Em toda eleição, o voto nasce de uma combinação delicada entre dois vetores: razão e emoção. O eleitor decide com a cabeça, mas também com o coração. Avalia propostas, histórico e viabilidade, mas também se deixa influenciar por empatia, identidade, esperança ou indignação. É da natureza humana – e, portanto, da política.
Não por acaso, as campanhas eleitorais são estruturadas sobre esses dois pilares. Há uma fase mais racional, em que se apresentam diagnósticos, programas de governo, metas e compromissos. E há outra, mais próxima da eleição, em que a emoção ganha centralidade: jingles, símbolos, narrativas, confrontos e mobilização. Quanto mais o calendário avança, menos espaço existe para o debate técnico e mais força têm os apelos sentimentais.

É precisamente por isso que o momento atual — o das pré-campanhas para as eleições estaduais e federais — deveria ser tratado como a janela nobre da razão. É agora que candidatos e eleitores têm a oportunidade de sentar à mesa, ainda sem a pressão do cronômetro eleitoral – antes do ‘oba oba’ das campanhas -, para discutir ideias, problemas estruturais e soluções viáveis para o Rio Grande do Norte.
Infelizmente, não é o que temos visto. A pré-campanha potiguar tem se comportado como se já estivéssemos na reta final. O tom é de disputa acirrada, as declarações são inflamadas, as agendas são performáticas. Parece que a eleição acontece amanhã. Calma. Ainda há tempo — e deveria haver disposição — para qualificar o debate.
E qualificar o debate não significa promover eventos que se anunciam como fóruns de discussão, mas que, na prática, são monólogos – discursos com frases de efeito ’mais do mesmo’. É preciso abrir canais reais de escuta. Por exemplo, por que não utilizar ferramentas digitais para consultas públicas estruturadas? Por que não convidar a população a apresentar suas três principais demandas e, mais importante, suas ideias para enfrentá-las? Democracia é via de mão dupla.
O Rio Grande do Norte enfrenta desafios fiscais, sociais e estruturais complexos. Superá-los exige mais do que carisma ou indignação. Exige planejamento, responsabilidade e capacidade de execução. Isso passa, inevitavelmente, por valorizar o lado racional do voto.
Cabe aos partidos e candidatos apresentar planos e propostas consistentes. Mas cabe ao eleitor “ler a bula” dos postulantes: questionar, comparar, testar a coerência entre discurso e prática. Democracia não se constrói apenas na emoção do comício, mas na serenidade da análise. Ainda estamos no tempo da razão. Que não o desperdicemos