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Oriente Médio

Irã usa Ormuz para pressionar os EUA a não abandonar a guerra

Teerã cobra suspensão de sanções, desbloqueio de ativos e retirada de forças americanas enquanto negocia novas rotas com Omã
Por O Correio de Hoje
11/08/2026 | 13:52

O Irã transformou o controle do Estreito de Ormuz em sua principal ferramenta de pressão para exigir dos Estados Unidos o cumprimento do memorando assinado em 14 de junho. Teerã condiciona a reabertura plena da rota à suspensão de sanções, ao desbloqueio de ativos e à retirada de forças americanas da região, enquanto o impasse mantém preços de energia elevados e aumenta a pressão sobre o presidente Donald Trump.

As condições foram apresentadas por Mohammad Bagher Zolghadr, então secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional iraniano. A lista inclui o fim do bloqueio naval e das sanções às exportações de petróleo e produtos petroquímicos, a liberação de recursos congelados, a suspensão de ataques a aliados do Irã e o pagamento de reparações pelos danos causados durante a guerra. Com exceção das reparações, os pontos já faziam parte do memorando de 14 itens assinado em junho. O acordo previa um cronograma para aliviar sanções, discutir a liberação dos ativos e encerrar hostilidades, mas começou a ser violado poucas semanas depois. Trump declarou posteriormente que o entendimento estava encerrado.

Donald Trump usando terno escuro e gravata em ambiente interno
Donald Trump enfrenta pressão do Irã em meio ao impasse sobre a reabertura do Estreito de Ormuz - Foto: Reprodução/ Truth Social

Na avaliação de analistas, o governo iraniano teme que a reabertura do estreito retire de Washington o incentivo para implementar as concessões. Cerca de 20% do petróleo consumido mundialmente atravessa normalmente a passagem, que liga o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã. A restrição ao tráfego afeta exportadores como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Catar e Iraque. Autoridades iranianas estão preocupadas de que, se o estreito reabrir, Trump abandonará o conflito sem sentir a necessidade de resolvê-lo”, afirmou Esfandyar Batmanghelidj, fundador da Fundação Bourse & Bazaar. Segundo ele, Teerã tenta utilizar a rota como “mecanismo de compromisso” para garantir o cumprimento do memorando.

Ali Vaez, diretor do projeto sobre o Irã do International Crisis Group, comparou Ormuz a uma “espada de Dâmocles sobre Trump”. “O Irã quer obter benefícios antecipadamente sem abrir mão de sua principal carta na manga, que é Ormuz”, disse. O pedido de reparações funcionaria como moeda de troca para ampliar o alívio das sanções.

As negociações técnicas entre Irã e Omã para definir novas rotas de navegação estão próximas da conclusão. O ministro iraniano das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, afirmou que especialistas trabalham nos mapas, mas ressaltou que um entendimento com Mascate não produzirá automaticamente a reabertura do estreito.

“Um acordo com Omã não significa a reabertura do estreito, que permanece dependente do cumprimento de condições transmitidas por meio de mediadores”, declarou Araghchi. As conversas tratam da circulação de embarcações, enquanto a abertura plena depende de um novo entendimento político com Washington.

A posição mostra que Teerã separa a administração técnica do tráfego da negociação sobre sanções, ativos e segurança. Qualquer conversa sobre o programa nuclear iraniano, apontado por Trump como uma das razões para o início da ofensiva, também dependeria do restabelecimento do memorando.

A disputa é acompanhada por divisões internas nos dois países. Parte do governo iraniano defende a diplomacia como caminho para financiar a reconstrução e conter a crise econômica. A ala mais resistente prefere preservar o controle sobre Ormuz por desconfiar que Washington abandonará as negociações assim que o fluxo de petróleo for normalizado.

“Eles são tão céticos e paranoicos que preferem manter sua vantagem de negociação a pensar na economia”, afirmou Sanam Vakil, diretora do programa para Oriente Médio e Norte da África da Chatham House. Segundo ela, o estreito não é uma discussão sobre tarifas de passagem, mas sobre controle e capacidade de negociar o restante do acordo.

Trump afirmou no domingo 9, que os Estados Unidos estão conduzindo a questão “com calma” e apenas “seminegociando” com Teerã. O presidente americano disse apostar que a inflação e a falta de recursos levarão o governo iraniano a ceder. “Estamos apenas observando o Irã com sua enorme inflação e o fato de que eles não têm dinheiro”, declarou em entrevista ao Axios.

Nesta segunda-feira 10, porém, o presidente respondeu ao pedido iraniano de reparações com uma cobrança semelhante. Trump afirmou que exigirá compensações por americanos mortos ou feridos em ataques atribuídos ao Irã e a grupos apoiados por Teerã. A troca de exigências reduziu as expectativas de um acordo rápido e contribuiu para a alta do petróleo.