O maior risco que ronda hoje a pré-campanha de Allyson Bezerra (União Brasil) não está, necessariamente, nos adversários. Está no “salto alto”, na tentação de achar que a eleição já está resolvida antes de a campanha começar oficialmente.
A julgar pelos números mais recentes, o ex-prefeito de Mossoró vive o melhor momento entre os pré-candidatos ao Governo do Rio Grande do Norte. Mas eleição majoritária estadual não se encerra em junho. Começa de verdade quando entram palanques, televisão, estruturas partidárias, polarização nacional e ataques mais duros.

Até aqui, a pré-campanha de Allyson tem sido um case de sucesso nas redes sociais. O projeto “167 Razões RN”, montado para percorrer todos os municípios do Estado, transformou o pré-candidato em uma espécie de garoto-propaganda do Rio Grande do Norte.
Em cada cidade visitada, ele busca se envolver com a população, mostrar pontos turísticos, falar das potencialidades locais, ouvir problemas e apresentar desafios. O formato aproxima, rende imagem, gera conteúdo diário e dá a impressão de presença real em todas as regiões.
O resultado aparece nas pesquisas. Na sequência de levantamentos divulgados entre maio e junho, Allyson aparece em primeiro lugar em diferentes institutos.
O dado mais forte é da pesquisa Exatus/Agora RN, divulgada em 5 de junho, que registrou Allyson com 41% das intenções de voto. Antes, ele havia marcado 39,8% no Agora Sei/96 FM, 38% na Seta, 37% no Item/TV Ponta Negra, 38,5% no Data Census, 38% na Qualitá e 35,5% no Meta Data/98 FM.
A curva, com diferenças metodológicas entre os levantamentos, indica consolidação de liderança.
No comparativo da Exatus, o crescimento também chama atenção. Allyson saiu de 37% para 41%, enquanto Álvaro Dias (PL), seu principal adversário no campo oposicionista até aqui, caiu de 24% para 22%. Cadu Xavier (PT), nome governista apoiado pela governadora Fátima Bezerra (PT), oscilou de 10% para 12%.
O movimento é compatível com o momento político: Allyson em expansão territorial, Álvaro sob desgaste e Cadu tentando sair do patamar inicial com apoio do governo e associação ao presidente Lula.
O problema de Álvaro é que sua pré-campanha tem sido marcada por tropeços sucessivos. A engorda de Ponta Negra, apresentada como uma grande obra de sua gestão em Natal, virou fonte permanente de desgaste.
A condução do processo, feita sob forte pressão política, com licenciamento judicializado, embates com o Idema, questionamentos de órgãos de controle e problemas de drenagem e alagamentos após chuvas, abriu uma frente difícil de explicar. A cada novo transtorno em Ponta Negra, a obra volta ao debate.
A isso se somam outros passivos da administração Álvaro. O Hospital Municipal São Padre Pio foi inaugurado nos últimos dias da gestão, mas segue sem funcionar plenamente um ano e meio depois.
Também houve repercussão negativa em torno de declarações sobre estudos envolvendo Uern e Caern, além da revelação de pareceres do Tribunal de Contas contrários à aprovação das contas do ex-prefeito nos exercícios analisados de sua passagem pela Prefeitura de Natal.
O conjunto fornece munição para adversários e ajuda a explicar a queda captada por pesquisas.
Cadu, por sua vez, enfrenta outra dificuldade. É o candidato do governo Fátima e, ao mesmo tempo, ex-secretário da Fazenda de uma gestão pressionada por crise fiscal, caixa negativo, folha acima do limite da LRF, contingenciamento de despesas, consignados retidos e baixa capacidade de investimento próprio.
Ainda assim, tende a crescer com a pré-campanha, pela estrutura do governo e pela tentativa de se colar à imagem de Lula, que segue com força eleitoral no Nordeste. Sua oscilação de 10% para 12% mostra movimento inicial, mas ainda insuficiente para alterar o quadro principal.
A fotografia de hoje, portanto, favorece Allyson. Se a eleição fosse agora e se os números mais favoráveis a ele se confirmassem nas urnas, haveria discussão sobre possibilidade de vitória em primeiro turno.
Mas esse é justamente o ponto em que mora o perigo. Nove entre dez analistas políticos duvidam de uma eleição estadual decidida com tanta antecedência, sobretudo em um Estado onde a polarização nacional tende a pesar quando a campanha começar de fato.
A força do lulismo pode empurrar Cadu para cima. A força do bolsonarismo pode reorganizar parte do eleitorado de Álvaro. O horário eleitoral, os palanques nacionais, os apoios municipais, a estrutura partidária e a campanha negativa podem reduzir a distância que hoje aparece nas pesquisas.
Resta saber se isso será suficiente para reverter o estrago que Allyson tem feito antecipadamente com o “167 Razões RN”, enquanto Álvaro patina e Cadu se esforça para se tornar mais conhecido.
Por isso, o desafio de Allyson agora é menos celebrar e mais administrar vantagem. Ele precisa manter ritmo, evitar erro, escapar de cascas de banana, suportar ataques e, sobretudo, calçar as sandálias da humildade.
Pesquisa boa ajuda, anima aliados e atrai apoios. Mas também cria acomodação, soberba e expectativa perigosa. O “salto alto” é hoje o adversário silencioso de quem lidera.
Até aqui, esse não parece ser o perfil de Allyson. Sua pré-campanha tem mostrado disciplina, presença e comunicação. Mas a partir do momento em que o favorito passa a ser tratado como favorito, tudo muda.
A cobrança aumenta, os erros ganham mais peso e os adversários passam a mirar o líder. Allyson construiu vantagem antes da largada oficial. Agora terá de provar que sabe correr na frente sem olhar para a eleição como vencida.