Diferentemente de outros ciclos eleitorais no Rio Grande do Norte, quando os quadros de disputa só ganharam forma às vésperas das convenções partidárias, o calendário político de 2026 começa com um traço incomum: ainda em janeiro, os principais nomes da sucessão estadual já estão, na prática, colocados no tabuleiro. É uma antecipação que surpreende, mas que também impõe responsabilidades adicionais aos atores envolvidos.
O mais recente movimento foi feito pelo senador Rogério Marinho (PL), que retirou sua pré-candidatura a governador alegando ter recebido do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) um pedido – que ele leu como uma “convocação” – para coordenar a campanha presidencial de Flávio Bolsonaro (PL). Com isso, ficou definido que o candidato do bolsonarismo será o ex-prefeito de Natal Álvaro Dias (Republicanos).

Pelo centro, o conglomerado de partidos liderado pelo União Brasil deve confirmar nos próximos dias a candidatura do prefeito de Mossoró, Allyson Bezerra. E o PT tem reafirmado que seu candidato será o secretário de Fazenda, Cadu Xavier. Ou seja, o quadro, ao menos para a eleição regular de outubro, está praticamente formado, restando pouco mais do que a formalização nas convenções.
Paradoxalmente, enquanto a eleição principal parece encaminhada, uma disputa potencialmente anterior — a de um eventual governador tampão — permanece envolta em incertezas. Tudo depende, em última instância, da confirmação da renúncia da governadora Fátima Bezerra para disputar o Senado, hipótese que, pelas declarações recentes do próprio PT, deixou o campo das especulações vagas e passou a ser tratada como possibilidade real. Caso isso se concretize, o foco se desloca para a Assembleia Legislativa e para a complexa engenharia política que definiria quem assumiria o mandato provisório.
Nesse cenário, a oposição não demonstra entusiasmo com a ideia de ocupar um cargo tampão.
Estrategicamente, prefere crescer criticando o governo que aí está, acumulando discurso e capital político para a eleição regular. Do ponto de vista do governo, por outro lado, seria natural buscar eleger o sucessor temporário. O problema é que as bases na Assembleia não se mostram sólidas o suficiente para garantir esse desfecho, tornando o quadro indefinido e sujeito a arranjos de última hora.
Há, contudo, um aspecto positivo nessa antecipação do calendário: os holofotes já estão acesos, de forma permanente, sobre os pré-candidatos. A disputa deixou de ser apenas um exercício de bastidores e passou a exigir exposição pública, posicionamento e, sobretudo, conteúdo. Seria de bom tom, e politicamente maduro, que todos os que se colocam no páreo aproveitassem esse momento para discutir, de maneira objetiva, as bases de um novo Rio Grande do Norte.
A renúncia anunciada do vice-governador, combinada com os dados fiscais recentemente trazidos a público, escancarou uma situação preocupante. O Estado enfrenta um quadro que, nas palavras usadas por diferentes atores do próprio campo político, assemelha-se ao de um paciente em UTI: finanças pressionadas, capacidade de investimento reduzida e desafios estruturais acumulados ao longo de décadas. Esse diagnóstico, por si só, deveria deslocar o debate para além da retórica eleitoral.
O que se espera, portanto, é maturidade política. Não basta criticar o passado recente ou prometer soluções genéricas para problemas complexos. O Rio Grande do Norte precisa de lideranças capazes de fazer a leitura correta de suas fragilidades, de apresentar diagnósticos sensatos e de defender, em campanha e em praça pública, propostas viáveis — comprometendo-se a executá-las caso vençam.
Em plena era da inteligência artificial, da economia globalizada, da informação em tempo real e das tecnologias aplicadas à gestão pública, é inconcebível que o Estado siga administrado com ferramentas e visões do passado. Há potencialidades econômicas evidentes — do turismo à energia, da logística à economia do conhecimento — que seguem subaproveitadas por falta de planejamento, visão estratégica e capacidade de execução.
A antecipação do tabuleiro eleitoral, portanto, não deve servir apenas para inflamar disputas ou cristalizar polarizações precoces. Ela pode — e deveria — ser uma oportunidade. Uma chance de elevar o nível do debate, de expor ideias à crítica pública com antecedência e de permitir que a sociedade potiguar avalie não apenas quem melhor critica, mas quem demonstra condições reais de governar. É isso, no fim das contas, que todo mundo espera.