurança.

Por que os grupos se enfrentam

Tudo isso ocorre enquanto essas estruturas se reorganizam, no rastro do acordo de paz de 2016. Ao longo de décadas do conflito armado, Farc e ELN chegaram a alinhar certas ações e fugiam do embate direto uma com a outra, preferindo gastar energia contra as Forças Armadas e contra os paramilitares.

Esse arranjo se desfez quando a maior parte das Farc se desmobilizou. As dissidências que ficaram armadas passaram a brigar com o ELN por áreas de fronteira, por corredores usados no transporte de droga e por outras fontes de financiamento ilegal — cada uma tentando ocupar o que o outro lado deixou vago.

De guerrilha política a negócio

Essa mutação tem raiz no que passou a bancar o conflito colombiano. Farc e ELN começaram como guerrilhas de bandeira política, mas foram, década após década, ficando dependentes de atividade criminosa para manter a máquina de pé.

O fim da Guerra Fria secou as fontes externas de dinheiro, justo quando manter estrutura militar de pé ficava mais caro. Em paralelo, a produção de cocaína se expandia e abria uma receita nova para quem controlasse os territórios de cultivo, de processamento e de escoamento da droga — e foi por aí que essas organizações se recompuseram financeiramente.

O declínio dos grandes cartéis fechou o quadro e reformatou o narcotráfico. Com Medellín e Cali fora de cena, sobraram vazios ocupados por gente de outro perfil: guerrilha, dissidência e quadrilha de alcance local. Dominar rota de exportação e faixa de fronteira virou, então, peça central da briga por território, e não mais um detalhe logístico. As áreas próximas à Venezuela ganharam peso nesse cenário justamente porque permitem circulação de um lado a outro da fronteira e dão acesso às rotas que as organizações ilegais utilizam para escoar o que produzem.

Quatro governos, quatro abordagens

Nas últimas décadas, o Estado colombiano oscilou entre a via militar e a mesa de negociação. Álvaro Uribe, no comando de 2002 a 2010, apostou pesado na pressão armada contra as guerrilhas.

Juan Manuel Santos, que o sucedeu depois de ter sido seu ministro da Defesa, manteve a ofensiva no início e acabou fechando o acordo de paz de 2016 com as Farc. Iván Duque, entre 2018 e 2022, puxou de novo para o enfrentamento. Gustavo Petro, no comando entre 2022 e 2026, tentou virar a chave com a chamada “paz total”, que consistia em abrir negociação com várias organizações ao mesmo tempo. A aposta foi minguando: os grupos não se desmobilizaram como se esperava, e a violência seguiu nos mesmos patamares.

Com a chegada de Espriella vem mais uma virada de leme: negociação suspensa e retomada das operações militares em intensidade bem maior do que a praticada até aqui.

O risco

O que se viu nos primeiros dias desta administração já dá a medida do tamanho do desafio pela frente. De um lado, o governo intensifica bombardeio e busca parceria internacional para atingir a espinha dorsal dos grupos armados. De outro, dissidentes das Farc e gente do ELN seguem capazes de agir em pontos diversos do país.

O perigo é que ofensiva estatal, atentado e briga entre facções cresçam juntos e abram um novo ciclo de violência. O retrato lembra o das décadas de 1980 e 1990, quando guerrilha, cartel, paramilitar e força do Estado brigavam por território num conflito cujas marcas sociais e econômicas a Colômbia carrega até hoje.

O caso foi publicado na edição desta quinta-feira 3 de O Correio de Hoje: Colômbia retoma ofensiva contra guerrilha da droga.