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Editorial

Os sinais de Washington

Confira o editorial do Agora RN desta quarta-feira 3
Redação
03/06/2026 | 06:38

O governo dos Estados Unidos tem dado sucessivas indicações de que pretende interferir nas eleições brasileiras, se é que não é possível dizer que o plano já foi colocado em prática.

Divergências comerciais e diplomáticas são naturais entre países soberanos, sobretudo entre economias de grande porte. O que chama atenção, porém, é a sequência de acontecimentos recentes envolvendo o governo do presidente Donald Trump e autoridades americanas em relação ao Brasil.

Lula e Trump foto Ricardo Stuckert PR
Os sinais de Washington - Foto: Ricardo Stuckert PR

Nos últimos dias, os Estados Unidos anunciaram a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas, abriram espaço para a aplicação de novas tarifas sobre produtos brasileiros, publicaram elogios públicos ao senador Flávio Bolsonaro após encontro na Casa Branca e, por meio do secretário de Estado Marco Rubio, colocaram o Brasil fora de uma lista de países considerados aliados de Washington.

Não bastasse isso, o governo americano concluiu uma investigação comercial que aponta supostas práticas brasileiras consideradas prejudiciais aos interesses dos Estados Unidos. Entre elas está justamente o Pix, sistema de pagamentos instantâneos criado pelo Banco Central e que se tornou xodó dos brasileiros.

É nesse ponto que a discussão ultrapassa os limites de uma divergência comercial convencional.

O Pix não é apenas uma ferramenta financeira. Em poucos anos, transformou a forma como milhões de brasileiros realizam pagamentos, transferências e negócios. Reduziu custos para consumidores e empresas, ampliou a inclusão financeira e se consolidou como um dos sistemas mais eficientes do mundo. O próprio sucesso da ferramenta fez com que diversos países passassem a estudar modelos semelhantes.

Por isso, causa estranheza vê-lo incluído entre as justificativas para possíveis sanções comerciais.

A alegação americana é que o Banco Central atua simultaneamente como regulador e operador do sistema, criando uma vantagem competitiva sobre empresas privadas de meios de pagamento. A discussão regulatória pode até existir. O que não parece razoável é transformar um mecanismo de pagamento amplamente adotado pela população brasileira em alvo de uma ofensiva comercial de caráter internacional.

Na prática, o que está em debate é o direito de um país desenvolver soluções tecnológicas próprias e bem-sucedidas sem que isso seja interpretado como ameaça a interesses econômicos externos.

Outro aspecto que merece reflexão é o comportamento da diplomacia americana. Marco Rubio declarou ontem que a América está repleta de aliados e amigos dos Estados Unidos, mas fez questão de excluir o Brasil desse grupo. Na mesma fala, mencionou que o país atravessa um ciclo eleitoral. A observação não passou despercebida.

Relações internacionais exigem precisão. Palavras de um secretário de Estado não são improvisos de ocasião. São manifestações oficiais da principal autoridade diplomática de uma potência global. Quando um representante desse nível decide citar nominalmente um país e associá-lo ao seu contexto político interno, é natural que a declaração produza repercussões.

A política brasileira pertence aos brasileiros. As instituições brasileiras pertencem aos brasileiros. As decisões sobre os rumos do país pertencem exclusivamente aos brasileiros. Essa é uma premissa que deveria ser consensual independentemente de ideologias, partidos ou preferências eleitorais.

A publicação de fotografias ao lado de lideranças políticas brasileiras, acompanhadas de elogios públicos, no mesmo momento em que Washington discute tarifas comerciais contra produtos nacionais, apenas reforça a percepção de uma diplomacia cada vez mais personalista e menos institucional.

A política internacional não deve ser conduzida como uma extensão das redes sociais nem como um palco permanente para demonstrações de força. Os interesses permanentes dos países são muito mais importantes que as conveniências momentâneas dos governantes.

O Brasil tem divergências com os Estados Unidos. Os Estados Unidos têm divergências com o Brasil. Isso é normal. O que não é normal é transformar essas divergências em instrumentos de pressão que misturam comércio, diplomacia e declarações políticas de forma cada vez mais explícita.

A defesa da soberania nacional não é uma bandeira de direita nem de esquerda. É uma obrigação de qualquer nação que pretenda ser respeitada no cenário internacional.

Quando um país estrangeiro questiona instrumentos brasileiros como o Pix, ameaça impor barreiras comerciais e faz referências públicas ao contexto político nacional, cabe ao Brasil responder com serenidade, firmeza e confiança em suas próprias instituições.