O número de pessoas que afirma desenvolver vínculos amorosos com inteligências artificiais tem aumentado e levantado discussões sobre os limites entre companhia, afeto e amor. Além dos chatbots criados especificamente para interações emocionais, modelos de linguagem usados no dia a dia também passaram a fazer parte desse tipo de relação.
Um exemplo é Akihiko Kondo, que, em 2018, realizou uma cerimônia de casamento com Hatsune Miku, uma cantora pop gerada por computador. Segundo ele, embora saiba que a personagem não é uma pessoa real, seus sentimentos por ela são reais. Atualmente, situações semelhantes envolvem também companheiros virtuais baseados em inteligência artificial.

Pesquisas recentes indicam que esses vínculos não são casos isolados. Um levantamento da Vantage Point Counselling, empresa de terapia sediada no Texas, ouviu 1.012 adultos nos Estados Unidos. Entre eles, 28% afirmaram já ter tido pelo menos um relacionamento amoroso com um robô de IA.
Outro relatório, baseado na atividade em dispositivos de mais de 3 mil crianças e adolescentes de 5 a 17 anos, mostrou que, aos 13 anos, conversas de natureza romântica ou sexual eram o assunto mais comum nas interações com IAs companheiras, aparecendo em 63% delas. No Reino Unido, uma pesquisa conduzida pela consultoria Male Allies com 1.000 meninos de 12 a 16 anos apontou que um em cada cinco está em um relacionamento com uma IA companheira ou conhece alguém que esteja.
A popularidade desses vínculos está relacionada, entre outros fatores, à maneira como os chatbots são desenvolvidos para conquistar a confiança dos usuários e simular intimidade emocional. As ferramentas podem responder de forma constante, demonstrar atenção e adaptar as conversas aos interesses de cada pessoa.
Para alguns usuários, esse tipo de interação proporciona companhia, conforto e pode ajudar a amenizar a solidão. O vínculo também pode ultrapassar a tela do computador ou do celular. Há pessoas que consideram suas IAs companheiras como cônjuges, realizam cerimônias e compram alianças, enquanto outras afirmam enxergá-las como parte da família.
Apesar disso, pesquisadores questionam se esse tipo de relação pode ser considerado amor. Uma das principais questões está na ausência de consciência e de sentimentos próprios por parte das inteligências artificiais. Nesse sentido, embora o usuário possa desenvolver sentimentos reais, a IA não necessariamente possui a capacidade de experimentar ou retribuir esse afeto.
A discussão, portanto, não envolve apenas saber se uma inteligência artificial é consciente, mas também que tipo de relacionamento ela oferece. Os chatbots são programados para manter a interação e podem demonstrar aprovação e interesse de maneira constante, sem apresentar necessidades próprias ou exigir reciprocidade.
A filósofa Simone de Beauvoir discutiu, em “O Segundo Sexo”, relações marcadas pela dedicação de uma pessoa aos interesses da outra. A partir dessa ideia, pesquisadores avaliam que os relacionamentos com IAs podem representar uma forma de devoção, já que o funcionamento do chatbot é direcionado aos interesses e às necessidades do usuário.
Nesse tipo de relação, a IA não precisa abrir mão de projetos ou interesses próprios porque não possui uma vida independente da interação. Os interesses que ela apresenta são construídos em torno da pessoa com quem conversa.
Por isso, embora o vínculo com uma inteligência artificial possa proporcionar conforto e satisfação, pesquisadores questionam o quanto ele se aproxima de uma relação amorosa baseada em reciprocidade. Para essa perspectiva, a IA pode oferecer atenção e devoção, mas não necessariamente o tipo de amor que envolve dois indivíduos com sentimentos, interesses e projetos próprios.