O Rio Grande do Norte é um paradoxo conhecido, mas pouco enfrentado: um território rico, com uma população ainda majoritariamente pobre. Não faltam exemplos de abundância. Temos petróleo, sal, ventos constantes que movem parques eólicos, sol em escala privilegiada para energia fotovoltaica, projetos de hidrogênio verde em expansão e até mineração com potencial relevante, como uma grande reserva de… ooouro! Em tese, um portfólio invejável de oportunidades. Na prática, uma economia que ainda não consegue transformar essa riqueza em prosperidade distribuída.
O problema não está na ausência de atividades econômicas robustas — elas existem e faturam alto. O ponto central é outro: essas cadeias produtivas, em sua maioria, operam quase como enclaves. Produzem riqueza aqui, mas com baixo nível de integração com a economia local. Importam tecnologia, capital, fornecedores e, muitas vezes, a própria mão de obra qualificada. O resultado é um ciclo em que assistimos ao crescimento sem, de fato, participar dele.

É confortável atribuir isso a uma suposta limitação estrutural: “não estamos preparados”. De fato, são setores intensivos em capital e tecnologia, exigentes em qualificação. Mas essa explicação, isoladamente, é insuficiente — e, em certa medida, conformista. Afinal, se hoje não estamos preparados, por que não estamos? E, mais importante, o que temos feito para mudar esse quadro?
A presença de profissionais de fora ocupando funções técnicas e estratégicas deveria servir menos como crítica e mais como alerta. São vagas que poderiam, progressivamente, ser preenchidas por potiguares — desde que haja uma estratégia deliberada para isso. Não se trata de um processo espontâneo. Exige planejamento, coordenação e visão de longo prazo.
Universidades, institutos federais, sistema S, empresas e governos precisam atuar de forma integrada, com foco claro: formar pessoas para as vocações reais do estado. Não apenas em cursos genéricos, mas em trilhas formativas diretamente conectadas às demandas dessas indústrias. Isso inclui capacitação técnica, formação superior, especializações e programas de inserção prática no mercado.
Ao mesmo tempo, é necessário desenvolver fornecedores locais, estimular pequenos e médios negócios a integrarem essas cadeias e criar ambientes favoráveis à inovação. Não basta gerar energia ou extrair recursos — é preciso capturar valor ao longo de todo o processo.
O Rio Grande do Norte não é pobre. Pobre é a forma como ainda lidamos — ou deixamos de lidar — com a riqueza que produzimos. Mudar isso não é simples, mas é plenamente possível. E começa com uma decisão estratégica: deixar de ser plateia para assumir, de fato, o protagonismo do nosso próprio desenvolvimento.
Vagner Araujo (@fvagner) é secretário do Planejamento de Natal