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Alerta

Morte súbita na corrida: quais são as causas e os principais fatores de risco

Especialistas alertam que doenças cardíacas silenciosas podem se manifestar durante esforços intensos e reforçam importância da avaliação médica antes de provas longas
Por O Correio de Hoje
28/07/2026 | 17:12

A morte súbita durante provas de corrida é considerada um evento raro, mas pode ocorrer até mesmo entre pessoas aparentemente saudáveis, principalmente quando existem doenças cardiovasculares ainda não diagnosticadas. A avaliação é de especialistas ouvidos após a morte do corredor Júlio Barreto, de 50 anos, ocorrida no último domingo 26, durante a SP City Marathon, em São Paulo.

A competição reuniu percursos de 21,1 e 42,2 quilômetros. Depois de concluir a prova, Júlio relatou dores no braço enquanto caminhava em direção a uma ambulância disponibilizada pela organização. Em seguida, sofreu um mal súbito, perdeu a consciência e caiu. Apesar das tentativas de reanimação ainda no local e do encaminhamento ao hospital, ele não resistiu.

corrida
A corrida continua sendo segura para a maioria, desde que haja preparo, acompanhamento e atenção aos limites do corpo

Segundo a cardiologista Thaís Pinheiro Lima, especialista em cardiometabolismo, a morte súbita cardíaca é caracterizada por um óbito inesperado, normalmente precedido por perda abrupta da consciência e que pode ocorrer até uma hora após o início dos sintomas.

“Durante uma corrida de rua, o esforço físico intenso, a desidratação e o aumento de hormônios como cortisol e adrenalina estimulam o sistema nervoso simpático, elevando a frequência cardíaca e podendo desencadear a ruptura de placas de gordura nas artérias coronárias”, afirma.

De acordo com a médica, a ruptura dessas placas favorece a formação de coágulos capazes de interromper o fluxo sanguíneo para o coração, provocando um infarto e, em alguns casos, arritmias potencialmente fatais.

As causas variam conforme a idade. Entre atletas jovens, especialmente aqueles com menos de 35 anos, predominam doenças genéticas ou congênitas, como a cardiomiopatia hipertrófica. Já entre pessoas com mais de 40 anos, a principal preocupação é a doença arterial coronariana.

“Mesmo atletas bem condicionados podem ter cardiopatias silenciosas que não dão sintomas no dia a dia, mas se manifestam à medida que o esforço aumenta”, afirma o médico do esporte João Branco, que atua na formação de atletas no Rio de Janeiro.

Os especialistas ressaltam que a avaliação médica antes de participar de provas de longa distância é uma medida importante para identificar fatores de risco e não deve ser encarada apenas como uma exigência burocrática.

“Não é um mero atestado burocrático, isso é muito importante para salvar vidas, para identificar problemas prévios”, diz Thaís Pinheiro Lima.

Segundo os médicos, a consulta deve incluir investigação do histórico familiar de morte súbita, exame físico detalhado e eletrocardiograma. Dependendo dos resultados, o cardiologista pode solicitar exames complementares para aprofundar a avaliação.

Além da avaliação médica, o preparo para provas de longa distância deve envolver planejamento do treinamento, fortalecimento muscular, orientação nutricional e acompanhamento profissional.

Os especialistas também orientam que qualquer alteração em relação ao padrão habitual do corredor seja motivo para interromper imediatamente a atividade física e procurar atendimento médico.

Entre os principais sinais de alerta estão dor no peito, sensação de pressão ou queimação no tórax, falta de ar desproporcional ao esforço, palpitações persistentes, tontura, visão turva, sensação de desmaio, náuseas intensas, vômitos, perda da consciência e confusão mental.

“Quando o corpo demonstra algum sinal que foge da realidade ou do que a pessoa sente rotineiramente, isso não pode ser ignorado”, afirma João Branco.

Outra situação que merece atenção é a queda no desempenho físico. Segundo o médico, corredores acostumados a determinado ritmo que passam a apresentar fadiga prolongada, recuperação mais lenta ou dificuldade para manter a intensidade habitual dos treinos devem interromper o aumento da carga e buscar avaliação especializada.

“Pode ser uma condição cardiovascular que precisa ser investigada”, afirma.

Apesar da repercussão provocada por mortes durante competições, os especialistas reforçam que a corrida de longa distância continua sendo considerada uma atividade segura para a maioria das pessoas quando praticada com treinamento adequado e acompanhamento médico.

“O esporte não deve ser visto como um fator de risco, mas como um instrumento de prevenção. O desafio é identificar precocemente as pessoas com maior vulnerabilidade cardiovascular para que possam praticar atividade física com segurança”, afirma Thaís Pinheiro Lima.

Em nota publicada nas redes sociais, a organização da SP City Marathon lamentou a morte de Júlio Barreto e informou que o corredor recebeu atendimento imediato, com manobras de reanimação ainda no local da prova, antes de ser encaminhado ao hospital, onde teve o óbito confirmado.