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Comportamento

Ouvir antes de aconselhar pode ser a melhor forma de ajudar

Escuta atenta pode ajudar a pessoa a organizar o próprio sofrimento e se sentir acolhida, segundo especialistas
Por O Correio de Hoje
11/08/2026 | 14:37

Quando alguém desabafa, é comum que quem escuta tente encontrar uma solução para o problema. Dar uma sugestão, apontar um caminho ou dizer o que faria na mesma situação pode parecer uma forma de ajudar. No entanto, segundo psicólogas, muitas vezes a pessoa não procura uma resposta, mas apenas alguém disposto a ouvi-la com atenção e sem julgamentos.

Para a psicóloga Maria Helena Pereira Franco, professora da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica), a vontade de oferecer uma solução é natural. “A gente quer cuidar, quer fazer com que a pessoa não sofra.” O problema aparece quando os conselhos são oferecidos logo após o desabafo ou antes mesmo de a pessoa conseguir explicar o que está vivendo. Nesses casos, ela pode ter a sensação de que não foi compreendida ou de que aquilo que sente não importa.

Duas pessoas conversam e seguram as mãos enquanto estão sentadas à mesa em um café
Ouvir com atenção e sem julgamentos e acolher pode ser mais importante do que oferecer conselhos, segundo recomendam psicólogas - Foto: magnific

Por isso, oferecer apoio não significa necessariamente resolver o problema pelo outro. Ouvir com atenção, reconhecer o que a pessoa está vivendo e entender o que ela precisa naquele momento são formas de demonstrar cuidado sem assumir o controle da situação.

Antes de oferecer qualquer conselho, o mais importante é estar presente e ouvir. Para Priscila Galhardo, psicóloga do Grupo de Pesquisa em Psicologia do Desenvolvimento Moral do Instituto de Psicologia da USP (Universidade de São Paulo), evitar soluções imediatas transmite segurança emocional e valida a dor de quem está sofrendo. Esse espaço de escuta também pode aliviar a sensação de solidão.

Jhoanne Hansen, psicóloga e cofundadora da Desvirtua, empresa de psicoeducação em saúde mental, afirma que uma escuta atenta exige interesse genuíno pela outra pessoa. Também é preciso evitar transformar a conversa em um relato sobre as próprias experiências.

“Muitas vezes, quem está passando por um problema não quer um conselho, quer ser ouvido. Ser ouvido é muito mais importante para que a pessoa se escute”, afirma.

Segundo Galhardo, a escuta também permite que a própria pessoa organize o que está sentindo. “A escuta é o lugar em que esse sofrimento encontra uma fala, um sentido, um movimento”, diz.

Estar presente não depende necessariamente de um encontro presencial. Quando não é possível estar no mesmo lugar, uma ligação, uma chamada de vídeo, um áudio ou uma mensagem também podem demonstrar cuidado. “O importante é mostrar que você está ali para a pessoa”, afirma Hansen.

Outra forma de oferecer apoio é convidar a pessoa para atividades que permitam, mesmo que por algum tempo, tirar o foco do sofrimento. Segundo Hansen, isso não significa ignorar o problema ou fingir que ele não existe, mas criar oportunidades para que a dor não ocupe toda a atenção.

Depois de um divórcio, por exemplo, um passeio, uma ida ao museu, a prática de um esporte coletivo ou até um café podem ajudar. “Isso tira o foco da dor”, afirma a psicóloga.

Para Hansen, esses convites permitem que a pessoa tenha outros momentos e perceba que a vida não se resume ao problema que está enfrentando. A proposta, portanto, é oferecer companhia e criar espaço para outras experiências, sem pressionar a pessoa a deixar de sentir o que está sentindo.

Durante o desabafo, também é importante evitar críticas e julgamentos. Uma escuta acolhedora pode fazer com que a pessoa se sinta segura para compartilhar suas dificuldades sem medo de ser censurada ou desqualificada.

Segundo Hansen, quando alguém encontra esse espaço de acolhimento, tende a procurar apoio novamente em momentos de maior vulnerabilidade. A sensação de segurança fortalece a confiança na relação e facilita que a pessoa peça ajuda quando precisar.

Esse acolhimento não significa concordar com tudo o que a pessoa diz ou fazer uma avaliação sobre quem está certo ou errado. O objetivo é permitir que ela fale sobre o que está vivendo e seja ouvida antes de receber qualquer orientação.

Quando houver dúvida sobre o que fazer, uma alternativa é perguntar diretamente à pessoa. Em vez de dizer genericamente “tem algo que eu possa fazer?”, Maria Helena Pereira Franco recomenda perguntas mais específicas, como “O que você gostaria que eu fizesse?” ou “O que faria bem para você agora?”.

Segundo ela, essa abordagem ajuda a transformar o desejo de aliviar a dor em um pedido concreto, que pode ser atendido.

Hansen acrescenta que também é possível perguntar se a pessoa quer ouvir uma opinião ou se prefere apenas desabafar. Uma frase como “Você quer pensar em algo junto comigo ou só quer ser escutado?” ajuda a entender se existe abertura para sugestões naquele momento.

Para Galhardo, antes de tentar resolver a situação, é importante oferecer segurança emocional e reconhecer a dificuldade enfrentada. Ela sugere uma abordagem como: “Eu posso imaginar esse momento difícil que você está passando. Fique à vontade, eu estou aqui para te escutar”.

Reconhecer a dificuldade do outro não significa encontrar uma solução imediata. A validação mostra que aquela experiência está sendo levada a sério e que a pessoa não está sozinha diante do problema.

Galhardo afirma que reconhecer o sofrimento é uma forma de oferecer segurança emocional. Pereira Franco também ressalta que a validação emocional aproxima as pessoas porque reconhece a dor sem minimizá-la.

Em vez de frases como “você precisa ser forte”, a psicóloga recomenda reconhecer a dificuldade enfrentada. “Olha, eu estou vendo como isso está difícil para você. Gostaria de poder fazer alguma coisa que amenizasse a sua dor.”

As psicólogas também recomendam evitar comparações com outras histórias ou transformar o desabafo em uma oportunidade para contar experiências pessoais. “A pessoa não está querendo ouvir a sua história. Ela mal está dando conta da própria”, afirma Pereira Franco.

Sentir tristeza, desânimo e até passar por um período de isolamento pode fazer parte da experiência humana. Segundo Hansen, o alerta surge quando esses sentimentos se tornam persistentes e passam a comprometer a rotina.

Se a pessoa deixa de sair de casa por muito tempo, abandona o convívio social, para de cuidar de si ou passa a ter prejuízos no trabalho, nas finanças ou nos relacionamentos, pode ser necessário buscar uma avaliação profissional.

Pereira Franco lembra que mudanças após uma perda são naturais. A preocupação aparece quando a pessoa não consegue sair daquele estado de sofrimento ou permanece paralisada pela dor.

Nessas situações, amigos e familiares podem sugerir ajuda especializada de maneira acolhedora, sem julgamentos ou cobranças. A recomendação é demonstrar preocupação e reconhecer que o apoio profissional pode oferecer um espaço de escuta diferente daquele que familiares e amigos conseguem proporcionar.

Ela sugere uma abordagem como: “Eu estou vendo que está muito difícil para você. Há profissionais que podem oferecer uma escuta que eu não consigo dar.”

Dessa forma, o apoio não precisa estar ligado à tentativa de solucionar imediatamente aquilo que causa sofrimento. Em muitos momentos, ouvir, acolher, perguntar do que a pessoa precisa e respeitar o tempo dela podem ser formas mais adequadas de demonstrar cuidado.