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Opinião

Quem responde por 47 mil vidas na fila

46.930 pessoas aguardam por uma cirurgia no Rio Grande do Norte
Por O Correio de Hoje
17/04/2026 | 17:17

Quase 47 mil pessoas aguardam por uma cirurgia no Rio Grande do Norte. São 46.930 vidas paradas, com diagnóstico conhecido e tratamento adiado, empurradas para uma fila sem prazo, sem previsibilidade e, sobretudo, sem prioridade real. Não é um número. É um retrato cru da falência de um sistema que há anos promete reorganização e entrega estagnação.

É verdade que a fila é histórica. Mas é justamente por ser histórica que ela se torna imperdoável. Não se trata de um problema inesperado, de uma crise súbita ou de um evento extraordinário. Trata-se de um gargalo conhecido, mensurado, debatido e — ainda assim — não enfrentado com a seriedade que exige. O que se vê hoje é o resultado de sucessivas gestões que toleraram o problema até que ele atingisse um patamar obsceno.

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O governo da professora Fátima Bezerra (PT) teve tempo, dados e estrutura para agir. Fez cirurgias? Sim. Foram 135 mil procedimentos realizados, sendo 7.893 apenas em março de 2026. Mas esses números, longe de absolver a gestão, expõem sua fragilidade: produz, mas não resolve. A fila permanece gigantesca porque nunca houve um plano capaz de inverter a lógica do sistema. Ampliou-se a oferta sem reorganizar o fluxo. Reagiu-se à demanda sem jamais controlá-la.

E quando se trata de execução, a responsabilidade tem nome. O secretário estadual de Saúde, Alexandre Motta, não apresentou, até aqui, qualquer estratégia consistente para enfrentar esse colapso. Não há metas públicas. Não há cronograma de redução da fila. Não há transparência sobre prioridades. O que existe é um sistema que continua operando no limite, sem direção clara. Diante de quase 47 mil pessoas aguardando cirurgia, isso não é apenas ineficiência. É inaceitável.

Mais grave ainda é a ausência de prazo. O próprio Estado admite que não consegue estimar quando os pacientes serão atendidos. Isso significa, na prática, que a fila não é gerida — é apenas acumulada. Em qualquer área da administração, isso já seria inadmissível. Na saúde, é cruel.

E há uma pergunta que insiste em surgir, ainda que ninguém a responda publicamente: essa fila existiria nesses termos se fosse composta por familiares de autoridades? Se entre esses quase 47 mil pacientes estivessem, em maioria, parentes de juízes, desembargadores, promotores, auditores fiscais, médicos, deputados, senadores ou do próprio governador, o sistema funcionaria da mesma forma? A resposta é desconfortável, mas evidente. E é justamente esse silêncio que aprofunda a sensação de abandono.

A fila cirúrgica expõe mais do que falhas administrativas. Ela escancara uma hierarquia implícita de quem espera e de quem não espera. E isso, para um sistema que se pretende universal, é inaceitável.

Diante desse cenário, o silêncio dos pré-candidatos ao Governo do Estado é igualmente preocupante. Todos percorrem o interior, discursam sobre desenvolvimento e projetam o futuro. Mas nenhum pode ignorar o presente. O que têm a dizer sobre 47 mil famílias à espera? Qual é o plano concreto? Em quanto tempo essa fila será reduzida? Como será financiada essa solução? Sem respostas objetivas, qualquer discurso é vazio.

O Rio Grande do Norte não enfrenta apenas uma fila de cirurgias. Enfrenta um sistema que normalizou o atraso, institucionalizou a espera e transformou a urgência em rotina. E enquanto os responsáveis continuarem tratando esse quadro como mais um dado administrativo, e não como uma crise humana de grandes proporções, o Estado seguirá falhando no que deveria ser sua função mais elementar: garantir atendimento a quem precisa, no tempo certo.

A fila está posta. Os números são conhecidos. A omissão, também.

Trabalho, virtude e inversão de prioridades

Em meio ao calendário eleitoral, o governo federal mobiliza o Congresso Nacional em torno de um projeto de lei que pretende extinguir a escala de trabalho 6×1. A iniciativa, tratada como prioridade, é sustentada pela justificativa de que a sociedade brasileira demanda melhores condições de qualidade de vida.

Antes mesmo de avançar sobre o mérito do debate, impõe-se uma crítica direta. É desproporcional que o tema seja colocado no topo da agenda política. Há questões muito mais urgentes que permanecem sem o mesmo grau de mobilização. A segurança pública é uma delas. O Brasil, sob influência crescente de facções criminosas, figura entre os países com maior nível de criminalidade do planeta, ocupando a 14ª posição no Índice Global de Crime Organizado 2025, que abrange 193 nações.

Outro ponto que deveria concentrar esforços é a educação. Dados do Indicador de Alfabetismo Funcional revelam que 30% da população entre 15 e 64 anos se enquadra como analfabeta funcional. Trata-se de um entrave estrutural que compromete produtividade, autonomia e desenvolvimento.

Também exige centralidade o debate sobre os supersalários no serviço público. Informações do Conselho Nacional de Justiça mostram que magistrados recebem, em média, R$ 95 mil brutos mensais, com 98% deles ultrapassando o teto constitucional ao menos uma vez. Em um país cujo salário mínimo é de R$ 1,6 mil, esse contraste evidencia distorções profundas.

A elevada taxa de juros, reflexo de um Estado que gasta além de sua capacidade, igualmente deveria ocupar espaço prioritário. Ainda assim, esses temas acabam deslocados por uma pauta que não dialoga com a urgência real da população.

Há, portanto, não apenas uma falha de prioridades, mas também um problema mais profundo. Ao propor o fim da escala 6×1, a classe política sugere uma visão distorcida do trabalho, como se fosse um fardo a ser reduzido, e não um valor a ser cultivado.

O trabalho é expressão concreta da dignidade humana. Representa domínio sobre a realidade, construção de identidade, cooperação social e sustento familiar. É também instrumento de progresso coletivo. A vocação para o trabalho acompanha o homem em sua busca por realização, não apenas individual, mas também comunitária.

Em sentido oposto, a ausência de laboriosidade conduz à estagnação. Ao longo dos últimos 10 mil anos, todos os avanços civilizatórios ocorreram a partir do esforço humano organizado. Da transição do modelo de caça e coleta à complexidade tecnológica atual, o trabalho foi elemento central.

O progresso científico ilustra essa trajetória. Entre os séculos 16 e início do 19, a expectativa de vida na Europa variava entre 30 e 40 anos. Hoje, ultrapassa os 81 anos. Esse salto resulta diretamente do empenho contínuo em diferentes áreas do conhecimento.

Apesar disso, o discurso político contemporâneo aponta em outra direção. Sugere que a melhoria da qualidade de vida estaria associada à redução da dedicação ao trabalho. Trata-se de uma interpretação equivocada.

Essa proposta colide ainda com um problema concreto. A produtividade da mão de obra brasileira já é baixa, em grande parte devido ao elevado índice de analfabetismo funcional. Enquanto o mundo avança em áreas como inteligência artificial e computação quântica, o Brasil ainda enfrenta limitações básicas de formação.

Estudos da Fundação Getulio Vargas indicam que o fim da escala 6×1 poderia provocar uma retração de até 7,4% no Produto Interno Bruto. Além disso, os custos operacionais das empresas poderiam crescer até 15%, com impacto mais intenso no setor de varejo, pressionado por novas contratações e pagamento de horas extras.

Outro efeito projetado é o aumento de até 22% no custo da hora trabalhada, com reflexos diretos sobre a inflação e risco de ampliação da informalidade.

Diante desse cenário, a forma como o trabalho é encarado torna-se central. Não como punição, mas como valor estruturante da sociedade. Enquanto isso, no ambiente político, prevalece uma lógica distante da realidade, onde a ideia de reduzir esforço ganha mais espaço do que a de enfrentar desafios estruturais.

A distância entre discurso e realidade revela não apenas um desalinhamento de prioridades, mas também uma compreensão limitada sobre o papel do trabalho no desenvolvimento humano e social.