Enquanto a primeira menstruação costuma ser reconhecida como um dos principais marcos da puberdade feminina, a primeira ejaculação dos meninos, conhecida como espermarca, ainda é um tema pouco discutido entre famílias, escolas e até nos serviços de saúde. Embora represente uma fase importante do desenvolvimento masculino, muitos adolescentes passam por essa experiência sem orientação prévia, o que pode provocar medo, vergonha, culpa e dúvidas sobre as transformações do próprio corpo.
A espermarca corresponde à primeira ejaculação do adolescente e pode ocorrer durante a masturbação ou de forma espontânea durante o sono, situação conhecida como polução noturna. Segundo especialistas, ambas as formas fazem parte do desenvolvimento normal e não representam diferença do ponto de vista da saúde.

O uropediatra Bruno Camargo Tiseo, do Einstein Hospital Israelita, explica que a forma como esse primeiro episódio acontece pode variar de acordo com aspectos culturais e da educação sexual recebida pelo adolescente.
“A forma como ocorre varia muito e pode estar ligada a aspectos culturais. Em ambientes mais repressivos em relação à sexualidade, a polução noturna tende a ser mais frequente como primeiro episódio. Já em contextos com maior abertura, a masturbação pode aparecer antes”, afirma.
Independentemente da forma como ocorre, o médico reforça que não existe diferença clínica entre as situações. “Ambas são manifestações normais do corpo”, diz.
Apesar de ser frequentemente associada ao amadurecimento sexual, a primeira ejaculação não representa o início da puberdade masculina nem significa que o desenvolvimento físico tenha sido concluído.
Segundo Tiseo, o primeiro sinal objetivo da puberdade nos meninos é o aumento do volume dos testículos. A espermarca costuma ocorrer apenas entre dois e três anos depois dessa mudança inicial. “A primeira ejaculação ocorre entre 24 e 36 meses após o início desse aumento”, explica.
Isso significa que a espermarca é apenas uma das etapas do desenvolvimento do organismo. Após esse momento, o adolescente ainda continuará passando por diversas transformações, como crescimento corporal, desenvolvimento da musculatura, surgimento e aumento dos pelos, mudanças na voz e amadurecimento completo do sistema reprodutor.
Também não é correto afirmar que o esperma produzido na primeira ejaculação seja totalmente maduro ou que o organismo tenha alcançado seu desenvolvimento definitivo. O processo reprodutivo continua evoluindo ao longo da adolescência.
A idade em que ocorre a primeira ejaculação varia conforme o ritmo de desenvolvimento de cada adolescente. Estudos internacionais apontam que ela costuma acontecer, em média, entre 13 e 14 anos. Entretanto, especialistas consideram normal que ocorra aproximadamente entre os 9 e os 14 anos, dependendo do início da puberdade e das características individuais de cada garoto.
Antes da espermarca, outros sinais costumam indicar que o organismo está entrando na puberdade, como alterações no odor corporal, crescimento dos testículos e mudanças físicas progressivas.
Enquanto muitas meninas passam por consulta ginecológica após a primeira menstruação e recebem orientações sobre as mudanças do corpo, o mesmo nem sempre acontece com os meninos após a primeira ejaculação. Embora a espermarca não exija obrigatoriamente avaliação médica específica, especialistas afirmam que a falta de informação faz com que muitos adolescentes vivam esse momento sem compreender o que está acontecendo.
Segundo Tiseo, ambientes em que a sexualidade ainda é tratada como um assunto proibido podem provocar sofrimento emocional durante essa fase. “Ambientes em que a sexualidade é vista como algo que deve ser escondido podem levar o adolescente a se sentir mal com o próprio corpo”, afirma.
Além da vergonha, a falta de diálogo pode gerar ansiedade, insegurança e dúvidas sobre sexualidade e funcionamento do organismo. Para os especialistas, o ideal é que as conversas sobre puberdade e sexualidade não ocorram apenas depois da primeira ejaculação, mas desde os primeiros sinais das mudanças corporais.
Segundo Tiseo, não existe uma idade exata para iniciar esse diálogo. O mais importante é que pais e responsáveis estejam disponíveis para responder perguntas de forma natural e adequada à idade do adolescente.
“Nesse momento, questões ligadas à sexualidade já podem ser abordadas pela família. O mais importante é criar um ambiente de abertura para dúvidas e curiosidades, sempre respeitando a privacidade do adolescente”, afirma.
Os especialistas ressaltam que o diálogo contribui para reduzir medos, combater informações incorretas e fortalecer a confiança entre adolescentes e familiares. Embora a primeira ejaculação não represente um problema de saúde nem exija atendimento específico, o acompanhamento médico durante a adolescência pode contribuir para esclarecer dúvidas e orientar sobre as mudanças naturais do desenvolvimento.