Após deixar a televisão em 2024, depois de 36 anos de carreira, Fátima Bernardes afirma que encontrou na internet um novo espaço para experimentar formatos e ampliar o contato com o público. A jornalista e apresentadora, que atualmente produz conteúdo para redes sociais e plataformas digitais, anunciou que a segunda temporada do videocast “Cá entre nós”, apresentado ao lado da filha Bia Bonemer, terá como tema o conceito de sucesso sob diferentes perspectivas geracionais.
A novidade foi antecipada durante entrevista ao videocast “Conversa vai, conversa vem”, que foi disponibilizado nesta segunda-feira 27, no YouTube e no Spotify. Na conversa, Fátima também falou sobre sua trajetória profissional, maternidade, saúde mental, adaptação ao ambiente digital e o relacionamento com o deputado federal Túlio Gadelha.

Segundo ela, a diferença de gerações foi um dos fatores que impulsionaram a primeira temporada do programa com a filha. “Vimos que funciona muito. E vou te dar o tema da segunda temporada: sucesso. Queremos discutir o que é o sucesso nos dias de hoje? Quem é sucesso para cada uma? Para a geração da minha filha, sucesso é diferente do que a minha geração almejava: aquela construção de carreira de anos na mesma empresa.”
Ao recordar quando percebeu que havia se tornado conhecida nacionalmente, Fátima contou que a primeira experiência ocorreu ainda no início da carreira, durante um atendimento no Centro do Rio de Janeiro.
“Quando dei um primeiro autógrafo. Estava num posto de atendimento na Av. Venezuela, às seis da manhã, e falei pra moça que me pediu: ‘Mas eu não sou artista’. E ela: ‘Eu sei, é a moça do jornal’. Achei que ela tivesse me confundido com alguém. Dei o autógrafo e falei: ‘A coisa tá indo’.”
Fátima afirmou que Bia Bonemer teve papel importante em sua adaptação ao YouTube, ajudando a tornar o processo menos rígido. “Quando estávamos discutindo sobre o programa, ela me disse: ‘Mãe, nada do que eu disser será tão grave’. Muito diferente de mim, né? Porque a vida inteira eu sabia que tudo que eu dissesse era muito grave.”
Ela acrescentou que ouvir da filha que ambas estavam começando naquele formato ajudou a diminuir a pressão. “Ela também está começando, nunca fez Youtube.” A apresentadora afirmou que sempre incentivou os filhos a construírem uma relação saudável com o trabalho e nunca cogitou que dependessem financeiramente dos pais. “Disso sempre tiveram certeza: não havia dúvida de que teriam que trabalhar.”
Segundo Fátima, foi justamente uma observação da filha Laura que a fez refletir sobre o momento vivido na televisão. “Mãe, já percebeu que você trabalha igual se estivesse começando sua carreira?” Ela conta que a frase marcou o início das mudanças profissionais que culminaram na saída do Jornal Nacional e, posteriormente, na migração para novos projetos.
A jornalista relembrou o período em que conciliou a apresentação do Jornal Nacional com os cuidados dos trigêmeos, ressaltando que havia uma diferença na forma como homens e mulheres eram vistos ao exercerem funções semelhantes na criação dos filhos. Ao citar uma viagem realizada por William Bonner durante a Copa de 1998 e outra feita por ela em 2002, destacou a diferença de tratamento recebida pelo casal.
“Eu ouvi muito: ‘Nossa, que maridão, hein?’. Eu dizia: ‘Sim, mas não por essa razão’. Não ouvi um elogio por ter ficado com três crianças, ele ouviu vários. Merecia? Sim. Mas eu também merecia.” Ela reconhece que contou com rede de apoio familiar, mas afirma que a maior cobrança vinha dela própria.
Fátima revelou que conviveu durante anos com ansiedade e chegou a desenvolver fobia de avião após uma crise ocorrida durante uma viagem sem os filhos. “Sempre tive muito medo de morrer e deixar filho pequeno, criei pânico de avião.” Segundo ela, permaneceu dois anos e quatro meses sem embarcar após o episódio. A apresentadora contou que fez tratamento com medicamentos e psicoterapia. “Durante dois anos, precisei tomar uma medicação. Não tive problema. Se tivesse que tomar a vida toda, tomaria.”
Hoje, afirma que consegue controlar melhor a ansiedade, embora a decolagem ainda seja um momento difícil. Fátima disse que a decisão de deixar a bancada do Jornal Nacional, onde permaneceu por 14 anos, começou muito antes de sua mudança para o entretenimento.
Segundo ela, o desejo de experimentar novos projetos aumentou gradativamente até provocar sintomas físicos. “Cheguei a fazer jornal com dois enfermeiros embaixo, no serviço de emergência da Globo, porque eu passava mal.” Ela contou que um episódio marcou a decisão definitiva. “Teve um dia que não encerrei o jornal. Não consegui.”
Após iniciar o tratamento para ansiedade, sentiu-se preparada para comunicar à emissora que pretendia mudar de área. “Consegui ter coragem de dizer que queria fazer uma mudança. E que não porque era infeliz fazendo aquilo, mas queria experimentar outras coisas.”
Mais tarde, também decidiu deixar o programa Encontro, após a pandemia e o tratamento contra um câncer. Segundo ela, esse período despertou um sentimento de urgência para aproveitar mais a vida. Questionada sobre a principal diferença entre televisão e internet, Fátima afirmou que precisou aprender a lidar com a espontaneidade das plataformas digitais. “Não existe editar ou refazer. Errou, errou e segue em frente.” Ela afirma que, aos poucos, percebeu que essa característica aproximava o público.
Também contou que passou a produzir conteúdos cotidianos, como vídeos retirando maquiagem ou reagindo às próprias gravações, formatos que inicialmente julgava não despertarem interesse. A jornalista relembrou que passou a acreditar na possibilidade de apresentar o Jornal Nacional ao ver Lillian Witte Fibe na bancada e destacou a importância da representatividade para ampliar referências.
Ao citar a bailarina Ingrid Silva, afirmou que exemplos concretos ajudam outras pessoas a visualizarem novas possibilidades profissionais. Fátima também comentou as mudanças no jornalismo televisivo ao longo das últimas décadas e afirmou enxergar de forma positiva a presença de maior envolvimento emocional dos profissionais. “Maravilhoso!”
Ela lembrou que sempre procurou manter equilíbrio entre emoção e informação. “Não acho errado chorar. Fiz ‘Fantástico’ no dia da morte do (Ayrton) Senna. Só não queria chorar mais do que a família.” Outro tema abordado foi o uso da inteligência artificial. Segundo a apresentadora, a tecnologia trouxe novos desafios relacionados à disseminação de conteúdos falsos. “Me preocupo muito com isso.”
Ela contou que já teve sua imagem utilizada indevidamente em anúncios de medicamentos e cosméticos. “Inteligência artificial já me fez vender remédio para emagrecer, cosméticos dos mais variados tipos.” Sobre o relacionamento com o deputado federal Túlio Gadelha, Fátima afirmou que acompanha o trabalho do companheiro, mas mantém distância da atividade política.
“Ele me conta das reuniões, propostas, o que está pensando. Mas não preciso estar nesses palanques. Não é um compromisso meu com ele.” Ela acrescentou que ambos respeitam as diferenças profissionais. “Temos carreiras bem claras.”
Segundo Fátima, embora possua opiniões pessoais, prefere mantê-las no âmbito privado e afirma que seu foco permanece voltado para a comunicação e os projetos que desenvolve atualmente.