Há um movimento silencioso, recorrente e profundamente prejudicial nas finanças públicas brasileiras: cortar investimento para fechar a conta do custeio. Parece solução responsável no curto prazo. Na prática, é o caminho mais rápido para empobrecer o município no médio e longo prazo.
Quando a arrecadação aperta — e ela sempre aperta — a reação automática de muitos gestores é preservar a máquina funcionando: folha, contratos continuados, despesas administrativas. O investimento, por não ser obrigatório e ter execução mais flexível, vira a variável de ajuste. É aí que começa o problema.

Investimento não é gasto. Investimento é o que amplia a capacidade do município de gerar desenvolvimento, melhorar serviços e, sobretudo, aumentar sua própria arrecadação futura. Uma obra de drenagem reduz custos com manutenção e saúde. Um projeto de mobilidade melhora a produtividade urbana. Um investimento em tecnologia diminui desperdícios. Cortar isso é como desligar o motor para economizar combustível.
O custeio, por outro lado, tende a crescer de forma inercial. Ele se expande com reajustes, novas contratações, contratos pouco eficientes e, muitas vezes, pela simples falta de revisão crítica. Quando o gestor opta por proteger o custeio e sacrificar o investimento, ele está, na prática, financiando o presente às custas do futuro.
Esse erro se agrava porque o efeito não é imediato. No primeiro ano, tudo parece sob controle. No segundo, começam a aparecer gargalos. No terceiro, a cidade perde capacidade de resposta. E, quando se percebe, o município está mais caro, menos eficiente e com menos capacidade de investir.
Há ainda um efeito político relevante: obras e melhorias estruturantes geram percepção clara de avanço.
Já o custeio, embora essencial, é invisível para a população. Ou seja, ao cortar investimento, o gestor perde capacidade de transformar a realidade e também de comunicar resultados.
O caminho responsável não é simples, mas é claro: revisar o custeio com rigor, buscar eficiência, eliminar desperdícios e priorizar investimentos estratégicos. Isso exige planejamento, disciplina fiscal e, sobretudo, coragem para enfrentar a inércia administrativa.
Gestão pública não é apenas pagar contas. É construir futuro. E futuro não se constrói cortando investimento para manter a máquina girando — se constrói fazendo a máquina servir ao desenvolvimento.
Vagner Araujo (@fvagner) é
secretário do Planejamento de Natal