Entre 2019 e o início de 2026, os parlamentares federais destinaram R$ 2,68 bilhões em emendas ao Orçamento da União para o Rio Grande do Norte. O volume cresceu mais de seis vezes no período: de R$ 152 milhões em 2019 para R$ 938 milhões em 2025. Somente nos dois últimos exercícios concentram-se R$ 1,52 bilhão, mais da metade de tudo que foi empenhado em oito anos. Dinheiro não faltou. Faltou, talvez, planejamento e visão desenvolvimentista.
Natal aparece no topo do ranking com R$ 673 milhões, mas esse número engana. Por ser a capital, a cidade concentra os repasses ao Governo do Estado, ao Fundo Estadual de Saúde, à Codern e a fundações de ensino e pesquisa — recursos que não são, de fato, para o município. Dos R$ 673 milhões registrados em Natal, pelo menos R$ 257 milhões, por exemplo, foram para entes estaduais e institucionais.

O dado mais revelador, porém, está nas emendas de bancada. Criadas para financiar projetos de interesse coletivo do estado — eixos rodoviários, saneamento regional, hospitais de referência, ferrovias, portos, aeroportos — elas somaram R$ 737 milhões. Em tese, seria o instrumento para o Rio Grande do Norte pensar grande. Na prática, foram pulverizadas: 69% das emendas de bancada tiveram valor de até R$ 500 mil, totalizando apenas R$ 109 milhões em 701 repasses miúdos. O valor médio por emenda de bancada — R$ 730 mil — é pouco mais que o dobro de uma emenda individual (R$ 280 mil). Apenas 18 emendas superaram R$ 5 milhões. O maior favorecido da bancada? Fundos Municipais de Saúde, com R$ 249 milhões — custeio, não investimento estruturante.
O que os números sugerem é que as emendas coletivas foram, na prática, convertidas em individuais disfarçadas. Os parlamentares repartem o bolo entre si e destinam fatias a suas bases, reproduzindo a mesma lógica das emendas individuais. Enquanto isso, o estado segue sem uma ferrovia que conecte o interior ao porto, sem saneamento universal nas cidades e regiões, sem hospitais regionais que evitem a peregrinação até Natal.
Emendas parlamentares são instrumento legítimo. Mas quando R$ 737 milhões de recursos coletivos viram milhares de pequenos repasses sem visão de conjunto, o Rio Grande do Norte perde a chance de dar saltos. O dinheiro chegou. A transformação, não.