A demora na procura por atendimento médico continua sendo um dos principais fatores associados às amputações em pacientes com pé diabético, segundo o cirurgião vascular Wesley Lemos. O médico afirmou que a perda de sensibilidade provocada pela neuropatia diabética faz com que muitos pacientes não percebam lesões, retardando o diagnóstico e favorecendo a evolução de infecções até o comprometimento dos ossos.
Segundo o especialista, somente nos últimos três meses foram realizadas cerca de 20 amputações de dedos em pacientes atendidos por ele na Liga Contra o Câncer. O aumento da demanda motivou o tema da entrevista, voltada a esclarecer quando a amputação é necessária e em quais situações a preservação do membro ainda é possível.

Wesley Lemos explicou que um dos maiores equívocos é acreditar que todo dedo escurecido deve ser retirado imediatamente. De acordo com ele, quando a necrose ocorre por deficiência da circulação arterial e não há sinais de infecção, a prioridade deve ser restabelecer o fluxo sanguíneo antes de qualquer procedimento cirúrgico.
Caso contrário, a retirada do dedo pode ampliar a ferida e dificultar a cicatrização, aumentando o risco de novas amputações.
Já nos casos em que há pus, mau cheiro, abscessos, gangrena gasosa ou rápida progressão da infecção, a cirurgia deve ser realizada com urgência para impedir que o comprometimento alcance outras estruturas do pé. O médico ressaltou que essas situações representam emergência e exigem drenagem imediata da infecção.
Outro problema frequente, segundo o cirurgião, é a demora dos pacientes em procurar assistência médica. Ele relatou que recebe pessoas com feridas abertas há meses, muitas delas acreditando que apenas curativos caseiros resolveriam o problema. Em alguns casos, a infecção já destruiu completamente o osso do dedo quando o paciente chega ao consultório.
O especialista também alertou que a ausência de dor não significa ausência de gravidade. A neuropatia diabética reduz a sensibilidade dos pés, fazendo com que cortes, perfurações e infecções evoluam sem provocar desconforto.
Por isso, feridas que não cicatrizam, dedos escurecidos, vermelhidão, inchaço, secreção, odor forte ou aumento da temperatura do pé devem motivar avaliação médica imediata.
Durante a entrevista, Wesley Lemos chamou atenção para práticas que podem agravar o quadro, como remover unhas ou calos em casa, utilizar alicates sem esterilização ou recorrer a receitas caseiras. Segundo ele, essas intervenções aumentam o risco de infecção e podem acelerar a necessidade de amputação.
O médico destacou ainda que muitos pacientes descobrem o diabetes apenas após o surgimento de complicações nos pés, já que a doença costuma evoluir de forma silenciosa.

Para reduzir esse risco, recomenda controle rigoroso da glicemia, inspeção diária dos pés, uso de calçados adequados, tratamento precoce de pequenas lesões e acompanhamento médico regular.
Na avaliação do cirurgião, a preservação do pé depende principalmente da rapidez no diagnóstico e da definição correta da causa da lesão.
“A demora é nossa inimiga. Quanto mais rápido a gente atua, mais rápido a gente consegue restabelecer a saúde do paciente”, afirmou.