Depois de transformar “Brat” em um dos principais fenômenos da cultura pop de 2024, Charli XCX retorna com “Music, Fashion, Film”, álbum que marca uma nova mudança de direção artística. O sétimo trabalho de estúdio da cantora britânica incorpora elementos do rock sem abandonar a base eletrônica e experimental que consolidou sua identidade nos últimos anos, enquanto amplia a discussão sobre fama, criação artística e permanência na cultura pop.
Lançado após o maior sucesso comercial e de crítica da carreira da artista, o disco chega cercado de expectativa. Em atividade desde 2008, Charli XCX levou mais de uma década para alcançar o reconhecimento obtido com “Brat”, embora já tivesse emplacado sucessos como “I Love It”, escrita para a dupla sueca Icona Pop em 2012, e “Boom Clap”, lançada em 2014.

A partir da parceria com o selo britânico PC Music, iniciada em 2015, a cantora passou a ocupar um espaço próprio dentro do pop contemporâneo. Em vez de seguir tendências, tornou-se referência por antecipá-las, apostando em batidas eletrônicas fragmentadas, produção experimental e vocais processados por auto-tune.
Após o êxito de “Brat”, Charli optou por não repetir a fórmula que lhe garantiu amplo reconhecimento. O primeiro single divulgado, “Rock Music”, antecipou a mudança ao apresentar guitarras distorcidas e a declaração de que “a pista de dança está morta, então estamos fazendo rock”.
Apesar da proposta, “Music, Fashion, Film” mantém a estrutura de composição pop característica da artista. O álbum utiliza baterias eletrônicas, sintetizadores e processamento digital para construir um som que remete ao rock sem abandonar a estética eletrônica desenvolvida por Charli desde o EP “Vroom Vroom”, de 2016.
As influências variam ao longo das 11 faixas. Em “Card Declined”, guitarras remetem ao grunge de bandas como Hole e Babes in Toyland, enquanto “2007” aproxima-se do pop experimental produzido por Underscores. Já “Yeah” dialoga com o renascimento da estética indie que voltou a ganhar espaço nos últimos anos.
O resultado evidencia uma relação de influência mútua entre Charli e a nova geração de artistas. Com aproximadamente 30 minutos de duração, “Music, Fashion, Film” é o álbum mais curto da carreira da cantora. Apenas duas músicas ultrapassam três minutos, e parte das letras aposta em estruturas simples e repetitivas.
Mesmo assim, o disco desenvolve um conceito centrado na relação entre música, moda e cinema. Os três temas aparecem representados na capa por John Cale, Marc Jacobs e Martin Scorsese, simbolizando diferentes formas de expressão artística.
Ao longo das faixas, Charli aborda os desafios de criar sob constante exposição pública e questiona o significado da permanência artística. A reflexão ganha força na música de encerramento, “No One Lasts Forever”, que conta com participação do cineasta David Cronenberg. A faixa discute até que ponto uma obra pode sobreviver ao tempo e propõe uma visão menos dramática sobre o esquecimento. No desfecho do álbum, Cronenberg resume essa ideia com a frase: “O esquecimento é liberdade”.
O disco percorre diferentes estilos sem perder unidade. “SS26” apresenta uma balada melancólica inspirada no indie britânico. “Camera” trata da relação entre artistas e a exposição permanente. “I’m Afraid” revela um momento mais vulnerável da cantora ao abordar seu casamento recente. Em “Wink Wink”, Charli revisita sua antiga imagem de “garota má”, enquanto “Magic Metal Montana” presta homenagem ao produtor e parceiro de longa data A.G. Cook.
Ao combinar rock, música eletrônica e referências à moda e ao cinema, “Music, Fashion, Film” procura mostrar que Charli XCX continua disposta a experimentar novos caminhos sem abandonar a identidade construída ao longo da carreira. O álbum também reforça uma das ideias centrais da artista: o sucesso é passageiro, mas a busca por novas formas de expressão permanece como parte essencial do processo criativo.