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Saúde

Mortalidade de mulheres por câncer de pulmão sobe 118% em duas décadas, cinco vezes mais que entre homens

No SUS, 90% dos diagnósticos chegam nos estágios 3 ou 4, e o Brasil ainda não tem programa nacional de rastreamento
Agora RN
02/09/2026 | 18:03

O câncer de pulmão ainda mata mais homens do que mulheres no Brasil, mas essa distância está diminuindo rapidamente. Em duas décadas, a taxa bruta de mortalidade feminina por tumores do trato respiratório mais que dobrou, revelando um efeito tardio de mudanças no padrão de consumo de cigarro no País.

Entre 2004 e 2023, a mortalidade de mulheres por câncer de pulmão, traqueia e brônquios aumentou 118%. Entre os homens, o crescimento no mesmo período foi de 23%. Os números são do Atlas On-line de Mortalidade por Câncer, do Instituto Nacional de Câncer (Inca) e do Ministério da Saúde, tabulados pelo médico Lucianno Santos, da Oncologia D’Or.

Mão de mulher segura um cigarro aceso
Mortalidade feminina por tumores de pulmão, traqueia e brônquios cresceu 118% entre 2004 e 2023 no Brasil. Foto: José Aldenir

Uma das explicações para essa diferença está na história do tabagismo. As mulheres incorporaram o hábito de fumar mais tarde do que os homens, que durante décadas estiveram mais expostos ao cigarro. Como o desenvolvimento do câncer pode ocorrer muitos anos depois dessa exposição, os números atuais ainda refletem comportamentos das décadas de 1980 e 1990.

A mudança aparece também na distribuição das mortes. Dados do Datasus mostram que, em 2003, as mulheres representavam 32% das pessoas que morreram por esse grupo de tumores no Brasil. Em 2023, já correspondiam a 46%.

Isso ocorre apesar da redução da proporção de fumantes observada no País nas últimas décadas. O intervalo entre a exposição prolongada ao tabaco e o aparecimento da doença ajuda a explicar por que os benefícios da queda do tabagismo não são imediatamente acompanhados por uma redução equivalente na mortalidade.

Diagnóstico tardio

Outro problema aparece quando o câncer finalmente é descoberto. Muitos pacientes procuram atendimento somente depois do surgimento de sintomas mais intensos, quando a doença já avançou. No Sistema Único de Saúde (SUS), 90% dos pacientes com câncer de pulmão recebem o diagnóstico nos estágios 3 ou 4. O número faz parte de um levantamento do Instituto Lado a Lado pela Vida, realizado pela plataforma Data Câncer 360º a partir da análise de 14.145 diagnósticos e do cruzamento de bases oficiais do Ministério da Saúde.

A descoberta tardia coloca o rastreamento no centro da discussão. A recomendação é que pessoas entre 50 e 80 anos que fumam ou deixaram de fumar há menos de 15 anos e apresentam carga tabágica igual ou superior a 20 anos-maço realizem anualmente uma tomografia computadorizada de tórax de baixa dose.

A conta da carga tabágica ajuda a medir a exposição acumulada ao cigarro. Para chegar ao resultado, multiplica-se o número de maços consumidos diariamente pela quantidade de anos em que a pessoa fumou. Quem consumiu 40 cigarros por dia, equivalente a dois maços, durante 20 anos, por exemplo, apresenta carga de 40 anos-maço.

Esse protocolo de rastreamento, entretanto, ainda não é aplicado de maneira ampla no Brasil. A ausência de um programa nacional estruturado mantém parte dos pacientes fora da possibilidade de identificar a doença antes do aparecimento de sintomas mais evidentes.

Em abril, o Inca anunciou a realização de um estudo para avaliar a viabilidade de implantar um programa de rastreamento do câncer de pulmão no SUS. A pesquisa deverá produzir evidências que possam subsidiar uma futura diretriz nacional.

O Brasil construiu nas últimas décadas uma política antitabagismo reconhecida internacionalmente e conseguiu reduzir a presença do cigarro na população. A evolução da mortalidade feminina, porém, mostra que os efeitos de décadas anteriores continuam chegando aos hospitais.

A combinação entre o aumento das mortes entre mulheres e a elevada proporção de diagnósticos em estágios avançados indica que reduzir o número de fumantes é apenas uma parte do trabalho. Identificar mais cedo quem acumulou anos de exposição ao cigarro será determinante para que a queda do tabagismo também se traduza em menos mortes por câncer de pulmão.