Há momentos em que a política precisa baixar o tom, suspender o discurso fácil e vestir jaleco. Em 2018, quando estive à frente do projeto Governo Cidadão — programa de investimentos financiado pelo Banco Mundial —, solicitei à instituição um diagnóstico fiscal rigorosamente técnico e um plano de recuperação financeira para o Rio Grande do Norte, livre de filtros políticos e de conveniências circunstanciais.
O Banco aceitou a proposta e designou três economistas reconhecidos para liderar o trabalho: Rafael Ornelas, Vivian Amorim e Rafael Muñoz — este último com experiência na recuperação econômica da Espanha após a crise de 2008. O estudo produzido foi profundo, preciso e, em alguns pontos, desconfortável. A equipe mergulhou nos microdados da folha de pessoal, da previdência, dos gastos correntes, da capacidade arrecadatória e dos setores geradores de receita. O diagnóstico revelou os fatores que empurraram o Estado para o desequilíbrio: crescimento vegetativo de despesas obrigatórias, engessamentos legais, incentivos mal calibrados e um modelo de governança que, sob estresse fiscal, compromete a própria capacidade de governar.

O trabalho apresentou três cenários para recolocar o Estado nos trilhos. O primeiro, de curto prazo, previa medidas duras e impopulares: cortes, restrições, suspensão de progressões automáticas na folha, revisão de regras e reconfiguração de ativos. O segundo, com efeitos em três anos, combinava ajustes relevantes com maior gradualismo. O terceiro, de longo prazo, acima de quatro anos, apostava em medidas mitigatórias e numa transição mais lenta, evitando choques bruscos.
Além de números, o relatório expunha escolhas. Indicava onde havia gordura e onde só restava osso. Sugeriu pactos institucionais e alertou para o custo elevado de adiar decisões. Em termos simples: sem corrigir regras estruturais, o Rio Grande do Norte seguiria a caminho do abismo, ano após ano, com serviços públicos precários e sem recuperar a capacidade de investir.
No final de 2018, na transição de governo, promovemos uma reunião para apresentar o estudo à então governadora eleita, Fátima Bezerra, com a presença do diretor do Banco, Martin Raiser. Tínhamos uma janela de oportunidade: início de mandato, capital político e espaço institucional para decisões estruturantes.
Infelizmente, isso não aconteceu. O plano não foi aproveitado e as medidas propostas ficaram no papel. Fica um alerta aos próximos governantes: esse plano existe, ainda pode ser aplicado e é fundamental que o seja. Com apoio e consenso entre poderes e sociedade, o Rio Grande do Norte pode retomar seu equilíbrio, recuperar investimento e voltar a planejar o futuro sem viver sob recorrentes apagões financeiros.