O Brasil receberá em 17 de agosto a primeira visita de um secretário-geral da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean). Kao Kim Hourn deverá cumprir agenda em Brasília voltada à ampliação da cooperação política e comercial com o bloco. Antes dele, chegou ao País neste domingo 9, a chanceler das Filipinas, Maria Theresa Lazaro.
A visita ocorre enquanto o governo brasileiro busca elevar o nível de sua relação institucional com a Asean. O Brasil é o único país da América Latina reconhecido como Parceiro de Diálogo Setorial do grupo. O status foi concedido pelos chanceleres da associação em agosto de 2022, e o primeiro comitê conjunto de cooperação reuniu-se em dezembro daquele ano.

Em 2023, Brasil e Asean aprovaram um programa de cooperação para o período de 2024 a 2028. O documento contempla áreas como ciência e tecnologia, segurança alimentar, energia, educação, saúde pública, conectividade e intercâmbio entre pessoas. Em março de 2024, o governo brasileiro instalou uma missão permanente em Jacarta, onde funciona a sede da organização.
O Brasil é o único entre os oito Parceiros de Diálogo Setorial que mantém uma representação exclusiva junto à Asean. Agora, o Itamaraty aguarda uma decisão sobre o pedido para se tornar Parceiro de Diálogo Pleno, categoria que permite uma agenda mais abrangente e é mantida pelo bloco com países como China, Japão e Estados Unidos.
A visita de Kao Kim Hourn é tratada por diplomatas brasileiros como um passo na avaliação desse pedido. Em março, o secretário-geral reuniu-se com o embaixador brasileiro junto à Asean, Henrique Ferraro, para discutir o programa de cooperação e os preparativos para a viagem. A expectativa em Brasília é que o encontro produza sinalizações sobre a possibilidade de mudança de status.
O movimento de aproximação com o Sudeste Asiático é anterior aos atritos recentes entre Brasil e Estados Unidos, mas ganhou importância com o aumento das barreiras comerciais e das tensões diplomáticas com Washington. As novas medidas tarifárias norte-americanas e a revogação do visto da embaixadora brasileira nos Estados Unidos ampliaram a pressão para diversificar mercados e reduzir a exposição a parceiros tradicionais.
Nos últimos três anos, as exportações brasileiras para Cingapura, Indonésia, Vietnã, Malásia e Tailândia alcançaram valor semelhante ao vendido para Alemanha, Itália, Reino Unido, Japão e França. A comparação mostra o avanço de países asiáticos na pauta comercial brasileira, embora as exportações para a região ainda sejam concentradas em petróleo, minério de ferro, soja, farelo de soja, carnes e outros produtos básicos.
Em 2024, Cingapura comprou US$ 7,9 bilhões em produtos brasileiros, valor superior às vendas para a Alemanha, de US$ 5,85 bilhões, e mais que o dobro dos US$ 3 bilhões destinados à França. A pauta para o mercado cingapuriano foi impulsionada principalmente por derivados de petróleo e aeronaves.
No mesmo ano, as exportações para a Malásia superaram US$ 4,3 bilhões, com concentração em minério de ferro e petróleo bruto. A Indonésia comprou US$ 4,5 bilhões em produtos brasileiros, sobretudo soja e farelo. As vendas ao Vietnã chegaram a US$ 4,2 bilhões, enquanto a Tailândia importou US$ 3,45 bilhões.
A intensificação dos contatos políticos acompanhou a expansão comercial. Em outubro de 2025, Luiz Inácio Lula da Silva tornou-se o primeiro presidente brasileiro a participar de uma cúpula da Asean, realizada na Malásia. À margem do encontro, Lula reuniu-se com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Em julho deste ano, o chanceler Mauro Vieira participou da reunião de ministros das Relações Exteriores da Asean, nas Filipinas. Durante o encontro, Brasil, Filipinas e a secretaria-geral do bloco realizaram conversas sobre a ampliação da parceria. A visita da chanceler Maria Theresa Lazaro a Brasília dá continuidade a essa agenda.
Criada em 1967, a Asean reúne Indonésia, Malásia, Filipinas, Cingapura, Tailândia, Brunei, Vietnã, Mianmar, Laos, Camboja e Timor-Leste. Os 11 países somam quase 700 milhões de habitantes e um Produto Interno Bruto superior a US$ 3,6 trilhões. Considerada em conjunto, a região teria dimensão equivalente à quinta maior economia mundial.
O crescimento econômico, a urbanização e a expansão do consumo aumentaram o interesse de governos e empresas pela região. Estados Unidos, China, Japão e União Europeia disputam acesso aos mercados do Sudeste Asiático e buscam ampliar sua influência sobre cadeias produtivas, infraestrutura, tecnologia e segurança regional.
No artigo “O eixo Brasil-Asean”, publicado no fim de 2025, a diplomata Eugênia Barthelmess, ex-embaixadora do Brasil em Cingapura, relacionou a aproximação à mudança do centro de gravidade da economia mundial. “Em cenário de rápidas transformações geoeconômicas e de instabilidade geoestratégica global aguda, caracterizado pela imprevisibilidade da atuação política e comercial dos Estados Unidos em relação a parceiros tradicionais e aliados históricos, e em meio à aparente apatia das lideranças europeias, é inegável o interesse para o Brasil na reafirmação da importância estratégica do Sudeste da Ásia.”
A elevação ao nível de Parceiro de Diálogo Pleno dependerá de consenso entre os integrantes da Asean. A visita de Kao Kim Hourn não garante a aprovação do pedido, mas amplia o contato político com a secretaria-geral e dá visibilidade ao programa de cooperação. A parceria vigente pode ser consultada nos documentos oficiais da Asean, enquanto os dados comerciais estão reunidos na análise publicada pelo Centro Brasileiro de Relações Internacionais.