Depois de dias de expectativa, entrou em vigor na noite de terça-feira 7 um cessar-fogo no confronto envolvendo Estados Unidos e Israel contra o Irã. Ao menos essa foi a avaliação de Donald Trump, que tinha plena consciência dos riscos implicados na iniciativa.
No plano internacional, pesava a pressão provocada pela alta nos preços de energia, resultado do fechamento do estreito de Hormuz pela teocracia islâmica, rota responsável por um quinto do petróleo e do gás natural liquefeito global. Internamente, havia o receio do desgaste político entre os americanos, que irão às urnas em novembro para renovar o Congresso, atualmente sob controle de Trump na Câmara e no Senado, com riscos que incluem até a abertura de um processo de impeachment.

Embora um conflito contra um regime considerado aberrante pudesse encontrar justificativa em outros momentos, esse não parecia ser o caso, já que os aiatolás enfrentavam protestos internos e demonstravam sinais de enfraquecimento.
Sem uma justificativa consistente, Trump passou a alternar argumentos, ora mencionando o programa nuclear iraniano, ora defendendo uma mudança de regime, ora apontando a situação em Hormuz.
Focado na reabertura do estreito, em 21 de março lançou um ultimato, ameaçando destruir usinas de energia do adversário caso não houvesse acordo para restabelecer o fluxo marítimo. O prazo foi adiado em quatro ocasiões.
Na terça 7, a situação parecia resolvida. O presidente republicano, possivelmente influenciado pelo resgate de dois pilotos abatidos sobre o Irã no fim de semana, adotou um tom dramático em sua ameaça.
“Uma civilização inteira irá morrer nesta noite”, escreveu em uma rede social. Embora crimes de guerra sejam recorrentes em cenários de conflito e sua punição dependa do lado vencedor, a declaração sugeriu genocídio, o que levou a críticas inclusive de aliados.
Após horas de negociações classificadas como intensas, foi anunciada uma trégua com duração de duas semanas.
A reação inicial dos mercados globais foi de alívio, mas breve. Já na quarta-feira 8, Israel realizou o ataque mais devastador da campanha atual contra o Hezbollah libanês, aliado do Irã, afirmando com apoio dos EUA que o grupo não integra o acordo de cessar-fogo.
O Irã voltou a lançar mísseis pelo golfo Pérsico, ampliando a tensão em Hormuz, enquanto veículos de comunicação de Teerã mencionavam o bloqueio de navios. A Casa Branca afirmou tratar-se de propaganda e informou que as negociações terão início no sábado 11, no Paquistão.
Há ainda outro elemento de instabilidade na já frágil trégua. As partes envolvidas não concordam com os termos divulgados como base para as negociações, apresentados pelo Irã. Para o regime iraniano, a capacidade de enriquecer urânio deve ser preservada; Trump, por sua vez, pretende impedir essa possibilidade.
Diante desse quadro, resta apenas a certeza de que, mesmo que resista à primeira noite, o cessar-fogo ainda enfrentará múltiplos testes até demonstrar eficácia. Nesse contexto, o cenário mais favorável seria a adoção de algum nível de contenção por parte de Israel e do Irã.