A trégua informal que reduziu os confrontos entre Estados Unidos e Irã nos últimos dias foi interrompida por uma nova escalada militar no Oriente Médio. Na noite de terça-feira 28, forças americanas e sauditas realizaram bombardeios coordenados contra posições de milícias apoiadas por Teerã no Iraque, horas depois de sistemas de defesa dos Estados Unidos interceptarem um ataque iraniano com mísseis contra uma base militar americana na Jordânia. Segundo o Comando Central dos Estados Unidos (Centcom), a ofensiva foi uma resposta a sucessivos ataques com drones lançados por grupos alinhados ao Irã contra instalações militares americanas e infraestrutura energética saudita. As Forças de Mobilização Popular do Iraque informaram que ao menos 20 combatentes morreram e outros 32 ficaram feridos nos ataques, que atingiram sete províncias, incluindo Bagdá, Basra e Karbala.
A operação marca um novo patamar no envolvimento da Arábia Saudita na crise regional. Embora Riad tenha evitado, nos últimos anos, ampliar sua participação direta em confrontos envolvendo o Irã e seus aliados, o governo saudita confirmou que atuou ao lado das forças americanas após ataques contra instalações petrolíferas do país. Em nota, o porta-voz do Ministério da Defesa, Turki al-Malki, afirmou que o reino “não busca escalada”, mas exercerá seu direito à legítima defesa diante de agressões contra seu território. A participação saudita ocorre em um contexto de crescente pressão dos rebeldes houthis, apoiados por Teerã, que intensificaram ataques contra petroleiros e ameaçaram bloquear portos sauditas como forma de pressionar Riad e seus aliados em meio à guerra envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel.

O governo iraquiano reagiu com críticas à ofensiva. Apesar de o presidente Donald Trump afirmar, em entrevista à Fox News, que a operação havia sido coordenada com Bagdá e classificar as milícias xiitas como um “câncer do mundo”, o primeiro-ministro Ali al-Zaidi descreveu os bombardeios como uma “agressão inaceitável” contra a soberania do país e adiou uma visita oficial que faria à Arábia Saudita. O episódio amplia a pressão sobre o governo iraquiano, que tenta preservar uma posição de equilíbrio entre Washington e Teerã. Ao mesmo tempo em que mantém cooperação militar com os Estados Unidos, Bagdá convive com milícias xiitas fortemente ligadas ao Irã e incorporadas às Forças de Mobilização Popular, estrutura oficialmente vinculada ao aparato de segurança do Estado.
A deterioração do cenário ocorre poucos dias após Ali al-Zaidi concluir uma série de encontros diplomáticos em Washington e Teerã para defender o Iraque como espaço de diálogo entre as potências regionais. A nova ofensiva ameaça esse esforço e reacende o risco de que o território iraquiano volte a ser palco central da disputa entre Estados Unidos e Irã, repetindo um cenário que marcou boa parte das últimas duas décadas. Em meio ao agravamento da crise, o influente líder xiita Moqtada al-Sadr pediu contenção, afirmando que “o Iraque e seu povo precisam de paz” e condenando tanto violações da soberania nacional quanto ações de milícias armadas que possam ampliar o conflito interno.
O estopim para a nova escalada foi o lançamento de mísseis iranianos contra a Base Aérea Muwaffaq Salti, na Jordânia, que abriga forças americanas. A Guarda Revolucionária do Irã confirmou a autoria do ataque e declarou que continuará respondendo “enquanto persistirem as ameaças contra a República Islâmica e as ações ilegais das forças americanas”. O Centcom afirmou que todos os projéteis foram interceptados pelos sistemas de defesa aérea e que não houve danos confirmados à instalação, embora avaliações independentes ainda não tenham sido concluídas. O episódio ocorre pouco mais de uma semana após outro ataque iraniano que matou militares americanos na mesma região, elevando a pressão política sobre a Casa Branca por uma resposta mais contundente.
Donald Trump reagiu adotando um discurso mais duro. Em entrevista concedida na manhã desta quarta-feira, o presidente afirmou que os Estados Unidos responderão “com uma surra” caso novas ações iranianas ocorram. A retórica contrasta com a posição adotada poucos dias antes, quando o governo americano havia suspendido temporariamente os bombardeios para criar espaço para negociações diplomáticas. Apesar da escalada verbal, integrantes da administração americana avaliam que Trump continua buscando um acordo que reduza as tensões com Teerã, sobretudo diante do desgaste político provocado por um conflito que encontra resistência inclusive entre parte de sua base eleitoral.
A nova ofensiva também amplia a complexidade da relação entre Washington e Israel. Horas antes do ataque iraniano, Trump recebeu na Casa Branca o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, que apresentou novos relatórios de inteligência e voltou a defender uma retomada dos ataques contra instalações nucleares iranianas. O governo israelense considera insuficientes as iniciativas diplomáticas em discussão e sustenta que o avanço do programa nuclear do Irã exige novas ações militares. Assessores próximos ao presidente americano, contudo, reconhecem que uma ampliação da guerra pode elevar ainda mais os custos econômicos e políticos para os Estados Unidos, especialmente às vésperas das eleições legislativas de meio de mandato. Além das implicações geopolíticas, a retomada dos confrontos reforça as preocupações do mercado internacional de energia.