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Oriente Médio

Avanço dos houthis no Iêmen fecha o cerco às rotas de exportação de petróleo da Arábia Saudita

Com o oleoduto Leste-Oeste parado e Ormuz restrito, Riad vê o Mar Vermelho sob ameaça enquanto os EUA evitam entrar no confronto; Brent chegou a passar de US$ 107
Agora RN
18/09/2026 | 17:04

O maior exportador de petróleo do mundo está ficando sem caminhos para vender sua produção. Os ataques à infraestrutura de energia da Arábia Saudita deixaram parado o oleoduto que cruza o país de leste a oeste; a guerra com o Irã já limita a navegação pelo Estreito de Ormuz; e agora a ofensiva dos houthis no Iêmen põe em risco a última grande saída, pelo Mar Vermelho. O cerco ao petróleo saudita virou mais uma fonte de nervosismo nos mercados.

O perigo aumentou quando os houthis, milícia iemenita que tem o apoio de Teerã, ganharam terreno na costa do Mar Vermelho e ocuparam pontos como a cidade de Mokha e a ilha de Perim. As conquistas aproximam o grupo do estreito de Bab el-Mandeb, corredor marítimo que conecta o Mar Vermelho ao Golfo de Áden e, dali, ao Oceano Índico. Por ele passa uma das rotas comerciais mais movimentadas entre a Ásia, o Oriente Médio e a Europa.

Homens armados posam sobre destroços de aeronave com a bandeira da Arábia Saudita
Houthis sobre destroços de aeronave no Iêmen; grupo diz ter abatido um caça da coalizão saudita, versão não confirmada por Riad — Reprodução

No mesmo período em que a milícia avançava pelo litoral iemenita, drones atingiram as instalações sauditas. O Petroline, nome pelo qual também é conhecido o oleoduto Leste-Oeste, segue fora de operação desde os ataques. A tubulação tem perto de 1,2 mil quilômetros e transporta o óleo dos campos próximos ao Golfo Pérsico até a costa do Mar Vermelho. Seu peso cresceu justamente porque as limitações em Ormuz atrapalharam o escoamento pelas vias de sempre.

A combinação dos dois problemas empurrou o Brent, principal referência internacional para o preço do barril, para cima de US$ 107 nos últimos dias. O movimento se inverteu na quinta-feira 17: com menos ataques e com Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, falando na possibilidade de fim da guerra contra o Irã, a cotação recuou 3,92% e fechou em US$ 101,68, o patamar mais baixo desde 9 de setembro. O rumo dos preços segue atrelado à reabertura das rotas no Golfo e no Mar Vermelho.

Washington fica de fora

Riad passou a se sentir mais pressionada depois que o governo americano indicou que não vai se envolver diretamente na briga saudita contra os houthis. Cinco fontes ouvidas pela Reuters relataram que representantes dos Estados Unidos e do grupo iemenita se encontraram no fim de semana passado dentro da embaixada americana em Mascate. A reunião na capital de Omã teve a mediação das autoridades omanenses.

Na conversa, os houthis se comprometeram a manter a trégua acertada com os americanos em maio de 2025 e a deixar em paz embarcações dos Estados Unidos e de Israel. Pelo relato das mesmas fontes, o grupo avisou que seus alvos no mar seriam navios com vínculos com a Arábia Saudita.

A trégua do ano passado foi fechada depois de semanas de bombardeios dos Estados Unidos contra alvos houthis em território iemenita. Na ocasião, a milícia se comprometeu a poupar navios americanos, mas continuou atacando outros. Pelas estimativas citadas pela Associated Press, os americanos gastaram mais de US$ 750 milhões apenas com munição naquela campanha.

A decisão atual da Casa Branca coincide com o esforço militar americano na guerra contra o Irã, que mantém tropas e equipamentos ocupados. Do lado saudita, os estoques de interceptadores, mísseis da defesa antiaérea que servem para abater drones e foguetes, estão diminuindo, e o reino buscou apoio de França, Reino Unido, Paquistão e Egito. Segundo a Associated Press, nenhum desses países aceitou, até aqui, participar do conflito com suas forças armadas.

O momento da parceria entre americanos e sauditas é, portanto, distinto do de outras etapas da guerra iemenita. Os dois governos continuam em contato e colaboram, mas os Estados Unidos avisam que não vão tocar sozinhos uma ofensiva contra a milícia. Além das conversas com Riad, os enviados de Trump mantêm diálogo com os próprios houthis. Na prática, Washington tenta preservar a trégua que protege seus navios sem romper com o aliado saudita.

Corredores ameaçados

Para quem acompanha o mercado de energia, o problema é a soma de Ormuz com Bab el-Mandeb. O primeiro é a porta de saída do Golfo Pérsico para o oceano; o segundo faz a ligação entre o Índico e o Mar Vermelho, que leva ao Canal de Suez. Bab el-Mandeb continua aberto, mas a presença houthi mais perto do estreito elevou o risco para embarcações associadas aos sauditas e encareceu as operações de quem navega por ali. Para as empresas do setor, cada travessia passou a envolver mais incerteza e mais despesa.

O valor do Petroline estava justamente em permitir que o óleo do leste da Arábia Saudita chegasse ao Mar Vermelho sem depender de Ormuz. Com a tubulação desligada, o reino perde essa alternativa no pior momento, quando a rota pelo Golfo também está travada.

Cada dia a mais sem o conserto aumenta o prejuízo, e o efeito não fica restrito ao Oriente Médio. A receita do governo saudita cai, e uma interrupção prolongada pode retirar volumes relevantes de petróleo do mercado global, sustentando a alta de combustíveis, fretes e inflação nas economias que dependem de energia importada. É o caminho pelo qual uma crise regional chega ao bolso de consumidores em outras partes do mundo.

As acusações entre os dois lados também cresceram. Riad afirmou ter abatido um drone que, segundo o governo saudita, se dirigia a Meca. Os houthis rejeitaram a responsabilidade e disseram que os sauditas exploram a cidade sagrada para conseguir a simpatia do mundo islâmico. Ainda na quinta-feira, as autoridades do reino relataram que pedaços de um drone interceptado caíram na província de Taif, matando uma pessoa e ferindo outras duas.

A milícia afirmou também ter abatido um avião de caça F-15 da coalizão comandada pelos sauditas, na província de Marib, no Iêmen. Riad não confirmou o episódio, e não houve verificação independente. Nos dois casos, as versões seguem sem comprovação por fontes externas ao conflito.

Bombas para Israel

A recusa de Washington em entrar no conflito ao lado dos sauditas coincide com a preparação, pelo governo Trump, de um novo pacote de armas para Israel, avaliado em US$ 2,8 bilhões. A lista prevê 40 mil bombas de aproximadamente 2 mil libras, quase uma tonelada cada uma, divididas entre 20 mil unidades do modelo MK-84 e 20 mil do BLU-117. O Congresso foi avisado de modo informal por meio de suas comissões, e a venda ainda não tinha sido concluída até quinta-feira.

Entidades humanitárias já criticaram o emprego desse armamento por Israel em regiões densamente habitadas de Gaza e do Líbano, e o tema também gerou contestação dentro dos Estados Unidos, pelo tamanho da área atingida em cada explosão e pelo perigo que isso representa para a população civil. Em 2024, a gestão de Joe Biden interrompeu o envio de bombas de 2 mil libras; Trump derrubou a restrição depois. O deputado democrata Gregory Meeks disse que vai tentar bloquear a venda até receber esclarecimentos sobre a proteção de civis e o cumprimento da legislação americana e internacional. A Casa Branca, no entanto, dispõe de instrumentos para contornar em alguns casos o exame habitual dos parlamentares.

O debate se dá num momento em que a situação da população em Gaza continua frágil. Na quarta-feira 16, desabou na Cidade de Gaza um edifício de seis andares que já tinha sido danificado em bombardeios israelenses. A contagem inicial registrou 21 mortos, incluindo crianças, e dezenas de pessoas foram resgatadas dos escombros. O prédio, mesmo com risco de cair, abrigava famílias desalojadas que não tinham para onde ir.

Os vários conflitos juntos deixam o petróleo sujeito a solavancos. A guerra dos Estados Unidos contra o Irã prejudica a circulação em Ormuz, e a ofensiva dos houthis aumenta a insegurança em Bab el-Mandeb e nas instalações sauditas. Para os investidores, duas dúvidas passaram a orientar as apostas sobre o preço do barril: por quanto tempo o Petroline vai ficar desligado e se os corredores marítimos da região vão continuar funcionando. Enquanto essas respostas não vêm, qualquer notícia sobre ataques ou negociações tende a mexer com a cotação.