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Opinião

Crime organizado avança sobre a política

Prisão de vereador em São Paulo reforça alerta sobre a infiltração do crime organizado em setores estratégicos da economia e nas instituições públicas
Por O Correio de Hoje
26/06/2026 | 17:29

A prisão do vereador Senival Moura (PT), primeiro secretário da Câmara Municipal de São Paulo, recoloca no centro do debate um risco que o país já não pode tratar como episódico. A operação deflagrada nesta quinta-feira pela Polícia Civil e pelo Ministério Público de São Paulo aponta o parlamentar como suspeito de envolvimento com o Primeiro Comando da Capital, o PCC, num esquema de lavagem de dinheiro por meio de uma empresa de ônibus. Senival, segundo os investigadores, exerceria controle indireto sobre a transportadora e teria participação na frota. Ele nega as acusações.

O caso é grave não apenas pela posição ocupada pelo vereador na estrutura do Legislativo paulistano, mas pelo que revela sobre a estratégia de expansão do crime organizado. Facções não se limitam mais ao domínio territorial, ao tráfico ou à violência ostensiva. Avançam sobre empresas legais, setores regulados e atividades econômicas que lhes permitem movimentar recursos ilícitos com aparência de normalidade. Quanto mais se misturam ao mercado formal, mais difícil se torna separar empresários reais de operadores a serviço de quadrilhas.

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Essa infiltração sofreu golpes importantes nos últimos meses. A Operação Carbono Oculto, realizada em agosto do ano passado, expôs um amplo esquema de sonegação e lavagem de dinheiro atribuído ao PCC no setor de combustíveis. A investigação mostrou que a estrutura criminosa alcançava também fintechs e instituições financeiras da Avenida Faria Lima, sinal de que o crime já aprendeu a usar engrenagens sofisticadas para esconder patrimônio e ampliar seus negócios.

O transporte coletivo aparece, nesse ambiente, como setor especialmente sensível. Empresas de ônibus dependem de contratos, concessões, subsídios, fiscalização pública e decisões políticas. Não por acaso, Transwolff e UpBus já haviam sido investigadas em São Paulo por suspeita de associação com o PCC. A prisão de Senival está ligada a outra empresa, a Transunião. No mesmo caso, a Justiça determinou o bloqueio de até R$ 194 milhões em bens dos investigados, incluindo 117 ônibus, 21 imóveis e três embarcações.

A tentativa de ocupar espaços políticos também não é exclusividade paulista. No Rio de Janeiro, milícias perceberam há muito tempo que eleger representantes é uma forma de proteger interesses, influenciar normas e impedir, desde a origem, medidas capazes de atingir suas atividades. O tráfico seguiu trilha semelhante. Em setembro do ano passado, o então deputado estadual Thiego Raimundo de Oliveira Santos, conhecido como TH Joias, foi preso em operação das polícias Federal e Civil do Rio, acusado de atuar em favor do Comando Vermelho, uma das maiores facções criminosas do país.

O episódio teve ainda um ingrediente institucional alarmante. Rodrigo Bacellar, então presidente da Assembleia Legislativa do Rio, foi preso sob acusação de ter vazado a TH Joias a operação que o mirava. O parlamentar retirou documentos e deixou sua residência, mas acabou detido em outro endereço. O caso mostrou como a presença do crime nas instituições pode comprometer não apenas mandatos individuais, mas a própria capacidade do Estado de investigar e reprimir organizações criminosas.

Nada sugere que facções, milícias, traficantes, corruptos e seus auxiliares abandonarão voluntariamente a tentativa de se esconder atrás de empresas, mandatos e fachadas respeitáveis. O objetivo é sempre o mesmo. Preservar negócios ilícitos, proteger ganhos ilegais, reduzir riscos e dificultar a atuação dos órgãos de controle. A resposta precisa ser permanente, rigorosa e visível. Investigações consistentes, operações sistemáticas, prisões, bloqueio de ativos, confisco de bens e desmonte de empresas usadas como fachada são instrumentos indispensáveis. Além de atingir financeiramente as quadrilhas, deixam claro que o Estado não pode permitir que criminosos usem a política para fortalecer aquilo que a política deveria combater.