Travis Barker construiu uma carreira marcada pela bateria, passando pelo pop-punk, hip-hop e rap-rock. O músico se tornou conhecido principalmente como baterista do Blink-182, mas também colaborou com artistas de diferentes gêneros e participou de grandes cerimônias de premiação.
Aos 50 anos, Barker também passou a olhar para a própria trajetória de outra maneira. O músico, que se tornou integrante da família Kardashian ao se casar com Kourtney Kardashian, aparece em um documentário que acompanha diferentes momentos de sua vida, incluindo a criação, o auge da fama, o acidente aéreo de 2008, a recuperação e o retorno aos voos.

“Travis Barker: Louder Than Fear” será lançado pelo Hulu. O documentário levou uma década para ser produzido e reúne imagens da trajetória do baterista, incluindo o período posterior ao acidente, quando ele passou por mais de 20 cirurgias e enfrentou um longo processo de recuperação física e psicológica.
O acidente aconteceu em 2008 e matou quatro das seis pessoas que estavam a bordo, incluindo amigos próximos de Barker. Depois do episódio, o músico passou quase 20 anos sem entrar em um avião.
Em entrevista ao “Popcast”, programa de conversas sobre cultura pop do New York Times, Barker falou sobre o documentário, a relação com a bateria, a família e o processo que o levou a voltar a voar.
A percussão é uma constante na trajetória de Barker. Com formação em jazz e bandas marciais durante a adolescência em Fontana, na Califórnia, ele levou a técnica para diferentes gêneros musicais, incluindo ska, country e pop-punk.
Além do Blink-182, o músico também integrou o grupo de rap-rock Transplants.
Suas viradas de bateria se tornaram uma das marcas de sua carreira, construída ao longo de três décadas. Barker costuma tocar com intensidade, velocidade e força física.
“Acho que cicatrizes são legais”, disse Barker ao “Popcast”. “Nunca saí de um show com as mãos em frangalhos pensando: ‘Queria não ter tocado com tanta força hoje à noite.’”
O músico afirma que a rotina de exercícios também está ligada à capacidade de continuar tocando da maneira que deseja.
“É por isso que treino, é por isso que corro, é por isso que pratico boxe e é por isso que faço as coisas que faço. Porque quero ser capaz de tocar do jeito que quero tocar”, afirmou.
As conversas para a produção do documentário começaram depois do lançamento do livro “Can I Say: Living Large, Cheating Death, and Drums, Drums, Drums”, publicado em 2015.
Segundo Barker, as feridas relacionadas ao acidente ainda estavam muito recentes quando o projeto começou.
“As feridas ainda estavam muito recentes — foi algo realmente difícil. Mas tanto o livro quanto o filme são terapêuticos, certo?”, afirmou.
A previsão inicial era que o documentário fosse concluído por volta de 2017. Naquele período, os produtores queriam terminar a produção com imagens de Barker chegando a um aeroporto e embarcando em um avião.
A ideia não foi aceita pelo músico.
“De jeito nenhum. Não tem a menor chance de eu chegar perto de um avião”, respondeu na época.
Barker conta que chegou a evitar hotéis próximos a aeroportos e passou quase duas décadas sem sequer frequentar um aeroporto.
“Só lancem isso um dia, quando eu já tiver partido, ou algo assim. Não quero mais lidar com isso”, disse.
O projeto acabou sendo interrompido. Anos depois, Barker afirma que passou a se dedicar ao autoconhecimento, a exercícios de respiração e a outras mudanças na rotina. Até que voltou a voar.
O músico conta que o processo para lidar com o trauma envolveu diferentes profissionais e práticas. Entre elas, exercícios de respiração.
Segundo Barker, uma massoterapeuta o incentivou a praticar esse tipo de exercício e afirmou que ele carregava muito trauma no corpo.
“Você precisa fazer exercícios de respiração”, ela disse.
Barker conta que inicialmente não sabia exatamente como lidar com o que havia vivido depois do acidente. Ele conversou com um especialista em traumas, ficou sóbrio, passou a correr e adotou uma rotina de exercícios.
Um fã também o incentivava a fazer exercícios de respiração. Quando finalmente decidiu experimentar, Barker afirma que teve uma reação emocional intensa.
“Cara, com dez minutos de prática, eu estava chorando copiosamente. Eu estava totalmente desestabilizado. E foi assim nas cinco sessões seguintes.”
Apesar da intensidade das reações, ele afirma que sentia estar avançando no processo.
Mais tarde, pediu à esposa, Kourtney Kardashian, que não o avisasse com muita antecedência quando fosse viajar de avião.
“Se você for me levar a algum lugar, não me avise com antecedência. Só me conte na noite anterior.”
Foi dessa maneira que ele voltou a voar. Barker fez os exercícios de respiração na noite anterior e embarcou.
“Felizmente, tive uma ótima experiência.”
A decisão também envolveu os filhos de Barker. Segundo ele, os filhos mais velhos ficaram muito preocupados quando souberam que ele voltaria a viajar de avião.
“Meus filhos eram muito, muito protetores comigo e tinham muito medo, a ponto de implorarem para que eu não entrasse no avião.”
Barker afirmou que precisava mostrar aos filhos que era possível quebrar aquele ciclo de medo.
Os filhos tinham cerca de 3 e 5 anos quando o acidente aconteceu e não voltaram a voar depois disso.
“É triste, mas eles basicamente cresceram achando que é assim que as pessoas morrem”, afirmou.
O acidente também aparece de uma forma particular no documentário. Enquanto imagens do episódio são apresentadas, Barker executa um solo de bateria.
Segundo o músico, o produtor pediu que ele criasse uma apresentação que refletisse a sensação daquele momento.
“Olha, tem uma cena em que vamos mostrar imagens do seu acidente de avião e quero que você faça um solo de bateria que meio que espelhe essa sensação”, relatou Barker sobre o pedido.
Ele chegou a um galpão iluminado por fogo e começou a tocar.
“Não falei muito, sinceramente; apenas sentei na bateria e comecei a me expressar.”
Barker afirma que o resultado foi intenso e catártico. Ele fez dois solos completamente improvisados.
“É algo muito cru, muito catártico e intenso.”
Depois da apresentação, o músico deixou o local imediatamente.
“Pensei: ‘É isso.’ Foi difícil. Mais difícil do que consegui expressar em palavras. Mas achei que o melhor a fazer era canalizar aquela energia através da bateria.”
O documentário também aborda a vida pessoal de Barker e seu casamento com Kourtney Kardashian.
A relação entre os dois já aparece em “The Kardashians”, reality show que acompanha a família Kardashian-Jenner. Barker afirma, porém, que não considera sua participação no programa um processo que o tenha preparado para se abrir no documentário.
“Nem percebo que estou no programa. Acho que a melhor maneira de lidar com coisas assim — ou de participar delas — é não ficar pensando que estou sendo filmado ou que algo diferente está acontecendo.”
O músico afirma que ama a esposa e a família dela e conta que não costuma aprovar os episódios nem assisti-los.
“Sou um coadjuvante.”
Para Barker, o que tornou possível o lançamento do documentário foi ter conseguido superar questões que ainda exerciam poder sobre ele.
A trajetória do casal para ter um filho também é abordada na produção.
Em “The Kardashians”, a busca pela gravidez já havia sido registrada. No novo documentário, Barker e Kourtney compartilham a experiência de um aborto espontâneo ocorrido antes do nascimento de Rocky, que hoje tem 2 anos.
O casal também passou por fertilização in vitro, que não deu certo, antes de Kourtney engravidar naturalmente.
Barker afirma que decidiu compartilhar essa parte da história porque acredita que experiências desse tipo podem ajudar outras pessoas a se identificar.
“Acho que, quando há algo que pode beneficiar as pessoas ou ajudá-las a se identificar com uma situação, é sempre um sinal verde.”
Segundo ele, a trajetória do casal, passando por abortos espontâneos, fertilização in vitro e, posteriormente, uma gravidez natural, é uma experiência com a qual muitas pessoas conseguem se identificar.
Barker também falou sobre os filhos mais velhos, Landon e Alabama, que têm grande presença na internet.
O músico afirma que conversar com eles sobre exposição pública e escolhas profissionais é difícil.
Ele contou, por exemplo, que Landon ligou recentemente para dizer que havia recebido um convite para participar do programa “The Voice”.
“Cara, você é estiloso demais para isso”, respondeu Barker.
O músico reconheceu que a opinião pode parecer contraditória, já que ele próprio tocou bateria no “American Idol” ao lado de Mary J. Blige. Ainda assim, explicou que pensa de outra maneira sobre as escolhas dos filhos.
“Você tem que pensar nos seus ídolos. Se o seu ídolo é o Kurt Cobain, será que o Kurt Cobain participaria do ‘The Voice’?”
A relação de Barker com a exposição também mudou ao longo dos anos. O músico conta que, no passado, costumava reagir de forma agressiva à presença de paparazzi.
“Antigamente, eu quase brigava com paparazzi. Não me orgulho nada disso.”
Segundo ele, costumava perder a cabeça quando era seguido ou quando aconteciam situações que considerava incômodas.
“Eu reagia rápido ou partia para o confronto. Mas hoje penso: não é por aí. É tudo apenas ruído.”
Para Barker, a mudança de comportamento também serve como exemplo para os filhos diante da exposição na internet.
“Continue seguindo o caminho que você está trilhando.”