O presidente dos Estados Unidos partiu para cima do próprio tribunal que ajudou a formar. Na quarta-feira 16, Donald Trump saiu atirando contra a Suprema Corte e contra três dos juízes conservadores que ele próprio indicou no primeiro mandato. O motivo foi a rejeição, pelo tribunal, da tentativa do governo dele de impor novas restrições ao voto pelo correio. Faltam menos de dois meses para as eleições legislativas do dia 3 de novembro, em que estarão em jogo as 435 cadeiras da Câmara e uma parte do Senado.
Três nomes levaram a descarga do presidente: Amy Coney Barrett, Neil Gorsuch e Brett Kavanaugh. “Essas não são as pessoas que entrevistei para servir na Suprema Corte dos EUA”, publicou o presidente em suas redes. Para ele, a decisão foi “horrível e altamente política”. Na mesma publicação, voltou a pôr em dúvida a atuação do tribunal em casos que contrariam medidas tomadas pelo seu governo.

O que a corte fez, na terça-feira 15, foi manter bloqueadas as regras que a Casa Branca defendia para a votação por correspondência, modalidade em que o eleitor recebe a cédula em casa, preenche e devolve pelos Correios. O governo pretendia mudar procedimentos que os Estados usam no envio e no processamento das cédulas. Autoridades eleitorais alegaram que mexer nas regras às vésperas do pleito poderia gerar dificuldades operacionais na apuração.
O revés judicial é mais um capítulo de uma briga que vem de longe. Faz anos que o presidente põe em xeque a segurança da votação por correspondência, atribuindo a esse sistema um risco de fraude. Alegações amplas como essas, sobre fraude na votação por correspondência, nunca foram sustentadas por evidências de irregularidade em escala capaz de mudar o resultado de uma eleição.
Apenas dois integrantes do tribunal manifestaram publicamente posição divergente no caso: Samuel Alito e Clarence Thomas. Trump elogiou esses dois juízes e, na sequência, ampliou as críticas à corte, citando também julgamentos anteriores sobre tarifas e sobre cidadania por nascimento. O placar completo do julgamento a respeito do voto pelo correio não foi divulgado.
A derrota no Judiciário se soma a outras disputas em torno da eleição que se aproxima. A votação de novembro é que vai definir a composição do Congresso na segunda metade do atual mandato presidencial, e isso aumenta o peso político das regras eleitorais que estão sendo discutidas nos tribunais.
O embate do presidente com a Justiça alcançou na terça-feira 15 também o Kennedy Center, que é o principal complexo de artes cênicas de Washington, com salas de concerto, ópera e teatro. Horas depois de uma decisão judicial barrar mais uma tentativa de pôr o nome do presidente na fachada, o conselho da instituição decidiu fechar o edifício principal para uma reforma orçada em cerca de US$ 257 milhões.
O centro cultural nasceu por decisão do Congresso, como memorial ao presidente John F. Kennedy, e foi inaugurado em 1971. Desde o retorno de Trump à Casa Branca, a administração da casa mudou. O próprio presidente assumiu o comando do conselho depois que integrantes da direção foram substituídos, e passou a defender alterações ligadas ao nome e à identidade da instituição.
Coube ao juiz federal Christopher Cooper barrar novas homenagens ao presidente no prédio sem que o Congresso autorize. A decisão dá sequência a uma queda de braço na Justiça que, em junho, já havia resultado na retirada do nome dele da fachada do prédio.
Para justificar o fechamento, o conselho apontou problemas estruturais e financeiros na casa. Trump avisou que a obra não deve começar enquanto a decisão sobre o seu nome não for derrubada. Os US$ 257 milhões para os serviços já foram destinados pelo Congresso, e a obra pode deixar o prédio principal fechado por até dois anos.
A administração do centro ainda convive com a redução de atividades, resultado de apresentações canceladas e da saída de artistas do elenco. Enquanto a disputa corre nos tribunais, parte da programação deverá ser realizada em outros espaços do próprio complexo e em locais alternativos espalhados por Washington.