Ferramentas de inteligência artificial capazes de responder perguntas sobre livros durante a leitura começam a ganhar espaço no mercado editorial e prometem transformar a experiência dos leitores. Ao mesmo tempo, a tecnologia reacende discussões sobre direitos autorais, remuneração de escritores e editoras e o uso de obras protegidas por sistemas de IA.
Os novos recursos permitem que leitores de livros digitais e ouvintes de audiolivros conversem, em tempo real, com um chatbot enquanto acompanham a narrativa. As perguntas podem abordar personagens, acontecimentos, contexto histórico, conceitos filosóficos e outros aspectos da obra, sem que o usuário precise interromper a leitura para fazer pesquisas externas.

“Interage-se com o livro como se estivesse vivo; é uma experiência completamente diferente”, afirmou Ahmed Kamel, diretor-geral da plataforma Sinai.ai, atualmente em fase de testes.
Entre as empresas que investem nesse modelo está a francesa My Smart Book, cuja tecnologia utiliza exclusivamente o conteúdo do próprio livro para responder às perguntas dos leitores. A Amazon também incorporou recursos semelhantes às suas plataformas. O serviço de audiolivros Audible oferece a função “Ask a question” (“Faça uma pergunta”), enquanto os dispositivos Kindle contam com o recurso “Ask this book” (“Pergunte a este livro”).
Segundo um porta-voz da Audible, a ferramenta foi desenvolvida para responder dúvidas relacionadas apenas ao audiolivro que está sendo ouvido naquele momento. Já a empresa ElevenLabs lançou o ElevenReader Voice Chat, recurso que, segundo a companhia, “transforma qualquer livro numa conversa bidirecional”.
Apesar do avanço da tecnologia, o modelo de funcionamento dessas plataformas ainda desperta questionamentos jurídicos e comerciais. Um dos principais debates envolve a forma como as empresas utilizam conteúdos protegidos por direitos autorais e se autores e editoras recebem algum tipo de compensação financeira.
A Sinai.ai afirma que trabalha apenas com obras em domínio público ou com livros autorizados por autores, herdeiros ou editoras. A empresa também diz ter desenvolvido um sistema de remuneração específico para o uso de obras por inteligência artificial, denominado “direitos de IA”.
“Assinamos acordos com várias editoras nos Estados Unidos e com grandes nomes no Oriente Médio”, disse Ahmed Kamel. Segundo ele, a empresa também negocia parcerias com grandes grupos editoriais norte-americanos, entre eles Hachette, Penguin Random House, Simon & Schuster, HarperCollins e Macmillan. As editoras, no entanto, não comentaram as negociações.
Outras plataformas adotam estratégias diferentes. A iChatbook informa que sua tecnologia não reproduz o conteúdo original das obras, mas gera resumos e explicações baseados nas principais ideias dos livros.
“Nosso livro conversacional não é uma biblioteca de conceitos, ideias e dados”, explicou o fundador da empresa, Brian Yang.
Há ainda plataformas que permitem aos próprios usuários carregar qualquer livro, independentemente da situação dos direitos autorais. É o caso do Gemini Notebook, ferramenta do Google anteriormente conhecida como NotebookLM, e da BookWorm AI, baseada no ChatGPT, que se apresenta como um “companheiro de leitura”.
O crescimento dessas ferramentas preocupa entidades que representam escritores. Em dezembro do ano passado, o sindicato norte-americano Authors Guild criticou o recurso “Ask this book”, da Amazon, por considerar que ele estabelece “um precedente perigoso”.
Segundo a entidade, a ferramenta “não tem autorização legal para usar conteúdos, não aporta receita adicional e não oferece nem às editoras, nem aos autores a possibilidade de se excluir do sistema, e menos ainda de aderir de forma voluntária”.
Enquanto empresas apostam na expansão desse tipo de interação entre leitores e obras, o debate sobre os limites legais do uso da inteligência artificial no mercado editorial permanece em aberto.