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Inteligência artificial

Inteligência artificial se torna parte da rotina dos brasileiros, mas ainda gera desconfiança

Maioria dos brasileiros utiliza a tecnologia, porém 59% dizem não confiar plenamente nas respostas
Por O Correio de Hoje
09/06/2026 | 13:19

A inteligência artificial deixou de ser uma tecnologia restrita a especialistas e passou a ocupar espaço cada vez maior na rotina dos brasileiros. Seja para estudar, trabalhar, organizar compromissos ou até monitorar a saúde, ferramentas baseadas em IA vêm sendo incorporadas ao cotidiano de milhões de pessoas. Ainda assim, a expansão do uso convive com dúvidas, receios e desconfiança sobre os impactos da tecnologia.

A estudante de Medicina Nathalia Sahione, de 20 anos, é um exemplo dessa transformação. Cursando o 7º período da graduação, ela utiliza recursos de inteligência artificial em diversas atividades acadêmicas e pessoais. A tecnologia auxilia na compreensão de conteúdos, na revisão de disciplinas e até em tarefas relacionadas à organização estudantil.

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IA é usada para organizar tarefas, estudar, monitorar a saúde e auxiliar decisões cotidianas - Foto: Magnific

Como integrante da atlética universitária, Nathalia também recorre às ferramentas para desenvolver artes gráficas e obter sugestões de conteúdo para redes sociais. Fora do ambiente acadêmico, a IA já foi utilizada pela estudante para calcular calorias de alimentos, elaborar um plano inicial de treinamento físico antes da contratação de um personal trainer e até analisar sintomas apresentados por sua cachorra quando o animal passou mal. Após consultar a ferramenta, decidiu procurar atendimento veterinário.

“A inteligência artificial me ajuda em praticamente tudo. Na faculdade, uso para resumir textos, treinar questões e entender cálculos. Na atlética, também já recorri à ferramenta para criar artes e conteúdos para as redes sociais. Quando a gente aprende a usar, a IA vira uma companheira. Não sou dependente, mas posso dizer que faz diferença”, afirma.

O relato acompanha uma tendência identificada por levantamento realizado pelo instituto Market Analysis. Segundo a pesquisa, 68% dos brasileiros utilizam ferramentas de inteligência artificial em alguma atividade cotidiana.

Entre os usuários da tecnologia, 56% consideram as plataformas acessíveis e fáceis de utilizar. Além disso, 52% acreditam que os recursos de IA contribuem para elevar a produtividade e tornar tarefas diárias mais eficientes.

Apesar da ampla adoção, a confiança ainda não acompanha o mesmo ritmo de crescimento. O estudo mostra que 59% dos brasileiros afirmam não confiar plenamente nas informações produzidas por sistemas de inteligência artificial.

A percepção sobre a aceitação social da tecnologia também permanece limitada. Apenas 40% dos entrevistados dizem enxergar receptividade ao uso dessas ferramentas em seus círculos sociais e profissionais.

Para Evelin Cardoso Gomes, professora da Universidade Federal do Pará e pesquisadora do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia IAmazônia, o avanço da inteligência artificial exige responsabilidade e critérios claros de utilização.

“A Inteligência Artificial veio para ampliar as capacidades humanas, não substituí-las. A discussão hoje já não é mais se iremos adotar IA, mas de que maneira isso será feito. E é justamente aí que está o ponto essencial: adotar essa tecnologia sem critério pode ser tão prejudicial quanto não adotá-la. Por isso, mais do que abraçar os benefícios que a IA oferece, precisamos garantir que esse uso aconteça de forma organizada, ética e, acima de tudo, responsável. Porque a tecnologia, por si só, não define seu impacto. Quem define somos nós, pela forma como escolhemos utilizá-la”, diz.

O estudante de Administração Fábio Augusto de Jesus, de 22 anos, também incorporou a inteligência artificial à rotina. Em sua casa, utiliza comandos de voz para controlar equipamentos eletrônicos, acionar iluminação, reproduzir músicas e ajustar a temperatura do ambiente.

A tecnologia também auxilia no planejamento de atividades desenvolvidas na igreja que frequenta, onde exerce a função de líder de adolescentes. Segundo ele, a IA se tornou uma ferramenta importante para organizar cronogramas e estruturar eventos.

Os dispositivos eletrônicos utilizados por Fábio contam com recursos avançados de automação. Seu fone de ouvido possui cancelamento ativo de ruído, comandos por voz e integração com assistentes virtuais. Já o relógio inteligente monitora atividades físicas, contabiliza passos, registra métricas de treinamento, recebe notificações e permite atender chamadas telefônicas.

Na área da saúde, o smartwatch desempenhou papel importante ao indicar possíveis alterações no padrão de sono do estudante. Com base nos relatórios gerados pelo equipamento, Fábio solicitou que uma ferramenta de inteligência artificial analisasse os dados. A partir das informações processadas, surgiu a suspeita de apneia do sono.

Diante do alerta, ele procurou atendimento médico especializado. Após consulta com um otorrinolaringologista e realização de exames, o diagnóstico foi confirmado.

Embora reconheça os benefícios da tecnologia, o estudante admite que sua relação com a IA já ultrapassou o simples uso cotidiano.

“Hoje, e isso me incomoda, digo que sou dependente. Já estou acostumado a dar comandos de voz, acabo entrando em uma zona de conforto e já não sou tão criativo”, fala.

Além da possibilidade de dependência tecnológica, a pesquisa identificou outras preocupações recorrentes entre os brasileiros. Dois em cada três entrevistados afirmam sentir algum grau de receio em relação ao uso da inteligência artificial.

As principais inquietações estão ligadas à proteção de dados pessoais, à disseminação de conteúdos falsos e ao potencial de substituição de trabalhadores por sistemas automatizados.

No ambiente profissional, o tema também desperta atenção. Entre os brasileiros empregados, 38% acreditam que podem perder espaço para a inteligência artificial no futuro.

O índice está próximo da média mundial, de 36%, mas abaixo dos percentuais observados em países como Peru, onde o temor atinge 64% dos trabalhadores, e Equador, com 60%.

A preocupação é mais frequente entre trabalhadores das classes D e E, grupo em que o percentual alcança 40%. O receio também aparece com maior intensidade entre pessoas com idade entre 35 e 54 anos, faixa que registra 41%, mesmo índice observado entre as mulheres entrevistadas.

Para o engenheiro Marc Chevallier, sócio de uma empresa especializada em agentes de inteligência artificial, o avanço da tecnologia não representa ameaça à sua atividade profissional. Pelo contrário, tornou-se um instrumento de trabalho indispensável.

Segundo ele, a IA já é utilizada diariamente para análise de contratos, notas fiscais e processos licitatórios.

“A inteligência artificial hoje é indispensável. Mas o que realmente transforma o mercado são os agentes: eles fazem apresentações, realizam compras, reservas e até respondem mensagens. Há alguns anos, isso parecia impensável”, afirma.

Os chamados agentes de IA representam uma evolução em relação aos sistemas tradicionais. Diferentemente dos modelos que apenas respondem perguntas ou produzem conteúdos sob demanda, essas ferramentas conseguem interpretar objetivos, definir etapas de execução e realizar tarefas de forma autônoma.

Entre as aplicações estão o gerenciamento de agendas, atendimento automatizado, execução de processos empresariais e outras atividades que exigem múltiplas etapas operacionais.

Apesar da popularização crescente da tecnologia, o Brasil ainda aparece abaixo da média mundial em indicadores relacionados à relação da população com a inteligência artificial.

O país alcançou 49,8 pontos no IA Index, levantamento que mede o nível de interação e percepção da sociedade sobre a tecnologia em uma escala de zero a cem pontos. O resultado coloca o Brasil na 30ª posição entre 44 países avaliados. Ainda assim, houve avanço de dois pontos em comparação ao levantamento realizado em 2025.

Para a Market Analysis, responsável pelo estudo, os resultados revelam uma postura equilibrada da população brasileira diante da inteligência artificial. Segundo o instituto, os brasileiros reconhecem as vantagens oferecidas pela tecnologia e já incorporam esses recursos ao cotidiano, mas mantêm uma visão crítica sobre possíveis riscos e impactos futuros.

Na avaliação da instituição, essa combinação entre adoção crescente e cautela representa um dado relevante para empresas, formuladores de políticas públicas e para a sociedade, especialmente em um momento em que a inteligência artificial passa a influenciar cada vez mais atividades profissionais, educacionais e pessoais.