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Segurança Presidencial

Avião-isca salva Trump de ataque do Irã

Presidente foi transportado em contêiner de serviço de bordo e levado a uma terceira aeronave após autoridades considerarem crível uma ameaça do Irã
Por O Correio de Hoje
12/08/2026 | 13:38

O governo dos Estados Unidos montou uma operação de dissimulação para retirar secretamente o presidente Donald Trump da Turquia após a cúpula da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), realizada no país em julho. Segundo dois funcionários americanos, o plano foi adotado depois que autoridades consideraram crível uma ameaça iraniana contra o presidente e o Air Force One.

Trump foi retirado de uma das aeronaves presidenciais dentro de um contêiner de serviço de bordo e levado a um terceiro avião, no qual viajou secretamente até o Reino Unido. Repórteres e parte dos funcionários da Casa Branca seguiram em outra aeronave sem saber que o presidente não estava a bordo, atuando involuntariamente como iscas.

Homem de terno escuro e gravata vermelha fala diante de um microfone, com bandeiras ao fundo
Emergência aconteceu em julho durante a volta de Trump após uma visita à Turquia para negociar a paz - Foto: Reprodução / you tube

A operação foi organizada em poucas horas por um grupo restrito de autoridades. Entre os envolvidos estavam o chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas, general Dan Caine, e o secretário de Defesa, Pete Hegseth, de acordo com um funcionário que teve conhecimento do planejamento.

O episódio ocorreu em 8 de julho, quando Trump deixava a Turquia. O presidente e integrantes de seu governo haviam informado publicamente que ele viajaria em uma versão mais antiga do Air Force One, um Boeing 747 modificado, em vez da aeronave Boeing 747-8 doada pelo Catar na qual havia chegado ao país.

Diante dos jornalistas, Trump justificou a troca como uma decisão tomada “por causa dos velhos tempos”. O presidente foi filmado embarcando pela porta esquerda do modelo antigo, enquanto a equipe de imprensa entrou pela escada traseira. A encenação levou os veículos de comunicação a informar que ele seguia naquela aeronave para uma base aérea britânica.

A troca havia sido inicialmente associada às limitações defensivas do avião doado pelo Catar. O modelo mais recente ainda não contava com todos os sistemas de proteção instalados nos antigos aviões presidenciais. A ameaça, porém, não estava relacionada especificamente à aeronave catariana: Trump seria o alvo independentemente do modelo utilizado.

Depois de entrar no antigo Air Force One diante das câmeras, Trump foi retirado pelo lado oposto ao ocupado pelos jornalistas. Um contêiner utilizado no serviço de bordo foi içado até a aeronave e usado para esconder o presidente durante a transferência.

Trump foi então levado a um C-32A, versão militar do Boeing 757, segundo informação revelada anteriormente pelo “Washington Post”. Foi nessa terceira aeronave que o presidente viajou da Turquia ao Reino Unido.

Os jornalistas que haviam embarcado no Boeing 747 mais antigo não foram informados sobre a mudança. Parte dos integrantes da Casa Branca que os acompanhava também desconhecia o plano. O grupo acreditava que Trump ocupava outra área da mesma aeronave.

Durante o voo, os repórteres receberam a orientação de manter fechadas as persianas das janelas da cabine de imprensa. “Fomos orientados a manter fechadas as persianas das janelas da cabine de imprensa”, registrou o relatório produzido pela equipe responsável por acompanhar o presidente.

O antigo Air Force One pousou às 22h16 na base militar de Mildenhall, na Inglaterra. Antes que os jornalistas desembarcassem, Trump foi levado de carro do C-32A até o Boeing 747 usado como isca. Ele embarcou por uma entrada diferente e permaneceu no avião até a montagem da etapa seguinte da encenação.

Quarenta minutos após o pouso, o presidente desceu pela porta superior esquerda do Air Force One, como normalmente faria. Na sequência, caminhou pela pista até o avião doado pelo Catar, observado pelos jornalistas que acreditavam ter viajado com ele desde a Turquia.

Trump, assessores e repórteres embarcaram então no Boeing 747-8 para o voo de volta a Washington. A movimentação produziu a aparência de que o presidente havia viajado no modelo antigo até o Reino Unido apenas para trocar de aeronave.

A decisão ocorreu após anos de ameaças do Irã contra Trump e em meio à guerra iniciada pelos Estados Unidos contra o país persa em 28 de fevereiro. O presidente foi informado sobre o risco ainda durante sua permanência na Turquia. Autoridades americanas nunca haviam reconhecido publicamente que Trump esteve em um local diferente daquele informado oficialmente. Funcionários que descreveram o plano falaram sob condição de anonimato, sob a justificativa de tratar de questões de segurança.

O Departamento de Defesa e um porta-voz do general Caine encaminharam as perguntas à Casa Branca. O governo republicou uma declaração feita anteriormente pelo diretor de comunicação presidencial, Steven Cheung, mas suprimiu o trecho no qual ele mencionava o emprego de “distração e desinformação”.

Na manifestação original, Cheung havia indicado que métodos de dissimulação poderiam ter sido usados. “Como o presidente disse recentemente, existem muitos inimigos dos EUA que estão de olho nele, e usamos todas as ferramentas à nossa disposição, incluindo distração e desinformação, para lidar com essas ameaças”, declarou na semana da cúpula.

A operação criou uma situação incomum na cobertura da Presidência americana. Em geral, um grupo de jornalistas acompanha todos os deslocamentos do chefe de Estado ou permanece nas proximidades, ainda que informações sobre viagens a zonas de guerra sejam submetidas a embargos por razões de segurança.

O ex-presidente George W. Bush, por exemplo, manteve uma equipe reduzida de imprensa durante os deslocamentos realizados nas horas posteriores aos ataques de 11 de setembro de 2001. Presidentes americanos, incluindo Trump, também viajaram a áreas de conflito acompanhados por jornalistas. Donald Mihalek, ex-agente do Serviço Secreto que atuou nas equipes de proteção de Bush e Barack Obama, afirmou que a agência já recorreu a comboios e voos de despiste para transportar presidentes. Segundo ele, a segurança do mandatário se sobrepõe à transparência pública quando há risco de ataque.

“Sempre que o presidente está em um cenário onde existe potencial de perigo de combate, o Serviço Secreto emprega medidas de proteção, incluindo o uso de uma isca”, afirmou Mihalek. “A agência não é de relações públicas, é o Serviço Secreto. A principal função deles é manter o presidente seguro.”

Durante o voo de retorno aos Estados Unidos, Trump disse aos repórteres que a passagem pela base de Mildenhall tinha como objetivo permitir que militares americanos estacionados no Reino Unido vissem a aeronave doada pelo Catar.

Questionado sobre a ordem para manter as persianas fechadas no trajeto entre a Turquia e a Inglaterra, afirmou não ter conhecimento de uma ameaça específica. Ao mesmo tempo, disse estar constantemente sob risco de ações iranianas.

“Eu sou o número um na lista deles, antes de vocês”, declarou aos jornalistas. “Mas, se eu for, vocês vão também. Certo?”

A divulgação anterior de informações sobre as limitações defensivas do avião catariano e as preocupações de segurança na Turquia provocou reação de Trump. O presidente ficou irritado com vazamentos que contrariaram a versão pública apresentada pelo governo.

O Departamento de Justiça chegou a intimar repórteres envolvidos na cobertura e alguns de seus familiares para depor perante um grande júri. As intimações foram posteriormente retiradas, depois que um juiz federal repreendeu os promotores responsáveis pelo procedimento.

Segundo funcionários do governo, Trump permanece incomodado com a divulgação de informações internas que entram em conflito com suas declarações, sobretudo aquelas relacionadas à guerra contra o Irã. O episódio na Turquia expõe como as medidas de proteção presidencial podem incluir não apenas rotas e aeronaves alternativas, mas também versões públicas criadas para ocultar o paradeiro do chefe de Estado.