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Política Externa

EUA retomam Doutrina Monroe sob Trump

Departamento de Estado apresenta presidente como defensor da doutrina e afirma que domínio americano no Hemisfério Ocidental “nunca mais será questionado”
Por O Correio de Hoje
13/08/2026 | 13:06

O Departamento de Estado dos Estados Unidos publicou um vídeo no qual apresenta Donald Trump como o mais recente defensor da Doutrina Monroe e afirma que o domínio americano no Hemisfério Ocidental “nunca mais será questionado”. A manifestação reforça a adoção de uma política externa voltada à recuperação da influência de Washington nas Américas, com reflexos nas relações com China, Venezuela, Cuba e Brasil.

Apresentado pelo embaixador americano no Panamá, Kevin Marino Cabrera, o material percorre mais de dois séculos de política externa dos Estados Unidos. O diplomata começa pela formulação da Doutrina Monroe, anunciada pelo presidente James Monroe em 1823 como uma advertência contra novas intervenções europeias no continente americano.

Helicóptero em solo com agentes e outras pessoas ao lado da aeronave
Vídeo do Departamento de Estado associa presidente à política de domínio regional, como a apreensão de Maduro - Foto: Reprodução / you tube

“Os EUA, ainda uma jovem nação de fronteira, posicionaram-se como a principal potência do Novo Mundo e estabeleceram as bases para séculos de política externa americana no hemisfério”, afirmou Cabrera. “Essa declaração transformou o papel dos EUA na ordem global.”

O vídeo foi divulgado um dia após a China solicitar à Organização Mundial do Comércio (OMC) participação nas consultas abertas pelo Brasil contra tarifas impostas pelos Estados Unidos. Pequim alegou ter interesse comercial relevante na disputa, que envolve sobretaxas americanas de até 37,5%. O pedido brasileiro foi distribuído aos integrantes da OMC em 30 de julho.

Embora o Departamento de Estado não estabeleça relação direta entre os dois episódios, a sequência ocorre em um momento de disputa entre Washington e Pequim por espaço econômico e político na América Latina. A China tornou-se o principal parceiro comercial de países como Brasil, Chile e Peru e ampliou investimentos em mineração, energia, portos e infraestrutura.

Formulada sob o lema “América para os americanos”, a Doutrina Monroe buscava inicialmente impedir que as monarquias europeias restaurassem seu controle sobre as antigas colônias latino-americanas. Com o passar do tempo, a diretriz passou a ser utilizada como fundamento para intervenções políticas, econômicas e militares promovidas pelos Estados Unidos na região.

Em 1904, o presidente Theodore Roosevelt acrescentou o chamado Corolário Roosevelt. A nova interpretação concedia a Washington o direito de intervir em países latino-americanos que, na avaliação americana, enfrentassem desordem política, incapacidade financeira ou risco de interferência europeia.

“Roosevelt interveio e declarou que, se uma nação latino-americana entrasse em caos ou instabilidade, os EUA interviriam e assumiriam sua administração. A doutrina havia começado como um escudo. Roosevelt a transformou em um mandato”, disse Cabrera no vídeo.

A expansão desse entendimento acompanhou intervenções em Cuba, Nicarágua, Haiti e Guatemala. Também sustentou a chamada diplomacia do dólar, pela qual os Estados Unidos financiavam governos da região e, em contrapartida, assumiam influência sobre alfândegas, finanças públicas e decisões econômicas.

O material do Departamento de Estado cita ainda a guerra de 1898, que ampliou o controle americano sobre Cuba e Porto Rico, e o uso da Doutrina Monroe durante os governos de John Kennedy e Ronald Reagan. Na Guerra Fria, a diretriz foi associada ao combate à expansão soviética e aos movimentos políticos alinhados ao comunismo.

A administração Trump passou a chamar sua interpretação de “Doutrina Donroe”, combinação entre os nomes Donald e Monroe. A política está concentrada no combate à presença de China, Rússia e Irã nas Américas, no controle da migração, na repressão ao narcotráfico e na ampliação da presença militar americana.

O principal exemplo apresentado no vídeo é a operação de janeiro que resultou na captura de Nicolás Maduro, retirado da Venezuela por forças americanas e levado aos Estados Unidos para responder a acusações de narcoterrorismo e tráfico de drogas. Cabrera afirmou que a “manobra calculada transmitiu um sinal contundente por toda a região”.

A operação foi condenada por governos latino-americanos e questionada por especialistas em direito internacional por representar uma intervenção militar em um país soberano. A Casa Branca, por sua vez, afirmou que a ação estava vinculada à segurança americana e ao combate às organizações de narcotráfico.

Na sequência do vídeo, Trump declara: “De acordo com nossa nova Estratégia de Segurança Nacional, o domínio americano no Hemisfério Ocidental nunca mais será questionado”. Segundo Cabrera, “o que começou como um alerta às potências europeias evoluiu para uma estrutura de domínio regional, que continua sendo a pedra angular da estratégia americana”.

A Estratégia de Segurança Nacional divulgada no ano passado já descrevia as operações militares contra embarcações suspeitas de transportar drogas no Caribe e no Pacífico Oriental como parte de um “Corolário Trump à Doutrina Monroe”. O documento defendia uma reformulação da presença militar dos Estados Unidos na região para combater o tráfico e controlar a migração.

A política agora avança sobre Cuba. Segundo o New York Times, o governo Trump procura uma autoridade cubana, atual ou antiga, que possa assumir o comando da ilha e trabalhar em colaboração com Washington. A Casa Branca descreve a iniciativa como uma tentativa de promover uma “alteração” interna, e não necessariamente uma mudança de regime conduzida diretamente pelos Estados Unidos.

As agências de inteligência teriam sido orientadas a procurar um perfil semelhante ao de Delcy Rodríguez, que assumiu interinamente a Presidência da Venezuela após a captura de Maduro. Autoridades americanas consideraram que ela tinha condições de manter o funcionamento do governo e negociar com Washington sem provocar uma ruptura institucional imediata.

Cuba, porém, oferece condições diferentes. Avaliações de inteligência citadas pelo jornal indicam que há poucas autoridades com poder político e disposição para aceitar as exigências americanas. A estrutura do regime cubano é considerada mais fechada e comparada, por algumas fontes, à organização política do Irã.

Entre os nomes avaliados estariam Raúl Rodríguez Castro, conhecido como “Raulito”, neto de Raúl Castro, e Lázaro Alberto Casas, ministro do Interior. O governo cubano, por sua vez, demonstraria preferência por Oscar Pérez-Oliva Fraga, sobrinho-neto de Fidel Castro, possibilidade rejeitada por Washington. Nenhum dos nomes teve participação publicamente confirmada em negociações.

Os Estados Unidos também teriam apresentado exigências aos dirigentes cubanos, incluindo a liberalização da economia, em troca de incentivos ainda não detalhados. A direção do país não deu sinais de que aceitará as condições. Paralelamente, a CIA teria criado uma força-tarefa para coordenar atividades relacionadas à ilha, segundo o relato do jornal baseado em fontes anônimas.

A publicação oficial sobre a Doutrina Monroe transforma em mensagem pública uma orientação que já aparecia em ações da Casa Branca. Ao reivindicar a primazia americana nas três Américas, o governo Trump envia um recado tanto aos países da região quanto às potências externas, sobretudo à China. Ao mesmo tempo, reabre o debate sobre soberania e sobre o histórico de intervenções dos Estados Unidos na América Latina.