A nova leva de dados sobre a situação fiscal do Rio Grande do Norte impõe um duro golpe no discurso do pré-candidato governista Cadu Xavier (PT). Ex-secretário estadual da Fazenda e escolhido pelo grupo da governadora Fátima Bezerra (PT) para disputar o Governo em 2026, Cadu tenta sustentar a imagem de gestor técnico que ajudou a reorganizar as contas estaduais. Os números mais recentes, porém, empurram a pré-campanha petista para uma zona de forte desgaste.
O dado mais grave é o caixa negativo de R$ 3 bilhões. Levantamento da XP Investimentos, divulgado por O Globo e repercutido no Rio Grande do Norte, apontou o Estado como o caso mais preocupante entre os entes com problema de fluxo de caixa. A avaliação mostra que o RN encerrou 2025 entre as piores situações de liquidez do país.

Mais: enquanto os gastos estaduais cresceram 17,7%, a arrecadação avançou apenas 5,3%. A conta é simples e politicamente explosiva: a despesa cresceu mais de três vezes acima da receita.
O diagnóstico desmonta a ideia de normalidade fiscal. Se as contas estivessem sob controle, o Estado não apareceria com caixa negativo bilionário, baixa liquidez, nota C na Capacidade de Pagamento do Tesouro Nacional e folha de pessoal acima do limite da Lei de Responsabilidade Fiscal.
Segundo dados do Relatório de Gestão Fiscal, o Executivo estadual fechou 2025 gastando 56,41% da Receita Corrente Líquida com pessoal. O limite máximo previsto para o Poder Executivo é de 49%. O RN não apenas ultrapassou o limite. Ficou mais de sete pontos percentuais acima dele.
O governo argumenta que a situação atual é melhor que a de 2019. Cadu tem dito que recebeu o Estado com comprometimento de pessoal superior a 63% e reduziu esse percentual para 56,41%. Também afirma que a Receita Corrente Líquida saiu da casa dos R$ 9 bilhões para cerca de R$ 19 bilhões, o que tornaria o déficit proporcionalmente menor.
É a linha de defesa oficial: reconhecer que o cenário é desafiador, mas afirmar que houve melhora em relação ao passado.
O problema é que a comparação com 2019 não apaga o retrato de 2026. Depois de quase oito anos de gestão Fátima, o Estado segue acima da LRF, com caixa negativo de R$ 3 bilhões, Capag C e baixa capacidade de investimento próprio. Em outras palavras: faltou resolução, geriu-se crise.
A notícia recente sobre medidas de contingenciamento no orçamento estadual reforça essa leitura. Quase R$ 800 milhões foram congelados somente este ano no orçamento. Contingenciar despesas é instrumento legal de gestão, mas, neste contexto, funciona como mais um sinal de aperto: o governo precisa limitar gastos porque a receita não acompanha o ritmo das obrigações.
Esse quadro se soma a outros problemas financeiros registrados ao longo da gestão. Há retenção de quase meio bilhão dos valores consignados, dívidas com fornecedores e dificuldade de o governo bancar investimentos com recursos próprios.
O caso dos consignados é especialmente sensível porque o dinheiro foi descontado diretamente do salário dos servidores, mas não repassado integralmente às instituições financeiras no prazo devido. Também há críticas sobre retenção de recursos pertencentes aos municípios, como parcelas vinculadas a tributos.
São fatos que alimentam a leitura de uma máquina pública sem folga, dependente de repasses federais, operações de crédito e convênios para realizar obras e programas.
A folha de pessoal é outro ponto central. O governo defende reajustes e concursos como política de valorização do serviço público, sobretudo depois do trauma dos salários atrasados deixados por gestões anteriores.
Mas a combinação de reajustes, concursos, expansão de despesas permanentes e folha acima da LRF cria uma contradição difícil para a pré-campanha governista. O Estado amplia compromissos de longo prazo sem ter conseguido equilibrar, na mesma medida, caixa, liquidez e investimento.