A seleção brasileira começa a Copa do Mundo cercada por desconfiança, mas não sem chances reais de competir pelo título. A edição organizada pela Fifa será a maior da história, com 48 seleções e sede em três países, México, Estados Unidos e Canadá. O Brasil entra pressionado por um jejum que pode chegar a 24 anos sem conquistas, igualando o intervalo entre 1970 e 1994, caso volte para casa sem a taça. O pessimismo aparece também nas pesquisas. Levantamentos recentes mostram que apenas 25% dos entrevistados pela Quaest e 29% pelo Datafolha acreditam na conquista do hexa.
O descrédito, porém, nunca foi sentença definitiva no futebol. Há seleções que chegaram desacreditadas e terminaram eternizadas. A equipe de 1970 é o exemplo mais forte. Outras ficaram marcadas pela frustração do que poderiam ter alcançado, como as de 1950, 1982, 1998 e 2014. A história da Copa mostra que prognóstico ruim pesa, mas não decide jogo.

Mesmo com lesões e dúvidas, o Brasil reúne condições para fazer campanha competitiva. A maior parte dos convocados atua em clubes de ponta e convive com partidas de alta exigência técnica e física. Pode haver discussão sobre um nome ou outro, mas dificilmente uma lista alternativa fugiria muito da atual. Com exceções pontuais, estão no grupo os melhores disponíveis, numa combinação de experiência e juventude.
A presença de Neymar, embora controversa, tem respaldo na torcida. No amistoso contra o Panamá, no Maracanã, seu nome foi cantado em coro. O atacante continua sendo o maior talento brasileiro dos últimos tempos. Seu histórico de lesões e a dúvida sobre sua forma física recomendam cautela, mas não anulam a lógica da convocação. Abrir mão de um jogador desse porte seria decisão difícil de sustentar.
O Brasil também superou, ao menos desta vez, a resistência a técnicos estrangeiros. Carlo Ancelotti chega à seleção com a autoridade de quem está entre os maiores do mundo. Sua experiência em seleções é limitada, mas sua competência não está em discussão. A estrutura da CBF nos Estados Unidos se coloca no padrão das concorrentes.
Nada disso transforma o Brasil em favorito absoluto. Copa não obedece apenas a currículo, elenco, estrutura ou tradição. O imponderável sempre ronda o torneio. Ninguém ganha nem perde de véspera. O que se espera da seleção é simples e difícil ao mesmo tempo: que jogue bola.
A camisa brasileira carrega cinco estrelas, marca que nenhuma outra seleção alcançou. Nesta Copa, apenas a Alemanha pode igualar esse feito, já que a Itália, também tetracampeã, ficou fora. O Brasil ainda preserva outra condição única, a de ter disputado todas as edições da Copa. Essa tradição não entra em campo sozinha, mas ajuda a lembrar a responsabilidade.
O hexa é uma missão difícil. As tentativas frustradas desde 2002 demonstram isso. Ainda assim, a camisa consagrada por Pelé, Garrincha, Romário, Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho e tantos outros craques precisa inspirar os jogadores a entregar o melhor. Nenhum modelo estatístico antecipa se a taça virá. O futebol segue imprevisível. E por isso o Brasil, mesmo desacreditado, continua vivo.