Duas doses da Qdenga derrubaram em 87,9% o risco de um adolescente parar no hospital por dengue em São Paulo. O número saiu de um estudo assinado por pesquisadores de instituições brasileiras e estrangeiras, publicado na revista científica The Lancet — e o trabalho mostra que uma fatia dessa proteção surge logo na primeira dose.
O que os autores fizeram foi acompanhar como se comportou a vacina da farmacêutica Takeda ao longo da circulação da doença em 2024 e em 2025. A diferença em relação aos ensaios feitos antes da aprovação de um medicamento é o cenário: aqui, a efetividade foi medida no mundo real, em plena epidemia e já com o imunizante incorporado à rotina de vacinação.

166 mil testes analisados
Entraram na análise 166.390 testes para dengue feitos em jovens de 10 a 15 anos. Deles, 65.365 voltaram positivos e 101.025, negativos.
A proteção foi então medida contra dois desfechos distintos: adoecer com sintomas e acabar internado por causa da doença.
No primeiro caso, a dose única rendeu efetividade estimada de 59,2%. Aplicada a segunda, o índice pulou para 73,1%.
Na internação, o salto entre uma dose e duas é maior. A primeira já aparecia ligada a 74,6% de proteção; com o esquema fechado, o número foi aos 87,9%. É o argumento mais forte para não parar no meio do caminho — completar as duas aplicações muda o resultado. A Qdenga é dada em duas doses separadas por três meses, ainda que os dados apontem alguma proteção já a partir da primeira.
Um ano de efeito, e resistência à troca de sorotipo
Outro resultado que os pesquisadores acompanharam foi a duração desse efeito. A proteção se manteve ao longo de um ano inteiro — que é justamente o período abrangido pela análise, e o limite do que o estudo consegue afirmar.
A vacina ainda respondeu bem quando o vírus predominante mudou de perfil no meio do caminho. Em 2024, predominavam em São Paulo os sorotipos DENV-1 e DENV-2. Depois, cresceu a circulação do DENV-3 — e mesmo assim o estudo encontrou a proteção mantida.
É justamente por isso que a avaliação em condições reais pesa tanto. A dengue muda de um ano para o outro: além do volume de casos, a troca dos sorotipos em circulação altera o quadro epidemiológico e aumenta a parcela da população suscetível à infecção.
Como a vacina chegou ao SUS
Foi em 2023 que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou a Qdenga; no ano seguinte ela entrou no sistema público brasileiro. De início, a vacinação foi para localidades selecionadas por critérios ligados a como a doença circulava em cada uma.
A partir do começo de 2026 a oferta passou a cobrir todos os municípios brasileiros, sem mexer no público definido pelo Programa Nacional de Imunizações — meninos e meninas na faixa dos 10 aos 14 anos. Fora do SUS, na rede privada, a faixa autorizada é bem mais larga: vai dos 4 aos 60 anos. O esquema, esse, não muda em lugar nenhum — duas doses separadas por um intervalo de três meses.
A vacina que saiu de circulação
Hoje a Qdenga é a única vacina contra a dengue que segue em uso no Brasil. O País chegou a aplicar a Butantan-DV, de dose única, desenvolvida pelo Instituto Butantan — mas em junho o Ministério da Saúde suspendeu preventivamente essa vacinação, ao surgirem 42 casos de reação adversa grave que precisariam ser investigados. Àquela altura, cerca de 500 mil pessoas já a haviam tomado.
O estudo foi publicado na edição desta quinta-feira 3 de O Correio de Hoje: Vacina reduz internações por dengue.