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HIV

PrEP injetável reduz infecção por HIV a 0,1% ao ano em estudo

Medicamento injetável de prevenção apresentou taxa de infecção de 0,1% ao ano entre usuários acompanhados nos Estados Unidos
Por O Correio de Hoje
28/07/2026 | 17:05

O uso do cabotegravir, medicamento injetável administrado a cada dois meses para prevenção da infecção pelo HIV, apresentou taxa de incidência de apenas 0,1% ao ano em um estudo de vida real que acompanhou usuários por um período prolongado. Os resultados foram divulgados pela ViiV Healthcare, empresa especializada em pesquisa e desenvolvimento de medicamentos para HIV, representada no Brasil pela biofarmacêutica britânica GSK.

A pesquisa analisou dados de 1.748 pessoas com 18 anos ou mais, atendidas em 101 clínicas distribuídas por 23 estados dos Estados Unidos, que receberam ao menos uma aplicação de cabotegravir entre 21 de dezembro de 2021 e 30 de junho de 2024. O objetivo foi avaliar a adesão ao tratamento e medir sua efetividade na prevenção da infecção pelo vírus.

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Estudo de vida real apontou taxa de infecção de apenas 0,1% ao ano entre usuários do cabotegravir injetável para prevenção do HIV - Foto: josé aldenir

Os resultados apontaram uma taxa de infecção de 0,10 caso por 100 pessoas-ano, índice que, segundo especialistas, demonstra elevada proteção quando o medicamento é utilizado conforme a orientação médica.

Para o infectologista Álvaro Costa, do Hospital das Clínicas e subinvestigador da Unidade de Pesquisa do Centro de Referência e Tratamento DST/Aids, a eficácia observada reforça o potencial da profilaxia pré-exposição (PrEP) injetável.

“É uma ferramenta que praticamente barra definitivamente a infecção pelo HIV. Esses casos (relatados no estudo) são de pacientes que esqueceram, atrasaram as doses de injeção, enfim, que não tiveram uma adesão adequada (à terapia). Ou seja, na vida real, ele funciona muito, muito bem.”

O especialista destaca que estudos de vida real complementam os ensaios clínicos por avaliarem o desempenho da medicação em condições rotineiras de uso.

“É muito interessante ver esse fenômeno com relação à prevenção.”

A maior parte dos participantes era formada por homens jovens, com idade mediana de 33 anos. Cerca de 40% relataram ter apresentado ao menos uma infecção sexualmente transmissível (IST) no ano anterior ao início do acompanhamento. Além de medir a efetividade do medicamento, os pesquisadores avaliaram a adesão dos pacientes ao esquema de aplicação bimestral.

A profilaxia pré-exposição (PrEP) consiste no uso de medicamentos antes de situações de risco para impedir que o HIV se estabeleça no organismo. No Brasil, a versão em comprimidos diários é oferecida gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) desde 2017.

Nos últimos anos, surgiram versões injetáveis de longa duração. O cabotegravir, aplicado a cada dois meses, teve o uso aprovado no país e está disponível na rede privada desde agosto de 2025. Sua incorporação ao SUS ainda é analisada pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec).

Um estudo conduzido pela GSK e publicado na revista científica Value in Health estima que a adoção do cabotegravir poderia evitar aproximadamente 385 mil das 600 mil infecções por HIV projetadas para o Brasil na próxima década, além de gerar uma economia estimada em R$ 14 bilhões em custos relacionados ao tratamento da doença.

Outra alternativa aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) é o lenacapavir, primeiro medicamento preventivo aplicado a cada seis meses. Apesar do registro concedido em janeiro deste ano, o produto ainda não está disponível no mercado brasileiro, principalmente devido ao alto custo. Nos Estados Unidos, o tratamento ultrapassa US$ 28 mil por pessoa ao ano, equivalente a cerca de R$ 150 mil.

Embora a PrEP oral já apresente elevada eficácia, especialistas avaliam que os medicamentos injetáveis podem ampliar a proteção por favorecerem a continuidade do tratamento.

Segundo Álvaro Costa, muitos usuários preferem aplicações periódicas ao uso diário de comprimidos, embora a escolha deva considerar o perfil de cada paciente.

“Estudos mostram que quando você pergunta para os usuários o que eles preferem, se tomar um comprimido todo dia ou uma injeção a cada dois meses, eles preferem a injeção. Mas tem quem prefira o comprimido, então a prevenção tem que ser individualizada.”

O infectologista reforça que a PrEP continua sendo uma das principais estratégias para reduzir novas infecções pelo HIV.

“A PrEP é uma ferramenta extremamente segura e eficiente para barrar a infecção pelo HIV caso seja tomada, orientada, supervisionada de forma adequada. A maior parte dos estudos mostra uma redução substancial do risco superior a 95% a 96%. Ou seja, é algo que realmente funciona e é seguro e que merece implementação.”

Ele acrescenta que a prevenção precisa considerar o comportamento da população.

“As pessoas têm uma dificuldade enorme de manter o uso do preservativo na atividade sexual. Isso não é julgamento. É uma questão histórica no Brasil e no mundo.”

Cenário brasileiro

Apesar dos avanços no tratamento e na prevenção, o HIV permanece como um desafio para a saúde pública. Em 2024, o Brasil registrou 39.216 novos casos de infecção pelo vírus.

Diante desse cenário, especialistas defendem a ampliação das estratégias preventivas, combinando diferentes métodos de proteção conforme as necessidades, características e escolhas de cada pessoa, com o objetivo de reduzir a transmissão e ampliar o acesso às tecnologias disponíveis.