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Opinião

Deficiências invisíveis travam aprendizado

Estudo aponta que 2,7 milhões de estudantes enfrentam limitações não percebidas e que afetam a aprendizagem
Por O Correio de Hoje
13/04/2026 | 16:21

As matrículas no ensino fundamental já alcançam praticamente todo o universo de jovens entre 6 e 14 anos. De acordo com o Censo Escolar de 2025, do Ministério da Educação, 99,5% da população com idade escolar está matriculada. Diante desse cenário, o desafio agora passa a ser outro, concentrar esforços no atendimento de estudantes que enfrentam dificuldades específicas, muitas vezes não identificadas. Entre eles estão os que possuem as chamadas “deficiências invisíveis”, expressão utilizada pelos pesquisadores Guilherme Lichand e Elizabeth Kozleski, da Universidade Stanford.

Segundo os estudos, 10% dos alunos brasileiros nos primeiros anos escolares lidam com limitações que não são percebidas pelos professores, como problemas de visão ou audição. Esse contingente soma 2,7 milhões de crianças e adolescentes. Lichand aponta ainda que ao menos um terço dos estudantes do 9º ano apresenta aprendizagem estagnada entre o 1º e o 3º anos, consequência de restrições físicas não tratadas.

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Os dados do Censo Escolar indicam 2,4 milhões de alunos com algum tipo de deficiência, número 153% superior ao registrado em 2016. Dentro desse grupo, 43% têm deficiência intelectual e 52% estão no espectro autista. Em contraste, apenas 91 mil estudantes foram identificados com baixa visão e 41 mil com deficiência auditiva. Para os pesquisadores, esses números revelam subnotificação significativa de dificuldades relacionadas à escuta e à leitura em sala de aula.

Após identificarem a presença expressiva dessas limitações não visíveis, os pesquisadores examinaram um programa de recuperação de aprendizagem da rede estadual de São Paulo, do qual Lichand participou da formulação. Os resultados do Saresp mostram uma divisão em três grupos semelhantes, um terço com desempenho adequado ou avançado, outro com defasagem de uma ou duas séries e um último com dificuldades graves. Mesmo com medidas pedagógicas adotadas, apenas parte dos alunos apresentou melhora. A análise revelou que 40% dos estudantes dessas turmas de recuperação possuíam algum tipo de deficiência, proporção quatro vezes maior do que a observada no conjunto da rede.

A pesquisa foi conduzida pela Escola de Educação de Stanford, por meio do Instituto Equidade.info, com base em uma amostra de 250 escolas brasileiras representativas do ensino básico. Entre as conclusões, destaca-se a necessidade de que redes estaduais e municipais aprofundem a investigação sobre as causas da evasão escolar. “Estudantes que não recebem apoio para suas necessidades específicas podem se sentir desmotivados e desengajados, levando ao abandono precoce da escola”, afirma Lichand. Ele ressalta que, mesmo com práticas pedagógicas adequadas e professores especializados, a falta de identificação dessas deficiências e o não encaminhamento para serviços de saúde comprometem o avanço dos alunos. “As escolas podem adotar todas as medidas pedagógicas adequadas para as crianças e garantir professores especializados, mas, se ninguém perceber as deficiências invisíveis e encaminhá-los aos serviços de saúde para garantirem óculos e aparelhos auditivos, os alunos continuarão a ficar para trás.” A recomendação é clara, é preciso ampliar a atenção a essas dificuldades, sobretudo porque nem sempre o aluno manifesta suas limitações.