O Brasil mudou a aparência das campanhas eleitorais. Já não se veem, como antes, ruas tomadas por panfletos, brindes distribuídos em massa e showmícios como parte da rotina política. Uma prática, porém, continua resistente ao tempo: a tendência de governantes ampliarem despesas quando se aproximam as urnas.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem recorrido com frequência à distribuição de medidas de apelo eleitoral, mas os governos estaduais também entraram com força nessa conta. A despesa adicional já assumida deve ter impacto próximo de 2% do Produto Interno Bruto (PIB). Desse total, 0,9 ponto percentual virá do governo federal, 0,6 dos estados e 0,5 de gastos realizados fora das metas fiscais.

O resultado dessa combinação aparece nas projeções da XP Investimentos reveladas em reportagem do jornal O Globo. Os estados devem encerrar 2026 com déficit fiscal de R$ 6 bilhões. Ao fim de 2025, os 26 estados e o Distrito Federal ainda somavam sobra de caixa de R$ 29 bilhões. Em vez de utilizar esse fôlego para conter despesas e reduzir o endividamento, governadores de diferentes partidos ampliaram os gastos.
Entre janeiro e abril, as despesas cresceram 6,5% acima da inflação, ritmo duas vezes maior que o avanço da arrecadação e das demais receitas.
Há exceções. O Espírito Santo aparece entre os poucos casos de disciplina fiscal. O estado possui dívida baixa. Pela relação entre dívida consolidada e receita corrente, registra 32%, percentual distante do limite de alerta fixado pelo Tesouro Nacional.
Segundo o Boletim de Finanças dos Entes Subnacionais, publicado em fevereiro, o endividamento capixaba caiu entre 2023 e 2024. Em 2025, o estado teve resultado primário positivo e repetiu o desempenho no período de janeiro a abril deste ano. O exemplo demonstra que austeridade em ano eleitoral não é uma impossibilidade técnica, mas uma escolha de gestão.
No extremo oposto está o Rio Grande do Norte. A dívida potiguar avançou de forma significativa entre 2023 e 2024, passando de 27,5% para 41,5%. O quadro se torna mais grave porque o estado terminou o ano passado com caixa negativo e chegou a abril deste ano com déficit primário.
“Considerando a baixa disponibilidade de caixa até abril, o estado que mais preocupa é o Rio Grande do Norte”, afirmou ao O Globo o economista da XP, Tiago Sbardelotto.
O Tocantins também chama atenção. Embora tenha endividamento baixo, de 27,5%, apresenta dificuldades na condução das contas públicas. O estado fechou 2025 no vermelho e voltou a registrar resultado negativo no primeiro quadrimestre deste ano.
No topo do endividamento estadual estão Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, ambos acima do teto máximo de 200%, além de Minas Gerais, que superou o limite de alerta de 180%. Entre eles, gaúchos e mineiros encerraram 2025 com caixa negativo. Minas teve o caso mais expressivo, com déficit de R$ 11 bilhões.
A discussão sobre as dívidas dos estados repete um cenário recorrente. Periodicamente, governadores pressionam suas bancadas no Congresso Nacional e a União acaba aprovando novos programas de renegociação. O mais recente foi o Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag), aprovado no ano passado.
A adesão elevada mostra o alcance das condições oferecidas pelo programa. O efeito colateral também é conhecido: cresce o chamado risco moral, a percepção de que, mais cedo ou mais tarde, a União assumirá parte relevante do problema.
Quando esse sinal é dado de forma recorrente, o incentivo à economia diminui. Em vez de ajustar despesas, controlar gastos e reduzir o endividamento com disciplina fiscal, governantes passam a contar com uma nova rodada de alívio no futuro.
O cenário reacende o debate sobre a sustentabilidade das contas públicas estaduais em um período marcado pela proximidade das eleições e pelo aumento das despesas acima do crescimento das receitas.