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Opinião

Milei ultrapassa os limites diplomáticos

Discurso do presidente argentino em convenção do PL gerou crise diplomática após críticas a Lula e ao ministro Alexandre de Moraes; divergências políticas não devem comprometer relações entre os países
Por O Correio de Hoje
28/07/2026 | 15:15

O presidente da Argentina, Javier Milei, transformou a convenção do Partido Liberal (PL), realizada no sábado em São Paulo para oficializar a candidatura do senador Flávio Bolsonaro à Presidência da República, em palco para ataques contra autoridades brasileiras.

No pronunciamento de apoio ao candidato, Milei chamou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva de “presidiário” e classificou como “lixo” o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). O episódio ultrapassou o campo das divergências ideológicas e criou um problema diplomático entre dois países cuja relação é estratégica para ambos e para toda a América do Sul.

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O tom adotado por Milei foi agressivo e incompatível com a responsabilidade de um chefe de Estado. Ao atacar Moraes, o argentino reagiu à decisão recente que o proibiu de visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro, descrito por ele como “amigo injustamente encarcerado”.

Também afirmou que Lula “se cansou de receber líderes do exterior quando estava preso, entre eles o nefasto ex-presidente argentino Alberto Fernández”.

Não se tratou, portanto, de uma simples manifestação de preferência política, mas de uma intervenção direta na disputa eleitoral brasileira, feita em território nacional e acompanhada de insultos a instituições do país.

Reação brasileira

A resposta veio rapidamente e também foi marcada por declarações fortes. O presidente do STF, ministro Edson Fachin, considerou o ataque a Moraes “desrespeitoso” e “incompatível com a civilidade”.

Lula afirmou que quem vier de fora “meter o dedo” nas eleições brasileiras vai “apanhar muito”. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, também reagiu e chamou Milei de “palhaço”, embora não tenha atribuição direta sobre a condução da relação diplomática.

Já o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, adotou as medidas diplomáticas previstas. Ele convocou o embaixador argentino, Daniel Raimondi, para manifestar a insatisfação do governo brasileiro e chamou para consultas o embaixador do Brasil em Buenos Aires, Julio Bitelli.

Milei tem o direito de demonstrar apoio a qualquer corrente política, mas não de interferir na política interna brasileira. Ao mesmo tempo, existem episódios anteriores em que representantes brasileiros também ultrapassaram limites diplomáticos.

Em 2023, Lula enviou estrategistas à Argentina para auxiliar a candidatura governista de Sergio Massa, derrotado posteriormente por Milei. Massa também esteve em Brasília com Lula durante a campanha eleitoral argentina.

Em 2025, durante uma cúpula do Mercosul em Buenos Aires, o presidente brasileiro criticou a prisão da ex-presidente Cristina Kirchner por corrupção, manifestando apoio político a uma decisão tomada pela Justiça argentina. Milei afirmou que não esqueceria o gesto.

Esses episódios, porém, não justificam a repetição do comportamento inadequado.

Relação entre países deve prevalecer

Governos podem divergir profundamente sem abandonar o respeito, a civilidade e os protocolos diplomáticos. Insultar um ministro do STF e atacar autoridades brasileiras durante uma visita ao país são atitudes incompatíveis com a postura esperada de um chefe de Estado.

Brasil e Argentina mantêm décadas de vínculos políticos e econômicos que vão além das disputas momentâneas. A escalada de declarações pessoais e confrontos públicos amplia um desgaste que pode prejudicar interesses dos dois países.

É necessário conter os ânimos antes que conflitos políticos individuais comprometam uma relação estratégica. Nem Lula nem Milei devem subordinar a parceria entre Brasil e Argentina às próprias disputas internas.

Os presidentes passam. Brasil e Argentina permanecem.