A preocupação de Leão XIV com os efeitos da tecnologia sobre a vida em sociedade se inscreve numa tradição antiga da Igreja. Sua primeira encíclica, Magnifica Humanitas (Magnífica Humanidade), publicada ontem, assume de forma explícita a inspiração de Rerum Novarum (Sobre as coisas novas), texto em que Leão XIII, referência também para o nome adotado pelo americano Robert Francis Prevost, examinou as consequências da Revolução Industrial. Naquele documento, o avanço científico era reconhecido, mas vinha acompanhado de um apelo à proteção dos trabalhadores e das pessoas atingidas pelas mudanças. É com espírito semelhante que Leão XIV se volta agora para a principal transformação tecnológica do nosso tempo, a inteligência artificial.
A formação matemática de Prevost dá ao novo papa uma condição incomum para lidar com o tema. Trata-se de um pontífice capaz de compreender, com base científica, a lógica do mundo digital. Desde os primeiros momentos de seu papado, ele já havia indicado que dedicaria atenção aos riscos associados às novas tecnologias e fez várias manifestações públicas sobre IA. A escolha de apresentar a encíclica ao lado de Christopher Olah, um dos fundadores da Anthropic, reforçou esse sinal. A empresa, responsável pelo modelo Claude, tem buscado treinar seus sistemas a partir de preocupações com a “moralidade” das decisões algorítmicas e chegou a enfrentar o Pentágono ao recusar o uso de sua tecnologia em armas autônomas.

Magnifica Humanitas se apoia em princípios marcados por equilíbrio e bom senso. Leão XIV não trata a tecnologia como uma “força antagônica” ao ser humano e reconhece que seu uso pode trazer inúmeros benefícios. Sua advertência vai em outra direção. O risco está em permitir que a técnica deixe de servir à pessoa e passe a comandá-la. “Não significa renunciar à tecnologia, mas impedir que ela domine o ser humano”, afirma. “Significa retirá-la dos monopólios, torná-la discutível, contestável e, portanto, habitável, devolvendo-a à pluralidade das culturas humanas e das formas de vida.”
A encíclica também defende a regulação das grandes empresas digitais responsáveis pelo desenvolvimento da IA e a preparação dos trabalhadores que poderão ter seus empregos ameaçados. “É desejável que a tecnologia alivie o homem de trabalhos particularmente pesados, repetitivos ou perigosos e ofereça um apoio inteligente à atividade humana; porém o princípio geral deve continuar a ser a proteção dos postos de trabalho e do papel insubstituível da pessoa”, escreve Leão XIV. Em seguida, reforça que “A ordem econômica deve manter-se subordinada à sua dignidade e ao bem comum.”
Outro ponto central do documento é a proteção de crianças e adolescentes. Para o papa, a educação será decisiva para que as novas ferramentas sejam utilizadas de modo responsável. “Educar para o uso da IA implica educar para decidir quando e em que situações não a utilizar”, sustenta. A preocupação se torna ainda mais severa quando ele trata do uso militar da tecnologia. Leão XIV rejeita que máquinas possam tomar decisões autônomas no “âmbito bélico” e afirma que “A decisão de recorrer à força letal não pode ser delegada em processos pouco transparentes ou automatizados, mas deve permanecer sob um controle humano efetivo, consciente e responsável”.
A parte final da encíclica assume tom de exortação ética. Leão XIV reconhece que “A inovação tecnológica pode ser, em certo sentido, uma forma humana de participar no ato divino da criação”, mas atribui aos programadores uma responsabilidade especial. “Programadores assumem um particular peso ético e espiritual (…). Tal como o autor de uma obra artística ou literária é responsável por ponderar os valores que ela expressa, também eles são chamados a tratar com a devida seriedade os valores que infundem.”
O alerta de Leão XIV ultrapassa as fronteiras religiosas. Sua mensagem não se dirige apenas aos católicos, mas a todos os que compreendem que a inteligência artificial não pode ser tratada como força neutra, entregue apenas ao mercado, aos monopólios ou aos interesses militares. A tecnologia pode ampliar capacidades humanas, reduzir sofrimentos e abrir caminhos de progresso. Para isso, porém, precisa permanecer submetida à dignidade da pessoa, ao trabalho, à educação, à responsabilidade ética e ao bem comum.